Desta vez o curso “História da Ciência em Portugal”, conduzido pelo professor Carlos Fiolhais, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, de Vila Nova de Gaia, focou-se no século XVIII, um período marcante para a ciência e a sociedade.

Segundo o professor, “o século XVIII é um dos meus séculos preferidos, pois trouxe consigo uma enorme confiança no futuro da humanidade, impulsionada pelo Iluminismo e pelos avanços científicos da época”.
Newton e a Revolução Científica
A sessão começou com a referência a Isaac Newton, uma das figuras centrais da Revolução Científica. Carlos Fiolhais relembrou que Newton viveu entre 1642 e 1727, ocupando a transição entre os séculos XVII e XVIII e revolucionou a forma como entendemos o mundo físico. “Newton descobriu a lei da gravitação universal, sistematizou as leis do movimento e demonstrou que a ‘luz branca é composta por todas as cores do espectro visível'”, explicou.

Ao falar da famosa história da maçã que caiu sobre Newton, o físico desmistificou a lenda: “O primeiro documento onde essa história aparece foi ditado pelo próprio Newton. A lenda, como tantas outras, foi uma construção posterior”. No entanto, salientou que a ideia da gravitação foi fruto de anos de pensamento contínuo. “Quando lhe perguntaram como descobriu a lei da gravitação, Newton respondeu: ‘Pensando nela continuamente’“, contou o professor, realçando a importância da curiosidade apaixonada no avanço do conhecimento.
O impacto do Iluminismo na ciência e na sociedade
O lente abordou também o impacto do Iluminismo, um movimento filosófico e científico que dominou o século XVIII. Segundo o professor, “o grande filósofo Immanuel Kant sintetizou o espírito da época na famosa frase ‘Sapere aude!’ ou ‘Ousa saber!’“. A ciência ganhou novo ímpeto, pois passou a ser vista como o caminho para o progresso e para a melhoria da condição humana.
Em Portugal, o século XVIII foi marcado por dois grandes períodos: o Joanino e o Pombalino. “Durante o reinado de D. João V, Portugal viveu um período de esplendor, financiado pelo ouro do Brasil”, explicou Carlos Fiolhais. Foi neste contexto que surgiu a Biblioteca Joanina, construída entre 1717 e 1728, uma das mais emblemáticas bibliotecas barrocas da Europa.

Já durante o período Pombalino, assistiu-se a uma transformação profunda da ciência e do ensino. “O Marquês de Pombal liderou uma reforma da Universidade de Coimbra em 1772, que modernizou o ensino científico em Portugal”, destacou Fiolhais. Foram introduzidos novos cursos e criado o Laboratório Chimico, um dos primeiros da Europa, que simbolizou a aposta no conhecimento experimental.
O Terramoto de 1755 e a emergência da sismologia
Um dos momentos mais impactantes da sessão foi a discussão sobre o Terramoto de 1755, um dos eventos mais devastadores da história de Portugal. “Lisboa ficou completamente destruída, e o choque foi tão grande que até Voltaire escreveu sobre o terramoto“, referiu o professor. O desastre também teve impacto na ciência, pois levou ao desenvolvimento de estudos sísmicos, sendo considerado um marco na história da sismologia.

Com o seu estilo cativante e humor mordaz, Carlos Fiolhais sublinhou a incapacidade da ciência de prever terramotos: “Ainda hoje, não conseguimos prever com exatidão quando irá ocorrer um sismo”, afirmou. Contudo, destacou que o conhecimento acumulado permite minimizar os danos e compreender melhor os fenómenos naturais.
A visão determinista de Newton e os seus limites
O professor abordou ainda a visão mecanicista do universo, proposta por Newton. “Segundo Newton, o mundo é como um grande relógio que funciona segundo leis fixas e previsíveis”, explicou. No entanto, Carlos Fiolhais lembrou que esta visão, apesar de extremamente poderosa, não é absoluta. “Com a chegada da teoria do caos, percebemos que há fenómenos imprevisíveis e que pequenas diferenças nas condições iniciais podem levar a grandes mudanças”, esclareceu.
A sessão terminou com um forte aplauso do público, onde o professor disse ainda em jeito de conclusão que, “o século XVIII foi um período fascinante, e sem ele, o mundo de hoje não seria o mesmo“.

Com esta terceira sessão, o curso continua a revelar as raízes do conhecimento científico em Portugal, prometendo novas descobertas nas próximas semanas.
OC/RPC
Nota de edição: Este artigo foi enriquecido, integrando algumas sugestões gentilmente cedidas pelo Professor Carlos Fiolhais.

Editor Adjunto, Eng. Eletrotécnico e Aluno da Licenciatura em Gestão do Património Cultural







