
António Lobo Antunes partiu hoje, 5 de março de 2026, deixando a literatura portuguesa mais pobre e o país envolto num luto silencioso. O escritor, um dos nomes maiores da nossa cultura, morreu aos 83 anos, em Lisboa, informação confirmada pela editora Dom Quixote e amplamente destacada pela imprensa nacional.
Formado em Medicina e especializado em Psiquiatria, exerceu no Hospital Miguel Bombarda antes da escrita reclamar definitivamente o seu talento. A experiência como médico militar na guerra colonial — para onde foi mobilizado no início dos anos 1970 — deixaria marcas profundas na sua obra, atravessada pela memória, pela dor e pela análise crua da condição humana.
Estreou-se em 1979 com Memória de Elefante e Os Cus de Judas, dois romances que abriram caminho a uma extensa bibliografia que ultrapassa as três dezenas de títulos e que inclui obras estruturantes como Conhecimento do Inferno (1980), Auto dos Danados (1985) ou O Esplendor de Portugal (1997).
Distinguido com o Prémio Camões (2007), condecorado com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada (2004) e incluído na prestigiada coleção Pléiade, Lobo Antunes foi repetidamente apontado como candidato ao Nobel da Literatura — sem nunca perder a sobriedade com que olhava a fama.
Num momento em que se diz “descanse em paz”, recordamos uma das suas reflexões mais íntimas sobre a própria vida:
“A felicidade não passa por nada disso, pelo sucesso, pela celebridade, pela fama. Passa por uma paz interior que eu ainda não encontrei.” — Jornal de Letras, 1994.
Hoje, ao despedirmo-nos, é inevitável desejar-lhe essa paz que procurou e que tantas vezes confessou não alcançar.
E se há frase que melhor descreve a sua caminhada literária — tão solitária quanto luminosa — é aquela que deixou numa das suas crónicas na Visão, revelando o âmago da sua criação:
“Estás de facto sozinho. (…) O caminho não passa de um vazio cheio de sons e torna‑se necessário encontrar o único som autêntico, o som inicial, a tua voz oculta por mil ecos.”
Foi essa voz — autêntica, inconfundível, irredutível — que ergueu uma das mais impressionantes obras de língua portuguesa. Uma voz que, agora silenciosa, continua todavia a ressoar nas páginas que nos deixa.
Portugal despede-se hoje de um escritor maior, mas não da sua marca no nosso imaginário. A obra de António Lobo Antunes permanece — inquieta, profunda, inesquecível — como uma convocação permanente à memória e à humanidade.
Professor, Poeta e Formador







