Fui ao Gato Vadio

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Há anos que adiava uma ida ao Gato Vadio. A razão de qualquer adiamento é sempre baseada numa desculpa engendrada na hora ou que se vai buscar à manga onde se guardam todas as escusas para não se fazer ou não ir… ignorando, esquecendo ou escamoteando, a verdadeira razão, que é tão simples quanto isto: a idade já manda no que podia ser a minha vontade, impedindo-me a orientação dos passos no rumo certo…

Sábado, 4 de Maio, o dia estava solarengo a convidar uma saída de casa, o que não acontece desde há cerca de um mês, com a desculpa de uma tendinite que não me larga os ombros, me faz doer a alma e impede a animação (movimento) que a alma (ánima) designa, e que me obriga a dormir sentado para evitar a dor!

A primeira e verdadeira tarefa da tarde de ontem foi visitar o Museu Nacional Soares dos Reis, que há tanto tempo saiu de obras e jamais visitei depois da renovação. A companhia para o não fazer sozinho, também era uma das melhores que podia arranjar: o meu neto.

No acervo do Museu Soares dos Reis há obras de pintura que nunca posso deixar de ver pela enésima vez como se fosse a primeira: Henrique Pousão e Silva Porto. Ambos mestres da paisagem e do retrato, que fixaram imagens e movimentos presos no tempo para nosso puro deleite.

Henrique Pousão só viveu 25 anos. Foi arrancado da vida por uma tuberculose pulmonar que, ao tempo, não poupava quem infectava. Com pouca idade produziu tão vasta e grandiosa obra, mostrando-nos paisagens e gentes italianas, tratadas de modo tão variado, que nos deixa a pensar o que teriam sido mais seis décadas acrescentadas à sua arte?… Que génio foi impedido de ser revelado?

Silva Porto também teve vida curta… não ultrapassou os 43 anos. No meu tempo de jovem com 14 anos, empregado num escritório na baixa portuense, nas minhas saídas profissionais a caminho de clientes, bancos ou fornecedores, visitava com regularidade a montra de uma galeria de Arte na Rua de Cedofeita, designada, exactamente, Galeria Silva Porto. Nunca esqueci um quadro a óleo representando lavadeiras lavando roupa num rio tão natural que não me deixava dúvida: se eu metesse um dedo naquela representação de rio ondulado pelo movimento da roupa… ele saía molhado!…

Só na saída do Museu, na procura de um café, me lembrei do Gato Vadio, ali a dois passos, na Rua da Maternidade! Tinha de ser naquele dia a efectivação de tão adiada visita àquele lugar de Cultura. Encontrei um pequeno espaço em forma de café sem preocupações decorativas que excedessem a necessidade de estantes para livros e três ou quatro mesas com cadeiras, sem estilo definido, para receber visitantes. Lugar de tertúlias com extensa agenda de apresentação de livros e de conversas com autores e pensadores (basta ir ao Google e ver).

Espaço pequeno para a necessidade, mas suficiente para agradar a quem procura lugares tradicionais por excelência, representativos da cultura citadina, e a merecerem a visita de quem por lá passe perto.

Foi a primeira das muitas vezes que lá entrarei (espero…), e onde comprei um livro do meu filósofo francês contemporâneo preferido, Michel Onfray: “Cosmos – Uma Ontologia Materialista” (Edições 70), o primeiro volume de uma colecção de três.

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