O país das opiniões anónimas ou o medo de assumir – Por Rosa Fonseca

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Quando a democracia se esconde atrás do anonimato, o silêncio passa a ter mais peso do que a palavra.

Portugal ainda é um país onde todos falam de política, mas poucos dão a cara, o que nos leva a pensar que existe medo de assumir a democracia. Apesar da liberdade conquistada há 50 anos, muitos portugueses continuam a evitar identificar-se com um partido onde todos opinam, mas poucos assumem.

Somos um povo de fortes convicções políticas, é certo, mas de rostos escusos. Nas conversas de café, nos grupos de mensagens e nas redes sociais, a opinião surge com intensidade – quase sempre protegida pela comodidade do anonimato. Quando se trata de assumir publicamente um partido ou uma ideologia, instala-se o silêncio – e o inegável medo.

Este medo não é exclusivo de uma só cor política, muitos preferem evitar expor-se. Uns temem perder oportunidades no trabalho, outros receiam ser alvo de comentários depreciativos ou de rótulos simplistas. Não esquecer os que temem o julgamento no círculo de amigos ou familiares.

O medo de se assumir mina a qualidade e a verdade da democracia. Uma sociedade em que todos opinam, mas poucos assumem torna-se um terreno fértil para a intolerância. Dar a cara não deveria ser um ato de coragem, mas sim um exercício natural de cidadania. Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ser um país de opiniões anónimas – e de uma democracia feita de silêncios.

O verdadeiro desafio, quiçá, seja resistir a essa armadilha. Reconhecer o medo – porque ele existe e não deve ser negado –, mas não o deixar governar.

Também o ambiente de crispação política contribui para este cenário. Vejamos as redes sociais, fervilhantes de opiniões políticas, quase sempre em registos inflamados, mas quando chega a altura de dar a cara por um partido – seja ele de esquerda ou de direita – instala-se o silêncio. Há quem se esconda atrás de um avatar, há quem evite comentar, há quem se desdobre em justificações para não ser associado a nenhuma cor. Porque, quem dá a cara arrisca-se a ser alvo de ataques pessoais, insultos e até campanhas de difamação. Resultado: o espaço público fica entregue a vozes enaltecidas, que não hesitam em ocupar o palco enquanto a maioria se refugia na sombra.

É legítimo não querer partilhar convicções. A política não é um reality show onde tudo tem de ser exposto. Mas também é inquietante perceber que a democracia vive, em grande medida, da coragem de assumir posições. Quando o espaço público se enche de vozes anónimas e de rostos ausentes, quem fica a ganhar são os extremos — sempre prontos a ocupar o palco.

Em Portugal, muitos cidadãos continuam a sentir receio em assumir publicamente a sua ligação a um partido político. O fenómeno não escolhe lado: atinge militantes e simpatizantes de todos os quadrantes políticos.

Talvez o desafio do nosso tempo seja precisamente esse: reaprender a discordar sem hostilizar, ouvir sem ridicularizar, falar sem medo de ser silenciado. Enquanto isso não acontecer, a democracia continuará a ser feita de rostos invisíveis e de vozes que, apesar de altas, soam cada vez mais solitárias.

Enquanto tal não acontecer, a nossa democracia continuará a conviver com esta contradição: todos opinam, mas poucos assumem.

Mas este medo não é novo. Talvez venha da memória de um país em que opinar podia custar a vida.

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