Merci, Brigitte

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Escrevi-lhe uma carta. Há quase uma década, decidi afinar minha letra e chegar meus assuntos ao papel. Desconhecia forma mais digna de lhe revelar meus apreços. É que uma carta fica para sempre, sim? Uma carta sempre se guarda na gaveta. Não é qualquer mensagem, é a nossa mão comandando a tinta de uma caneta, o nosso coração riscando a folha, uma palavra de honra em formato de assinatura. E pela sua luta nas causas que partilhávamos, pela admiração que nutria pelos seus esforços artísticos, pelas tardes dançando a sua música, pelas portas escancaradas à língua de Aznavour e tantos, pela sua língua cantada, pela sua força quase selvagem em “Tu veux ou tu veux pas”, Brigitte valia o meu amor por escrito.

Desejava agradecer-lhe. Mostrar-me aliado. Falar-lhe um pouco da sua contribuição na minha história. Ela vivia no sul de França, em Saint Tropez, numa quinta idílica e abençoada por uma serra muito verde sobre um mar muito liso. “Qualquer pessoa merece uma paz assim”, pensei de mim para mim, em 2006, aquando de uma breve passagem pela Côte D’azur. Uma passagem que me levara a compreender a sua decisão. Com apenas 39 anos, abandonara a carreira de atriz, largara todo o glamour por aquele santuário, pelo futuro de seus protegidos. “Dei minha beleza e minha juventude aos homens. Vou dar minha sabedoria e minha experiência aos animais.”, disse. Treze anos depois, criou sua Fundação e foi para lá que enviei a minha carta num envelope que continha também um postal e um par de fotos suas com o pedido único de que mas assinasse. Seria desnecessário dedicatória. Queria roubar-lhe tempo nenhum. Queria somente o embrulho gráfico do seu nome, sua atestada leitura.

Naquele tempo, era habitual corresponder-me com pessoas que admirava. Começara por Tina Turner, minha cantora de predileção, que me responderia meses mais tarde. Quando já não havia esperanças ou lembrança de ter enviado fosse o que fosse, encontrara seu caminho para a minha cabeceira. A surpresa levou-me a arriscar fichas junto de Shirley Bassey, Sophia Loren, Giorgio Moroder, Bryan May, enfim… Todos responderam. BB não foi excepção. Melhor, assinou ambas as fotos com dedicatórias próprias de alguém que dispunha de uma sensibilidade rara. Numa delas, podemos ler: “To Pedro, my animal’s friend, with all my love, Brigitte Bardot”.

Hoje, diante dos emoldurados autógrafos que guardo na sala onde trabalho, noto que o século vai acelerando. Foge-nos? Num galope, atravessa nossas horas, escapando ao antecessor. Quer destacar-se? O século xxi parece abandonar as referência de seu passado pai. Parece rasgar com as convenções e educações milenares. Quiçá valha pararmos um minutinho e avaliarmos aqueles que, como Brigitte, inauguraram pensamentos, descomplexando gerações. Brigitte é símbolo de Liberdade, de feminismo, de cinema, de arte, de opinião. Brigitte de tanto, é também sinónimo de irreverência e só Brigitte para cantar:

A vida, sim é uma ginástica/ La vie, oui c’est une gymnastique; E é como a música/ Et c’est comme la musique; Tem o mal e tem o bem/ Y a du mauvais et du bon; A vida, para mim ela é magnífica/ La vie, pour moi, elle est magnifique; Por que é que a complicas/ Pourquoi tu te la compliques?; Com tuas hesitações/ Par tes hésitations?; Queres ou não queres/ Tu veux ou tu veux pas?

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