O Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi, durante décadas, o grande nivelador deste país — a rede que segura todos, ricos ou pobres, do litoral ao interior. Mas hoje, quando olhamos para o SNS com olhos de ver, percebemos que temos um sistema a funcionar abaixo das suas próprias necessidades: menos profissionais, menos camas do que a média europeia e uma estrutura que, ano após ano, acumula défices como quem soma feridas. O orçamento aprovado nunca chega ao fim do ano com saldo, e o dinheiro extra vem sempre tarde, como se fosse uma esmola em vez de estratégia.
E enquanto o SNS tenta sobreviver neste funambulismo financeiro, permanecem as mesmas dores: listas de espera a crescer, urgências a rebentar pelas costuras e as equipas exaustas. Quando não há camas suficientes, tudo emperra: cirurgias são atrasadas, doentes encaixados em corredores e profissionais a fazer horas impossíveis. Para tapar os buracos, o Estado recorre cada vez mais ao serviço privado — paga os exames, as cirurgias e as consultas como quem apaga fogos. Resolve no imediato, mas agrava a dependência. É como tentar segurar um barco furado com fita-cola: remedeia, mas não salva.
Em paralelo, a opinião pública vai sendo moldada, subtilmente. O privado aparece como a solução, rápido, eficiente e moderno; e o SNS surge como lento, caótico e ultrapassado. Este desgaste não nasce por mero acaso: nasce de anos de subfinanciamento e de escolhas políticas que estão a empurrar o sector público para a fragilidade. Quando o SNS fica mais fraco, o privado brilha por contraste — e assim se abrem as portas para mais convenções, mais contratos e mais transferência da actividade para fora do sistema público.
Nos últimos anos, esta transformação ganhou uma nova dimensão: a expansão do setor privado deixou de ser apenas resultado do investimento próprio e passou a refletir, de uma forma crescente, a canalização de fundos públicos. Novas unidades, centros de diagnóstico, hospitais e redes de ambulatório surgem a um ritmo alinhado com o reforço das convenções — um crescimento que não aconteceria sem o apoio sistemático do Estado. A atividade que o SNS não consegue assumir é desviada para o privado, que assim amplia a sua capacidade, estrutura-se e consolida uma posição dominante. O dinheiro público torna-se, na prática, o combustível desta expansão. E quando a estratégia de crescimento de um setor assenta na fragilidade do outro, não estamos perante um complemento — estamos perante uma substituição silenciosa.
Do lado do privado, a estratégia é clara: garantir convenções estáveis, expandir o diagnóstico e o ambulatório, articular-se com as seguradoras e construir ofertas premium. O problema não é existir o privado; o problema é quando o privado passa de complemento a ser a muleta permanente, substituindo o que o SNS deveria garantir a todos.
E enquanto isto se desenrola, há episódios que caem mal na percepção pública — como o tratamento do Presidente da República no hospital público. Não porque não tivesse direito a ele, mas porque muitos cidadãos sentiram ali o contraste entre os discursos que elogiam o SNS “de forma simbólica” e a realidade de um sistema que, para a maioria, é feito de esperas, sobrecarga e falta de recursos. A sensação de hipocrisia nasce precisamente daí: do fosso entre o país real e o país que se quer descrever.
Lá fora, o dilema não é muito diferente. O Reino Unido enfrenta o mesmo — um sistema público descapitalizado que se apoia cada vez mais no privado. Já a França e vários países nórdicos mostram que a outra via é possível: mais investimento público, mais camas, equipas reforçadas e menos dependência de serviços externos. Quando o Estado trata a saúde como uma prioridade real, o sistema público funciona — e o privado encontra naturalmente o seu lugar.
No Norte, nunca fomos fãs de fingimentos. Sabemos valorizar o privado quando é útil, mas também sabemos que o país precisa de um SNS robusto, moderno e respeitado. Porque, quando a doença bate à porta, a maioria corre para o SNS — e precisa de o encontrar de pé. Com confiança. Sem remendos. Sem propaganda.
Se queremos um futuro com saúde para todos, está na hora de abandonar as ilusões e apostar no que realmente importa: um SNS capaz, bem financiado e tratado como o pilar civilizacional que é. Tudo o resto deve servir essa missão — nunca substituir aquilo que pertence a todos.
E talvez seja este o momento de perguntar, sem rodeios: queremos um país onde a saúde é um direito ou um negócio? Porque, se continuarmos a fechar os olhos, não tardará o dia em que vamos acordar e descobrimos que o SNS, esse que sempre nos protegeu, já lá não está — foi levado, não pela força, mas pela distração e a benção de todos nós
Engenheiro/Colaborador







