NOME DE AUGÚRIO Sim. O monte está negro. Feito de cinza. Farrapo de terra. Morte com nome de gente. E o governo à sombra, bebendo seus refrescos, sorrindo com todos os dentes, em festa. Sorrindo e acenando à marcha fúnebre. Acenando e rindo na cara das vítimas. Vítimas essas que jamais lhes pedirão contas ou voltarão para lhes apontar o dedo. Vítimas em silêncio.
Agora, já só lágrimas, só tv, só comentários, só comentadores, só notícia, só passado, só promessas, só ostras e champanhe para quem desgoverna, para quem ganha com a lenha, com o lítio, com a guerra, com os meios de combate ao incêndio, com a água que se gasta e se perde, com a aflição e a dor alheia, com a agregação das populações na costa sobrepopulada, com a falta de casas, com a falta de trabalhos, com a falta de humanidade, com o ódio ao próximo, ao emigrante, àquele diferente de nós que está por cá para suprir nossas necessidades básicas. Nosso predileto bode expiatório.
O flagelo do incêndio não é a morte em si, é a inibição de continuar a viver. E eu que nem sou tipo para estas crónicas, e que já tive o fogo à porta duas vezes este ano, oiço os bombeiros de madrugada, porque sempre a luz da lua aquece os vidros das garrafas partidas na mata, sempre uma beata atirada numa noite de insónia pregando um fogo ao diabo, e nunca um incendiário, nunca um intermediário, nunca pelo dinheiro, nunca a urgência de ver arder aquele que constrói e pacifica.
Eu que já nem durmo por medo, que só chamo pelo inverno, escrevo – meu remédio último. Não somos um povo de mansos. Somos um povo cansado. Povo de olheiras. Povo prostrado por alimentar vampirismos de direita e de esquerda, de extremas e de centros.
Nós somos um povo que explodirá mais tarde ou mais cedo. Que eventualmente abrirá o olho e se vingará, quiçá, naquele que só pretenda resolver e ajudar. Pagará o justo pelo pecador? Um povo cansado é pior que um povo insatisfeito.
Um povo insatisfeito tem forças para reclamar, manifesta-se. Um povo cansado, suicida-se sem medo de levar consigo seus líderes. Fica o aviso. Tenho dito.
Escritor














