
Não, não foi fácil.
Aos 36 minutos de jogo, através de grande penalidade – bem assinalada – o FC Porto adiantou-se no marcador. Samu, que já ia com duas grandes penalidades falhadas nos últimos dois jogos, tinha de redimir-se. Farioli exigia-o, quando, depois do inêxito, referiu que Samu marcaria o próximo penalty que fosse assinalado.
E à passagem da meia hora, apareceu o castigo máximo. E sentiu-se a tensão na equipa. Lá atrás, Bednarek benzeu-se duas vezes; de frente para Dani Figueira, guardião gilista, Samu respirou fundo por três vezes, antes de partir para a bola. Atirou, colocado, o guarda-redes adivinhou o lado, mas não chegou lá. Os portistas colocavam-se em vantagem e Samu superava o “trauma” das grandes penalidades. Foi um dos pontos altos da partida.

Futebol pragmático
O FC Porto teve pela frente uma equipa muito bem organizada, a querer disputar o jogo (nada de “autocarros! na área) e, em muitas fases, a criar oportunidades. Não supreende, pelo que joga, andar a lutar por um lugar “europeu”.
O jogo começou a tornar-se complicado para o lado “azul e branco”. Muita luta a meio campo e os ataques bem delineados pelo Gil VIcente, não dava sossego.
Os Dragões procuraram desde cedo chegar à vantagem, mas o “último passe” saía sempre mal. Nada que os desmoralizasse – continuavam a insistir.
Depois de fazer o 1-0, o FC Porto não descansou. Porque o Gil Vicente não deixou. Também insistia em busca do empate, ainda na primeira parte.
Por muito que os adversários joguem, não é fácil superar o “muro” portista – Bednarek, Thiago Silva e Kiwior. Não serão imbatíveis, mas muito dificeis de ultrapassar. E o GilVicente bem o sentiu. E quando a bola escapa, lá está Diogo Costa para bater. O que também é difícil.

Se não fosse esta qualidade defensiva do FC Porto, talvez o “Gil” tivesse marcado o seu golo de honra.
A par do “muro” está a forma pragmática de jogar. Se é para defender, defende, nem que tenha de encostar-se à área ou aliviar bolas para a bancada. Este FC Porto não tem “vergonha” de ser dominado quando o adversário está por cima. Se o jogo pede que jogue “feio”, assim acontece. E recorrer à falta faz parte do ADN da equipa. Depois, com a qualidade dos seus jogadores, quando a “onda passa”, volta a atacar até marcar. Sem compexos e com paragmatismo, segue invicto no campeonato.
A expulsão e “Martins”
Por coincidência, dois “Martins” foram protagonistas nesta partida. Um de apelido Fernandez e outro, Fernandes.
Pois o Fernandez, uruguaio da equipa de César Peixoto, de nome Martin, entrou aos 67 minutos e na primeira vez em que participa num lance, vê vermelho direto. Perna levantade acima do que é permitido pelos regulamentes e, de sola, atinge Thiago Silva. O árbitro não teve dúvidas, expulsou-o.
E a vida ficou mais fácil para a equipa do Porto.
Para não repetir a postura errática que teve quando jogou contra 10 na Chéquia, os portistas aumentaram a velocidade do jogo e empurraram o adversário para a sua área.
Aos 74 minutos, foi a vez do Fernandes ( Martin), a estar em destaque, mas pela positiva. Rematou de fora da área, forte e colocado, levando a bola a anichar-se no fundo das redes dos minhotos. Um grande golo de Martin Fernandes! O primeiro que marca, ao fim de mais de 50 jogos pela equipa principal.
O FC Porto ainda marcaria o terceiro, por William Gomes, depois de uma “cavalgada”, em que foi deixando adversários para trás, isolou-se e bateu facilmente Dani Figueira. Ficava assim estabelecido o resultado final – 3-0

O Gil Vicente nunca baixou os braços. E aos 88 minutos, um cabeceamento de Bermejo, obrigou Diogo Costa a fazer a defesa da noite.
Um triunfo indiscutível, frente a uma equipa que tem futebol com qualidade suficiente para bater-se pelo quarto lugar do campeonato. E se tivesse marcado um golo na noite de ontem, teria sido justo também.
Declarações
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Temos de continuar com a mesma atitude”

“O resultado de hoje foi importante, frente a uma equipa que está a fazer um trabalho fantástico na I Liga. Tivemos poucos dias entre jogos, um voo atrasado, várias circunstâncias difíceis e tudo isso dá um valor acrescentado a este resultado.
Já estamos a pensar na preparação para o jogo frente ao Rangers, que é muito importante para nós. A atitude e a mentalidade ganhadora que os jogadores aplicam não apenas no jogo, mas especialmente nas sessões de treino, ajuda a elevarmos o nosso nível e a sermos mais competitivos.
A avaliação que fazemos deste primeiro período é muito positiva, principalmente ao nível da atitude, e agora temos de continuar. Há muito a melhorar. Hoje, tivemos duas ou três oportunidades que poderíamos ter convertido numa fase mais inicial da partida e, assim, encaminhá-la na direção certa.
Pedi ao Eustáquio para tomar a palavra antes do jogo e o seu discurso deu-me ‘pele de galinha’, com uma mensagem poderosa. Falou sobre a sua evolução como jogador, de onde começou e os sacrifícios que fez para chegar a este nível, e deu também as palavras certas ao Samu. Temos um grupo de líderes e de amigos que gostam de passar o tempo juntos. Muito profissionais e comprometidos com o clube.
O penálti do Samu foi muito especial. Todo o estádio cantou o seu nome e torceu por ele num momento muito particular. A reação dele depois do jogo com o Viktoria Plzen foi muito enfatizada e hoje mostrou carácter.
A progressão do Martim Fernandes é visível. Nunca tive muitas dúvidas da sua qualidade, mas acho que teve um início de época complicado devido a várias lesões. No regresso, teve alguns jogos difíceis, uma expulsão, um penálti cometido em Nottingham… Erros que lhe foram apontados e são um peso complicado para um jogador da idade dele, mas teve a capacidade para resfriar a mente e esperar pelas oportunidades”.
César Peixoto (treinador do Gil Vicente):” Nunca abdicámos da nossa identidade”

“Sabíamos que o FC Porto iria entrar forte nos primeiros 15 minutos. Tínhamos de nos aguentar e acho que o fizemos muito bem. Depois, começámos a crescer no jogo, criámos uma ou outra situação em que acabámos por não finalizar e o FC Porto também teve dois lances dentro da área.
A primeira metade foi muito equilibrada e foi no detalhe do penálti que o FC Porto fez golo, o que lhes facilitou a vida. Ao intervalo, conversámos e tornámos a equipa um pouco mais agressiva e a soltar-se mais com bola.
Na segunda parte, entrámos melhor do que o FC Porto, tivemos um livre em que o Luís Esteves rematou ao poste. A equipa estava bem na procura pelo empate, nunca abdicámos da nossa identidade. A partir da expulsão [de Martín Fernández], há outro jogo totalmente diferente. Mas, mesmo com menos um, a equipa nunca se desorganizou e ainda tivemos mais uma situação.
O resultado não foi o que nós queríamos, mas nunca deixámos de ter a nossa identidade clara, de competir bem, e é isso que me deixa feliz. A equipa sabe como ganha, empata e perde. Jogar contra o FC Porto já é difícil, com um penálti e uma expulsão ainda mais, mas seguimos fortes”.
Ficha
Estádio do Dragão, no Porto.
FC Porto – Gil Vicente, 3-0.
Ao intervalo: 1-0.
Marcadores:
1-0, Samu, 37 minutos (grande penalidade).
2-0, Martim Fernandes, 75.
3-0, William Gomes, 86.
FC Porto: Diogo Costa, Martim Fernandes, Thiago Silva, Bednarek, Kiwior, Pablo Rosario, Victor Froholdt (Eustáquio, 81), Gabri Veiga (Rodrigo Mora, 61), Pepê (Pietuszewski, 76), Borja Sainz (William Gomes, 61) e Samu (Deniz Gul, 76).
Suplentes: Cláudio Ramos, Eustáquio, William Gomes, Alberto Costa, Alan Varela, Francisco Moura, Deniz Gul, Pietuszewski e Rodrigo Mora.
Treinador: Francesco Farioli.
Gil Vicente: Dani Figueira, Zé Carlos, Marvin Elimbi, Buatu, Konan, Zé Carlos Ferreira (Martín Fernández, 67), Santi García, Murilo (Sergio Bermejo, 87), Luís Esteves (Joelson Fernandes, 76), Touré (Hevertton Santos, 76) e Gustavo Varela (Bamba, 68).
Suplentes: Lucão, Bamba, Joelson Fernandes, Sergio Bermejo, Hevertton Santos, Agustín Moreira, Carlos Eduardo, Martin Benitez e Antonio Espigares.
Treinador: César Peixoto.
Árbitro: António Nobre (AF Leiria).
Ação disciplinar: cartão amarelo Murilo (35), Zé Carlos (36), Gabri Veiga (36) e Kiwior (90+4). Cartão vermelho direto para Martín Fernández (69).
Assistência: 34.273 espetadores.
Reportagem OC: Alberto Jorge Santos ( texto) e Gonçalo Bravo (Fotos)
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