Estado da Nação? Entre a miséria e o ridículo, Montenegro escolheu serenamente os dois – Por Amadeu Ricardo

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O discurso de Luís Montenegro no debate do Estado da Nação, não foi apenas um falhanço político. Foi um exercício descarado de propaganda, empacotado com números bonitos e frases ocas, mas solenes, que tenta mascarar a verdadeira condição do país: um Estado à deriva, sem um rumo interno e totalmente submetido a interesses externos, em particular aos ditames de uma União Europeia cada vez mais centralizadora, belicista e distante da realidade dos cidadãos comuns.

Montenegro, com o seu tom de gestor diligente, esforçou-se por convencer o país de que tudo está bem: desemprego em baixa, investimento em alta, pensões com suplementos, IRC em queda. Mas basta sair à rua — ou visitar qualquer hospital público, qualquer tribunal ou qualquer escola no interior ou mesmo na periferia das grandes cidades — para perceber que este “milagre” é pura cosmética. O que existe é um país esgotado, cansado das promessas e liderado por alguém que parece estar mais preocupado em parecer competente do que a enfrentar os problemas de frente.

A medida emblemática — um suplemento entre 100 e 200 euros para pensionistas até 1 567 euros — é um exemplo perfeito do estado a que isto chegou: esmolas simbólicas lançadas como migalhas, ao invés de políticas estruturais de dignificação da reforma. O mesmo se aplica à descida gradual do IRC: uma benesse fiscal para agradar aos patrões, sem qualquer efeito real na vida das pequenas empresas ou dos trabalhadores. É política de 1ª página de de jornal ou abertura do telejornal, não de transformação.

Mas o mais alarmante nem sequer é o que foi dito — é o que foi escondido. O primeiro-ministro passou em silêncio sobre o caminho cada vez mais escuro que Portugal trilha dentro do projeto europeu. A UE impõe — e Montenegro aceita — compromissos de despesa absurda com a defesa (5% do PIB), cortes orçamentais inevitáveis para cumprir as metas de Bruxelas, aumento das contribuições para o orçamento comunitário e uma centralização progressiva dos fundos, que enfraquece a autonomia dos Estados-membros, especialmente os mais frágeis como nós, Portugal.

A narrativa do “crescimento europeu” serve apenas para disfarçar um novo ciclo de austeridade disfarçada. E o mais grave é que o Governo não apenas se submete — fá-lo de forma entusiasmada.

Montenegro apresenta tudo isto como se tudo fosse natural, inevitável e até benéfico. Mas não há nada de benéfico em pagar mais para ter menos. Não há soberania quando deixamos que os orçamentos, os investimentos e até as prioridades estratégicas sejam definidos por quem vê Portugal como uma nota de rodapé num Excel europeu.

E não nos esqueçamos o elefante da sala: o Chega. O primeiro-ministro pode não o dizer abertamente, mas os acordos implícitos com a extrema-direita — nomeadamente nas alterações à lei da nacionalidade — revelam que este governo não tem apenas falta de visão. Tem falta de coluna vertebral. Ao ceder aos caprichos identitários e xenófobos, Montenegro normaliza uma agenda que mina a democracia, enfraquece os direitos humanos e faz retroceder o país civilizacionalmente.

Portugal não precisa de um gerente. Precisa de um líder. Alguém que diga não a Bruxelas quando for preciso, que enfrente os lóbis internos e externos, e acima de tudo que defenda os serviços públicos e que assuma que o Estado da Nação não se mede com gráficos — mede-se com a qualidade de vida, com a justiça social, com o respeito pela dignidade dos seus cidadãos.

O que Montenegro nos ofereceu foi o contrário: um governo que age como executante de ordens alheias, que governa com vista curta e que não tem coragem de enfrentar os desafios estruturais do país. Portugal está a definhar, e o seu primeiro-ministro limita-se a sorrir e a acenar. O verdadeiro Estado da Nação, hoje, é de submissão. E a fatura — como sempre — será paga por quem trabalha, por quem vive do salário mínimo, por quem depende do SNS, por quem sonha com uma casa e por quem ainda acredita que este país pode ser mais do que um peão obediente num jogo que não controla.

E se continuarmos a engolir este teatro como se fosse governar, merecemos o silêncio das urgências, o vazio das escolas, o desespero das rendas e a arrogância de Bruxelas. Um país que aceita esmolas em vez de direitos, que tolera subserviência como diplomacia e que se deixa representar por figuras sem coragem, não está apenas a ser governado — está a ser humilhado.

Montenegro não é só parte do problema. Ele é o sintoma de uma doença mais grave: a normalização da mediocridade, a aceitação da miséria com gravata e PowerPoint. E enquanto continuarmos a aplaudir discursos vazios, estaremos todos a cavar a cova onde vamos enterrar o que ainda resta de soberania, dignidade e futuro.

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