Quando o silêncio é cúmplice
Entre o primeiro dia de janeiro e meio de novembro de 2025, Portugal viveu uma tragédia que ninguém deveria normalizar: vinte e três mulheres e um jovem perderam a vida. Vinte e quatro histórias que não serão concluídas. Vinte e quatro sonhos que desapareceram num instante. Vinte e quatro vazios que nunca mais serão preenchidos.
Não são apenas números. Não são estatísticas que podemos ignorar entre o café da manhã e as notícias do fim do dia. Cada uma delas tinha um nome. Cada uma delas tinha uma mãe que a esperava. Cada uma delas tinha planos, risos guardados, e um futuro roubado pela violência.

O peso da ausência
Há uma exposição no Porto, na Junta de Freguesia do Bonfim, que torna isto tangível. Molduras suspensas no ar, como se flutuassem entre o visível e o invisível. Cada uma delas representa uma vida interrompida. Cada uma delas é um grito silencioso que precisamos de ouvir.

Estas molduras não estão aí por acaso. São retratos que nunca se completaram. São histórias que ficaram em branco. São fragmentos de sonhos, amores e memórias que foram arrancados de forma brutal e definitiva. Ligadas por fios quase invisíveis, representam a fragilidade frágil de todas as vidas – e a força inabalável da memória que se recusa a desaparecer.
Cada moldura é um nome. Cada ausência é uma história que deveria ter continuado. Cada silêncio é uma denúncia.

A responsabilidade que nos pertence
Aqui reside a verdade que nos queima: a violência contra as mulheres não é uma fatalidade. Não é um acidente da natureza. É uma escolha que a sociedade permite, tolera e, muitas vezes, ignora.
Quando escolhemos o silêncio, estamos a escolher a cumplicidade. Quando fechamos os olhos, estamos a permitir que mais vidas se apaguem. Quando aceitamos a indiferença como resposta normal, estamos a trair aquelas que já não estão cá para falar.

A responsabilidade não é de quem agride. A responsabilidade é coletiva. É nossa. É de cada um de nós que conheça uma mulher que bate à porta com hematomas. É de cada um de nós que ouve histórias de controlo, ciúmes e ameaças e finge que é normal. É de cada um de nós que vira a cabeça quando o silêncio convida à cumplicidade.

Um grito que precisa ecoar
Esta homenagem que a Junta de Freguesia do Bonfim, no Porto, abraça, em colaboração com a UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, não é apenas para chorar o que se perdeu. É um grito. É uma denúncia. É um chamado à ação que não podemos ignorar.
É pelo direito das mulheres à vida, à liberdade e à autonomia. É pela construção urgente de uma sociedade que não tolere violência. É pela transformação da memória das vítimas em resistência ativa.

Cada retrato suspenso nos lembra que o luto não é suficiente. O silêncio não é suficiente. As palavras de pesar não são suficientes.
É preciso agir. É preciso proteger. É preciso transformar.
Quando o vazio nos confronta
Passe por esta instalação com os olhos abertos. Sinta o peso de cada moldura. Deixe que o silêncio o incomode, que a ausência o perturbe, que o vazio o confronte com a urgência da mudança.

Porque cada mulher que morre por violência não é um número. É a filha de alguém. É a amiga de alguém. É a mulher que poderia ter mudado o mundo, mas nunca vai ter a oportunidade de o fazer.
Vinte e quatro vidas em 2025. Vinte e quatro pessoas que mereciam mais. Vinte e quatro histórias que nos pertencem, a todos nós.

Não podemos deixar que o silêncio seja a nossa herança. Não podemos aceitar que isto seja o preço de uma sociedade que se diz civilizada.
É hora de transformar a dor em luta. É hora de transformar a memória em ação. É hora de dizer, alto e bem alto: isto tem que terminar.
Porque cada moldura vazia é um apelo à consciência. E a nossa consciência ainda está acordada.
Texto e Fotos | VITOR LIMA | O Cidadão
Repórter







