O “Governo-Sombra” do Chega: Quando a taberna finge ser Parlamento – Por José Paulo Santos

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Por um cronista que ainda acredita que a razão não morreu — só está de férias forçadas.

Anunciou-se, com pompa de quem descobre a roda quadrada, que o Chega — esse partido que transformou o parlamento numa arena de gritos, ameaças e caricaturas de debate — apresentaria um “governo-sombra”. Um conceito nobre, importado das democracias parlamentares maduras, onde a oposição séria prepara alternativas credíveis, estuda políticas, escuta peritos e se apresenta como governo em espera.

Mas aqui, entre nós, o “governo-sombra” do Chega é como um “hospital-sombra” montado por charlatães com bisturis de plástico: parece, mas não corta — e se cortar, é por acidente.

O “governo-sombra” é uma invenção britânica — sim, desses mesmos britânicos que inventaram o chá das cinco e o parlamentarismo sério. Serve para que a oposição, longe de ser apenas um coro de críticas, se apresente como alternativa viável, com ministros-sombra especializados, programas coerentes, e propostas testadas. É um exercício de responsabilidade democrática. Como escreveu John Stuart Mill em Sobre a Liberdade: “A liberdade de opor e resistir ao poder errado é a única salvaguarda da liberdade.” Mas Mill não imaginava que, um dia, alguém confundisse “oposição” com “gritaria em plenário” e “resistência” com “ameaças a jornalistas”.

O Chega, porém, não tem ministros-sombra. Tem personagens-sombra. Gente cuja principal competência é saber falar alto, cuspir ódio com retórica de taberna e confundir “populismo” com “popularidade”. Um “governo-sombra” exige sabedoria, estudo, modéstia intelectual. O Chega oferece-nos, em contrapartida, a arrogância da ignorância, o charme da boçalidade e o currículo do improviso.

Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo, alertava para o perigo dos movimentos que substituem o pensamento pela repetição de slogans, a razão pela emoção bruta, o debate pela violência simbólica. Escreveu: “A propaganda totalitária só pode vencer onde o pensamento crítico foi esmagado.” Ora, o que é o “governo-sombra” do Chega senão uma encenação propagandística, destinada a dar verniz de seriedade a um projeto que se alimenta do esmagamento do pensamento crítico?

E se recuarmos a Platão — sim, aquele que expulsou os poetas da República, mas não os palhaços —, lembramo-nos de que, na República, o filósofo defende que só quem conhece o Bem, a Justiça e a Verdade pode governar. Não quem grita mais alto. Não quem ofende minorias. Não quem promete soluções simples para problemas complexos. Platão chamaria a isto doxa — opinião vazia, ilusão — e não episteme, o saber verdadeiro.

Imaginemos, por um momento absurdo, este “governo-sombra” em ação:

— Ministro-sombra da Saúde? Aquele que sugeriu que os médicos “trabalhem mais e ganhem menos”, como se a saúde fosse uma mercearia em liquidação.

— Ministro-sombra da Educação? Provavelmente alguém que acha que “disciplina” é sinónimo de palmatória e que “história” começa e acaba com Salazar.

— Ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros? Quem propõe expulsar embaixadores por discordarem da retórica xenófoba do partido.

Não é um governo-sombra. É um espectro de governo. Um fantasma que assombra a democracia com a sua presença barulhenta, mas sem substância. Um teatro onde os atores confundem o palco com o balcão do bar e o texto com o insulto, pensando que é argumentativo.

O Chega não quer governar com ideias. Quer governar — ou tentar governar — com emoções fabricadas. Medo. Raiva. Ressentimento. E agora, com a farsa do “governo-sombra”, quer fazer-nos crer que também tem competência.

Mas a competência não se decreta. Não se anuncia num cartaz. Constrói-se com trabalho, com escuta, com humildade e inteligência. Como dizia Espinosa: “Nada na natureza é contingente; todas as coisas são determinadas pela necessidade da natureza divina.

Pois bem: na natureza política do Chega, nada é contingente — tudo é determinado pela necessidade de escândalo, de holofote, de confronto, de mentira e falsidade.

Chamar “governo-sombra” ao que o Chega propõe é um insulto à inteligência dos portugueses, de todos os portugueses — e aos regimes parlamentares que, com esforço e decência, tentam manter acesa a chama da democracia. É como chamar “orquestra” a um bando de gente a bater em panelas. Pode fazer barulho. Pode até distrair. Mas não é música, não é a melodia de que todos precisamos para construir paz e democracia.

Se o Chega quer ser levado a sério, que comece por respeitar a seriedade. Que estude. Que estude muito, mesmo. Que ouça. Que pare de confundir o parlamento com uma taberna romana, onde se grita, se bebe e se vomita sobre os valores da República.

Até lá, o seu “governo-sombra” será apenas isso: sombra. Sem luz, sem corpo, sem futuro. E, acima de tudo, sem vergonha — o que, convenhamos, é o seu traço mais coerente.

“A sombra só existe onde há luz. O Chega, porém, prefere a escuridão — porque é lá que as mentiras crescem sem serem vistas.”


P.S. Um pensador anónimo, que provavelmente fugiu de uma reunião do partido para o Festival da Bifana.

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