Nuno Silva Pinto – “O setor florestal ainda sofre de uma perceção negativa junto do público urbano”

No âmbito do projeto de Análise de Casos sobre a empresa Unimadeiras, desenvolvido na Escola Superior de Negócios Atlântico, o Grupo UniGênese sentou-se à conversa com Nuno Silva Pinto, Head of ESG & Innovation do Grupo Unimadeiras. O diálogo aborda os desafios e as iniciativas que estão a impulsionar a sustentabilidade e a inovação na organização. O Cidadão associou-se a este projeto académico e publica a entrevista.

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Foto de Unimadeiras

O Cidadão (OC)– Quais foram os desafios ao longo das décadas?

Nuno Silva Pinto (NSP)Ao longo das últimas quatro décadas, o setor florestal enfrentou transformações profundas, particularmente ao nível regulatório, com a introdução de diretivas europeias cada vez mais exigentes. No entanto, considero que foi precisamente essa pressão que contribuiu para a profissionalização do setor e para a afirmação de empresas como a Unimadeiras.
A necessidade de adaptação a normas ambientais, de rastreabilidade e certificação obrigou a empresa a investir em processos mais estruturados, tecnologia e conhecimento técnico. Este contexto acabou por funcionar como um fator diferenciador: quem conseguiu adaptar-se rapidamente ganhou vantagem competitiva. A Unimadeiras destacou-se precisamente por antecipar tendências e posicionar-se como um parceiro credível e responsável.

OC- Quais são os principais desafios atuais do setor?

NSP- Atualmente, o setor enfrenta três grandes desafios: fragmentação da propriedade, risco climático (especialmente incêndios) e pressão regulatória crescente.
A Unimadeiras tem vindo a posicionar-se como um agente agregador, promovendo uma gestão mais eficiente e sustentável das propriedades florestais. Ao mesmo tempo, aposta em certificação, inovação tecnológica e proximidade com os produtores, garantindo não só matéria-prima, mas também qualidade e sustentabilidade.

OC- De que modo a Unimadeiras se relaciona com os pequenos proprietários?

NSP – O contacto com pequenos proprietários é essencial e exige proximidade, confiança e acompanhamento contínuo. A Unimadeiras atua não apenas como compradora, mas como parceira técnica, ajudando na definição de práticas de gestão sustentável e na obtenção de certificações.
Este apoio passa por aconselhamento técnico, planeamento de cortes e incentivo à adoção de boas práticas que aumentem o valor da floresta a médio e longo prazo.

OC – Qual a relação com fornecedores?

NSP -A relação com a base de fornecimento assenta em estabilidade e confiança. A empresa procura garantir previsibilidade através de contratos claros e apoio técnico contínuo.
Mais do que uma relação transacional, existe uma lógica de parceria, onde se promove uma gestão responsável dos recursos, garantindo que o futuro da floresta não é comprometido por decisões de curto prazo.

OC– Que desafios enfrenta a madeira em grosso?

NSP- A disponibilidade e qualidade da madeira são hoje fatores críticos. Eventos climáticos extremos, incêndios e práticas de gestão menos adequadas impactam diretamente a matéria-prima.
Estes fatores obrigam a uma gestão mais estratégica do abastecimento, com diversificação de fontes, maior planeamento e investimento na valorização da madeira disponível.

OC – Como a Unimadeiras gere a sazonalidade e os eventos externos?

NSP A sazonalidade e eventos como incêndios ou tempestades criam grande volatilidade no abastecimento. A resposta passa por planeamento antecipado, criação de stocks estratégicos e flexibilidade operacional.
Além disso, a diversificação geográfica e o acompanhamento contínuo das condições florestais permitem reduzir riscos e garantir maior estabilidade.

OC- Qual o contributo dos dados versus a experiência na tomada de decisão?

NSPA tomada de decisão na Unimadeiras resulta de um equilíbrio entre dados e experiência. Os KPIs e indicadores são fundamentais para garantir rigor e controlo, mas a experiência acumulada da gestão continua a ser decisiva, especialmente em contextos de incerteza.
É essa combinação que permite decisões mais rápidas, mas também mais informadas e resilientes.

OC- Qual o papel da certificação como valor real?

NSP- A certificação só faz sentido se for mais do que um requisito administrativo. Para ser um verdadeiro diferenciador, tem de gerar valor ao longo de toda a cadeia.
Isso implica transparência, auditorias rigorosas e, sobretudo, comunicação clara ao cliente final. Quando bem implementada, a certificação aumenta a confiança, valoriza o produto e contribui para uma gestão mais sustentável.

OC – Qual o envolvimento da Unimadeiras no uso de tecnologia (sensores, drones, IA)?

NSP – Estas tecnologias estão ainda em fase de desenvolvimento e consolidação, mas já demonstram grande potencial. Permitem monitorizar áreas florestais com maior precisão, otimizar operações e até medir captura de carbono.
A tendência é clara e a digitalização do setor será um fator-chave de competitividade nos próximos anos.

Foto de Unimadeiras

OC – Biomassa e pellets – critérios essenciais: Quais os principais indicadores para garantir a sustentabilidade da sua utilização?

NSPA biomassa e os pellets podem ser soluções eficazes, mas apenas se forem utilizados com critérios rigorosos.
Os indicadores não negociáveis incluem a origem sustentável da matéria-prima, eficiência energética dos processos e impacto ambiental global. Sem estes critérios, corre-se o risco de comprometer os benefícios ambientais.

OC – Como a Unimadeiras perceciona a imagem do setor?

NSP – O setor florestal ainda sofre de uma perceção negativa junto do público urbano. É fundamental comunicar melhor e demonstrar que exploração económica e sustentabilidade não são incompatíveis.
A chave está na transparência, na educação e na aproximação entre o mundo urbano e rural, mostrando o papel essencial da floresta na economia e no ambiente.

OC – Como pode a Unimadeiras contribuir para uma maior inclusão e impacto social?

NSP – A Unimadeiras pode promover inclusão através de iniciativas locais, envolvendo comunidades rurais e criando oportunidades económicas.
O envolvimento dos colaboradores e produtores é essencial para garantir que estas iniciativas têm impacto real e duradouro.

OC –  Quais as lições que se podem retirar dos incêndios de 2017?

NSP – Os incêndios de 2017 foram um ponto de viragem. Trouxeram maior consciência para a importância da prevenção, da gestão ativa da floresta e da proximidade com as comunidades.
Também reforçaram a necessidade de colaboração entre empresas que fazem parte deste setor e as autoridades.

OC – Qual o impacto e a influência das crises na visão da empresa?

NSP As experiências vividas em contextos de crise, como os incêndios florestais, tiveram um impacto profundo na forma como a empresa encara o seu papel no território e na sociedade. Mais do que um desafio operacional, estes momentos funcionaram como catalisadores de mudança na forma de pensar e agir.
Por um lado, reforçaram a consciência de que a floresta não pode ser gerida apenas numa lógica económica de curto prazo. Tornou-se evidente que a resiliência do território depende de uma gestão ativa, contínua e integrada, onde prevenção, ordenamento e envolvimento dos proprietários são fundamentais. A empresa passou, assim, a valorizar ainda mais o seu papel enquanto agente de proximidade, com responsabilidade não só na cadeia de valor, mas também na sustentabilidade do ecossistema florestal.
Por outro lado, estas crises evidenciaram a importância da relação com as comunidades locais. O apoio prestado no pós-incêndio, seja ao nível da recuperação das áreas afetadas, seja no acompanhamento dos produtores contribuiu para fortalecer laços de confiança e para afirmar a empresa como um parceiro presente e comprometido. Essa proximidade revelou-se essencial não só na resposta à crise, mas também na construção de soluções preventivas para o futuro.
Além disso, estas experiências trouxeram uma maior sensibilidade para a dimensão social do setor. A empresa passou a integrar de forma mais clara preocupações relacionadas com o impacto nas pessoas, na coesão territorial e na valorização das zonas rurais, reconhecendo que a sustentabilidade não é apenas ambiental e económica, mas também social.
Em suma, os contextos de crise contribuíram para uma evolução da visão da empresa, tornando-a mais consciente, mais integrada e mais orientada para o longo prazo, onde o sucesso não se mede apenas em resultados imediatos, mas na capacidade de criar valor sustentável para a floresta, para os parceiros e para a sociedade como um todo.

OC –  Quais são as prioridades estratégicas (3-5 anos)?

NSP – Nos próximos anos, as prioridades passam por: reforço da sustentabilidade e certificação; digitalização e inovação tecnológica; consolidação da cadeia de abastecimento; maior proximidade com produtores; diversificação de produtos e mercados. Estas prioridades traduzem-se num modelo de negócio mais resiliente, sustentável e orientado para o longo prazo.

Entrevista conduzida por: Alberto Vassalo, Artur Loureiro, Francisco Quissindo, Maria Alberto, Raquel Pinhal, Ricardo Oliveira, Tânia Moreira e Tânia Sousa (Grupo Unigênese/OCidadão)

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