
Comecemos pelo fim. Nos oito minutos finais, talvez um pouco mais, a equipa portista não deixou que “houvesse jogo”, o que prova que aprendeu a lição depois do erro que cometeu contra o Sporting, em que sofeu o golo no último minuto do tempo extra. Ontem, não foi assim. Curiosamente, no último quarto de hora, era a turma rio-avense quem estava por cima do jogo e o FC Porto geria o escasso resultado em toada defensiva. Como costuma fazer muitas vezes. Geralmente, bem, mas não deixa de ser arriscado quando o resultado é 1-0.

Porém, com as entradas de Fofana, primeiro, e Moffi, depois, renderam Gul e Froholdt, a equipa de Farioli avançou no terreno e abafou o jogo. Fosse com posse, pressão ou até algumas picardias. E não se “jogou” mais. Não é bonito, mas no futebol atual, que passou de encontro entre clubes para lutas empresariais, não há lugar para romantismos. Pouco importa como, importa ganhar. Ponto.
Nau com timoneiro
Qual medo, qual quê? O Rio Ave não tem medo. Apesar de já serem poucos os “lobos do mar”, como antigamente, na equipa, o seu ADN é de gente rija, trabalhadora e que não vira a cara à luta. Sotiris Sylaidopoulos, treinador rio-avense, carrega a tarefa de defender esse legado dos homens do mar. E fê-lo, ontem, no Estádio do Dragão.
Apesar de ocupar um lugar na tabela classificativa que não é nada confortável, ter perdido dois dos seus melhores jogadores no mercado de janeiro (André Luiz e Cleyton), não apareceu no Porto para jogar pelo “pontinho”. Nem pôs autocarros (a ser, seriam barcos) à frente da baliza. Não. Jogou. Tentou, arriscou. Procurou ser feliz. E merecia ter marcado, pois construiu oportunidades para isso.

A nau vilacondense não anda à deriva. Tem timoneiro. E alguns jogadores de qualidade, capazes de ajudar o clube a garantirt a manutenção. Olinho, Brabec, Pikic e, principalmente, Diogo Bezerra,dão nota de qualidade à equipa do técnico Sylaidopoulos.
À italiana?
O FC Porto não fez um jogo vistoso, como tem acontecido há já algum tempo. Foi prático, objetivo, realista. Ganhar por 1 ou por 10 garante o mesmo número de pontos. É claro que os jogadores do emblema “azul-e-branco” tudo fizeram para marcar mais golos. Mas a falta de um “matador” na área, como já teve tantos!, dificulta ao aumento do “score”. Mesmo assim, no jogo de ontem, podiam ter marcado dois ou três golos. Não fosse a pontaria tão afinada aos postes por parte de Gabri Veiga e Mora, teriam sido mais dois. Limpinhos!
Sem sermos especialistas de arbitragem, aos 39 minutos, deveria ter sido assinalada uma grade penalidade a punir uma entrada sobre o dianteiro Gul. O defesa do Rio Ave não ganhou posição e acertou no pé do jogador portista, quando este estava a preparar-se para rematar, isolado, frente ao guarda redes da equipa de Vila do Conde. O árbitro e o VAR, em nossa opinião, erraram.

Haverá ainda muita gente que recorda as antigas equipas italianas (e os seus treinadores). Duras, muito bem organizadas defensivamente e que, muitas vezes, ganhavam pela margem mínima. Faziam o golo e recuavam para continuar a defender com galhardia. Lembro-me de ver o Inter de Milão, a “Juve” e o Bolonha a fazerem isso.
Estará Farioli a recriar os seus “velhos mestres”? A realidade é que há já alguns jogos que o FC Porto vence pela margem mínima. E tem no bloco defensivo a setor mais forte da equipa.
O que se vê é um conjunto muito coeso, com uma defesa de “betão”, em que todos defendem quando os sinos “tocam a rebate” e sempre sem complexos. Uma gestão rigorosa dos vários momentos do jogo tem valido triunfos justos, mas difíceis.

Destaque para Froholdt, parece que está a voltar às exibições que o celebrizaram no início do campeonato; Pietuszewski, não só por assistir Froholdt no lance do golo, mas também pela sua velocidade e drible curto. Nota-se que ainda não está totalmente adaptado, mas já desequilibra. E só tem 17 anos! E, claro, o “capitão sem braçadeira”, Bednarek – uma máquina a defender e a construir.
Arbitragem fraca.
Declarações
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Pensamos sempre jogo a jogo.”

“Saímos daqui com três pontos e um golo. Já tinha dito que o mais importante é marcar sempre mais um golo do que o adversário e hoje isso deu-nos a vitória. Ainda assim, sinto que poderíamos ter conquistado um resultado mais expressivo, tendo em conta aquilo que a equipa criou.
Criámos muitas oportunidades e tivemos bons momentos. Se não me engano, até marcámos três vezes, mas nem todos os golos contaram, por isso podíamos ter resolvido o jogo mais cedo. Ainda assim, somámos mais três pontos e seguimos em frente.
A situação que tive com o árbitro não teve nada de especial nem foi polémica. O jogo estava numa boa dinâmica e, honestamente, não tenho nada a apontar à arbitragem hoje.
Nós pensamos sempre jogo a jogo. É verdade que o Varela viu cartão amarelo e vai falhar o próximo encontro, mas o foco está sempre no desafio seguinte e não em jogos mais à frente.
Podíamos ter goleado, é verdade. Houve um momento em que os adeptos esperavam uma progressão mais rápida do jogo, mas nem sempre é possível acelerar. Às vezes são necessários passos adicionais na construção.
Acredito que os adeptos gostaram do jogo. Houve muitos momentos em que o ambiente no estádio foi muito positivo. Criámos várias oportunidades e, apesar de não termos concretizado todas, a equipa fez uma boa exibição. Os adeptos têm sido fantásticos e não tenho nada a apontar.
Claro que teria sido ideal fechar o jogo mais cedo, até para gerir melhor alguns jogadores e tomar decisões diferentes nas substituições. O lado positivo é que criámos muito e espero que os golos que hoje não apareceram surjam nos próximos jogos”.
Sotiris Sylaidopoulos (treinador do Rio Ave): “Não é fácil construir nova equipa nesta fase da época”

“Sobre a sexta derrota consecutiva, é um facto, mas também é verdade que defrontámos Benfica, FC Porto e Sporting de Braga, jogos muito exigentes. Outro facto é que mudámos a equipa a meio da temporada, com sete novos jogadores e seis saídas. Não é fácil construir uma nova equipa nessa fase da época.
Ainda assim, acho que estamos a evoluir bem. Nas duas últimas exibições houve melhorias claras. Há muitas coisas positivas que precisamos de manter e nas quais devemos continuar a investir.
O pior do jogo foi termos perdido, naturalmente. Sabíamos que seria um encontro difícil. O FC Porto é uma equipa incrível, joga muito bem, é muito agressiva com e sem bola e tem uma intensidade muito elevada.
Tentámos manter o nosso plano de jogo e fazê-los sentir desconfortáveis com bola. Acho que, durante largos períodos, conseguimos fazê-lo. Mantivemos o resultado em aberto até ao último minuto, o que foi muito importante para nós.
Ainda há muito espaço para evoluir, sobretudo na posse de bola e na eficácia no último terço — encontrar melhores soluções para ultrapassar blocos baixos e quebrar linhas adversárias. Há muitas coisas a melhorar, mas as duas últimas exibições foram positivas. Acho que merecíamos mais pontos nesses jogos, mas temos de continuar e os resultados vão aparecer.
Antes de tudo, precisamos de um bom resultado para mudar o ambiente e aumentar a confiança. Mas, analisando as duas últimas exibições frente a adversários difíceis, não vejo uma equipa a perder confiança.
Não vejo falta de vontade de lutar, competir ou dar o máximo. Esse espírito existe dentro do grupo, é algo que se transmite entre todos. Os jogadores acreditam, nós acreditamos, e tenho a certeza de que os resultados vão acabar por surgir”.
Ficha do Jogo
Estádio do Dragão, no Porto.
FC Porto – Rio Ave, 1-0.
Ao intervalo: 1-0.
Marcador:
1-0, Froholdt, 22 minutos.
FC Porto: Diogo Costa, Alberto Costa, Pablo Rosario, Bednarek, Zaidu, Alan Varela, Gabri Veiga (Rodrigo Mora, 65), Froholdt (84), Pietuszewski (William Gomes, 65), Deniz Gul (Fofana, 75) e Pepê (Borja Sainz, 75).
Suplentes: Cláudio Ramos, Gabriel Brás, Prpic, Francisco Moura, Rodrigo Mora, Fofana, William Gomes, Moffi e Borja Sainz.
Treinador: Francesco Farioli.
Rio Ave: Ennio van der Gouw, Vrousai (Papakanellos, 83), Brabec, Gustavo Mancha, Omar Richards, Tamás Nikitscher (Ryan Guilherme, 82), Ntoi (João Graça, 88), Diogo Bezerra, Olinho (João Tomé, 65), Spikic (Zoabi, 65) e Jalen Blesa.
Suplentes: Kevin Chamorro, Nelson Abbey, Ryan Guilherme, Zoabi, Papakanellos, João Tomé, João Graça, Petrasso e Liavas.
Treinador: Sotiris Silaidopoulos.
Árbitro: David Rafael Silva (AF Porto).
Ação disciplinar: cartão amarelo para Francesco Farioli (90+1), João Graça (90+2), Omar Richards (90+2), Alberto Costa (90+2), Zoabi (90+6) e Alan Varela (90+7).
Assistência: 44.810 espetadores.
Reportagem OC: Alberto Jorge Santos (texto) e António Proença (Fotos)
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