História da Ciência em Portugal com Carlos Fiolhais Parte III – Iluminismo, Newton e a Revolução Científica

Na terceira sessão do curso "História da Ciência em Portugal", o professor Carlos Fiolhais abordou o século XVIII, um período de grande transformação científica e cultural, impulsionado pelo Iluminismo e pelas descobertas de Isaac Newton. A ciência em Portugal e a sua relação com o contexto europeu foram analisadas à luz destas revoluções do conhecimento.

Mais artigos

Desta vez o curso “História da Ciência em Portugal”, conduzido pelo professor Carlos Fiolhais, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, de Vila Nova de Gaia, focou-se no século XVIII, um período marcante para a ciência e a sociedade.

História da Ciência em Portugal. Carlos Fiolhais. Sessão3.
A logística impecável do El Corte Inglés, bem ilustrada por Alberto M. Pereira, à esquerda na foto, com a sala a transbordar e o curso completamente esgotado. Foto de FILIPE ARRAIS.

Segundo o professor, “o século XVIII é um dos meus séculos preferidos, pois trouxe consigo uma enorme confiança no futuro da humanidade, impulsionada pelo Iluminismo e pelos avanços científicos da época”. 

Newton e a Revolução Científica 

A sessão começou com a referência a Isaac Newton, uma das figuras centrais da Revolução Científica. Carlos Fiolhais relembrou que Newton viveu entre 1642 e 1727, ocupando a transição entre os séculos XVII e XVIII e revolucionou a forma como entendemos o mundo físico. “Newton descobriu a lei da gravitação universal, sistematizou as leis do movimento e demonstrou que a ‘luz branca é composta por todas as cores do espectro visível'”, explicou.

História da Ciência em Portugal. Carlos Fiolhais. Sessão3.
Isaac Newton. Direitos Reservados

Ao falar da famosa história da maçã que caiu sobre Newton, o físico desmistificou a lenda: “O primeiro documento onde essa história aparece foi ditado pelo próprio Newton. A lenda, como tantas outras, foi uma construção posterior”. No entanto, salientou que a ideia da gravitação foi fruto de anos de pensamento contínuo. “Quando lhe perguntaram como descobriu a lei da gravitação, Newton respondeu: ‘Pensando nela continuamente’, contou o professor, realçando a importância da curiosidade apaixonada no avanço do conhecimento. 

O impacto do Iluminismo na ciência e na sociedade 

O lente abordou também o impacto do Iluminismo, um movimento filosófico e científico que dominou o século XVIII. Segundo o professor, “o grande filósofo Immanuel Kant sintetizou o espírito da época na famosa frase ‘Sapere aude!’ ou ‘Ousa saber!’. A ciência ganhou novo ímpeto, pois passou a ser vista como o caminho para o progresso e para a melhoria da condição humana. 

Em Portugal, o século XVIII foi marcado por dois grandes períodos: o Joanino e o Pombalino. “Durante o reinado de D. João V, Portugal viveu um período de esplendor, financiado pelo ouro do Brasil”, explicou Carlos Fiolhais. Foi neste contexto que surgiu a Biblioteca Joanina, construída entre 1717 e 1728, uma das mais emblemáticas bibliotecas barrocas da Europa.

História da Ciência em Portugal. Carlos Fiolhais. Sessão3.
Biblioteca Joanina. UC | Direitos Reservados

Já durante o período Pombalino, assistiu-se a uma transformação profunda da ciência e do ensino. “O Marquês de Pombal liderou uma reforma da Universidade de Coimbra em 1772, que modernizou o ensino científico em Portugal”, destacou Fiolhais. Foram introduzidos novos cursos e criado o Laboratório Chimico, um dos primeiros da Europa, que simbolizou a aposta no conhecimento experimental. 

O Terramoto de 1755 e a emergência da sismologia 

Um dos momentos mais impactantes da sessão foi a discussão sobre o Terramoto de 1755, um dos eventos mais devastadores da história de Portugal. “Lisboa ficou completamente destruída, e o choque foi tão grande que até Voltaire escreveu sobre o terramoto, referiu o professor. O desastre também teve impacto na ciência, pois levou ao desenvolvimento de estudos sísmicos, sendo considerado um marco na história da sismologia. 

Gravura em cobre de 1755 que mostra Lisboa em chamas e o tsunami a varrer o porto.

Com o seu estilo cativante e humor mordaz, Carlos Fiolhais sublinhou a incapacidade da ciência de prever terramotos: “Ainda hoje, não conseguimos prever com exatidão quando irá ocorrer um sismo”, afirmou. Contudo, destacou que o conhecimento acumulado permite minimizar os danos e compreender melhor os fenómenos naturais. 

A visão determinista de Newton e os seus limites 

O professor abordou ainda a visão mecanicista do universo, proposta por Newton. “Segundo Newton, o mundo é como um grande relógio que funciona segundo leis fixas e previsíveis”, explicou. No entanto, Carlos Fiolhais lembrou que esta visão, apesar de extremamente poderosa, não é absoluta. “Com a chegada  da teoria do caos, percebemos que há fenómenos imprevisíveis e que pequenas diferenças nas condições iniciais podem levar a grandes mudanças”, esclareceu. 

A sessão terminou com um forte aplauso do público, onde o professor disse ainda em jeito de conclusão que, “o século XVIII foi um período fascinante, e sem ele, o mundo de hoje não seria o mesmo.

História da Ciência em Portugal. Carlos Fiolhais. Sessão3.
No final, houve ainda espaço para uma sessão de autógrafos, com destaque para um dos livros mais populares do professor, “Toda a Física Divertida” que vai na 5ª Edição. Foto e composição de FILIPE ARRAIS.

Com esta terceira sessão, o curso continua a revelar as raízes do conhecimento científico em Portugal, prometendo novas descobertas nas próximas semanas.

OC/RPC

Nota de edição: Este artigo foi enriquecido, integrando algumas sugestões gentilmente cedidas pelo Professor Carlos Fiolhais.
image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img