Imigração (O Reverso das Marés)

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Parece ser um caso tão real quanto severo este que se desenha no nosso rectângulo à beira-mar plantado. Assistimos, com uma perplexidade crescente, a um desequilíbrio nas engrenagens da nossa força de trabalho: faltam braços para o labor braçal, enquanto as mentes mais lúcidas e preparadas se vêem empurradas para além das fronteiras. É o fado de um Portugal de capacidades limitadas, que exporta o seu ouro intelectual por falta de moldura onde o encaixar com dignidade.

Eis a complexidade do paradoxo: deixamos partir os nossos jovens, prontos para altos voos, por absoluta carência de indústrias ou instituições que honrem as suas qualificações. Em contrapartida, para colmatar o vazio nas tarefas que o solo exige, vemo-nos forçados a recorrer ao braço imigrante — gente que chega de paragens onde, infelizmente, a miséria consegue ser ainda mais profunda do que a nossa.

Há uma ironia histórica neste fenómeno. O povo português, que por tradição e sangue sempre foi de partida, é hoje o receptáculo de quem vem cumprir o que nós próprios já não aceitamos fazer. Até aqui, poder-se-ia falar de uma fria “lei da compensação”, um ajuste natural entre a carência e a oferta. Todavia, a normalidade desvanece-se quando a afluência transborda a capacidade de integração.

O problema torna-se um labirinto aparentemente irresolúvel quando milhares de indivíduos vagueiam pelas nossas ruas sem norte, sem ofício e sem ocupação. Surgem, então, os choques de princípios — de moralidade, de educação e até de religiosidade — que colidem com os costumes enraizados da nossa gente. Fica no ar a dúvida amarga: como sobrevivem? Onde buscam sustento? A suspeita de caminhos marginais instala-se inevitavelmente no espírito do observador.

Para que serve, afinal, o acolhimento de quem nada produz e se recusa à adaptação? Já nos bastam os “chico-espertos” da casa, esses ociosos que herdámos por berço e que não temos para onde mandar. Não se trata aqui de um exercício de xenofobia, mas sim de um imperativo de racionalidade. Eu próprio, que já conheci o pão do estrangeiro como emigrante, sei que a primeira obrigação de quem chega é a adaptação à terra que o recebe.

Enfrentamos um problema social de proporções vastas, permitido por uma política que oscila entre a negligência e a incompetência. Se estas consequências não forem travadas no presente, o amanhã reserva-nos um cenário de perigos indizíveis.

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