O génio UMM

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Em Portugal existem centenas de jipes UMM, a maioria fabricada no nosso país e cuja fabricação nunca devia ter sido finalizada. Os amantes desta marca continuam a realizar expedições e tratam os seus veículos como filhos adoptivos.

O UMM pode ser considerado o melhor jipe do mundo. Exagero? Não, não é exagero, porque na década de 1980 o autor destas linhas e mais seis camaradas pilotos e loucos por aventura, quando tiveram conhecimento do anúncio pelo general Ramalho Eanes, que Macau iria ser entregue à China, logo pensaram que se os portugueses chegaram a Macau por mar, seria a hora de simbolicamente regressarem à mãe-pátria por terra. Durante dois anos organizou-se o sonho que mantivemos, em percorrer a distância de 22 mil quilómetros entre Macau e Portugal via terrestre. Foram contactadas todas as marcas de jipes e as mais prestigiadas responderam que não forneciam os veículos por se tratar de uma expedição praticamente impossível devido à sua dificuldade e as marcas não podiam perder credibilidade se os carros não terminassem a aventura.

No entanto, o Governador de Macau, engenheiro Carlos Melancia, tinha conhecimento com os administradores fabricantes dos jipes UMM e falou-lhes no assunto. A resposta foi imediata e positiva. Foram enviados para Macau, via marítima, três jipes UMM devidamente equipados como os organizadores pretenderam.

No dia 17 de Abril de 1988 teve início o maior Raid Terrestre realizado no mundo. Durante 50 dias sete raidistas, depois de dois anos de contactos diplomáticos para a obtenção dos vistos na travessia de países quase impenetráveis naquele tempo, como a China, Paquistão e Irão, tudo se conseguiu e o épico Raid Terrestre Macau-Lisboa teve o seu início, percorrendo toda a China, inclusivamente o deserto do Gobi com os seus 60 graus de temperatura e os Himalaias a 6 mil metros de altitude com 35 graus negativos.

Da China passámos para o Paquistão, mais um deserto e a guerra com o Afeganistão. Seguiu-se o Irão com os guardas revolucionários a obrigarem os raidistas a beijar a fotografia do líder Komeini e as bombas do Iraque, em guerra com o Irão, a caírem perto dos UMM. Do Irão, seguiu-se a Turquia, Bulgária, Jugoslávia, Itália, França, Espanha e a Torre de Belém onde os aventureiros, que viram a morte por perto umas cinco vezes, foram apoteoticamente recebidos por centenas de compatriotas e familiares e onde entregaram aos CTT a primeira e única mala postal vinda por terra entre Macau e Portugal.

De salientar, que os três UMM chegaram a Lisboa sem qualquer avaria, quando os responsáveis pela UMM já se dariam por contentes se chegássemos com apenas um jipe. Tratou-se de um feito histórico, de tal forma, que o Presidente da República, Mário Soares, decidiu condecorar com a Ordem de Mérito Desportivo os sete aventureiros João Queiroga (professor de Educação Física), Jorge Barra (jurista), João Severino (jornalista), Mok Va Hoi (engenheiro mecânico), João Santos (engenheiro mecânico), José Babaroca (Operador de imagem) e Vitalino Carvalho (médico).

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