Foi o regresso de André Ventura, candidato à Presidência da República, ao Clube dos Pensadores (CdP), numa sessão realizada no Hotel Holiday Inn Porto-Gaia, em Vila Nova de Gaia. O convite partiu de Joaquim Jorge, fundador do CdP, que sublinhou a importância do debate político e da confrontação de ideias num momento determinante do processo eleitoral.
A sessão integrou-se no ciclo regular de debates promovido pelo Clube dos Pensadores, que assinalou, nesta ocasião, a realização do seu 150.º debate. Joaquim Jorge começou por enquadrar o momento, recordando que o convite a André Ventura tinha sido feito ainda antes da primeira volta das eleições presidenciais. Segundo explicou, o candidato não pôde estar presente nessa fase, mas manifestou disponibilidade para participar após a primeira volta, compromisso que veio a concretizar-se.
“Eu pedi-lhe para ele vir na primeira volta. Ele disse-me que ia fazer tudo para vir. Não pôde. Depois mandou-me uma mensagem a dizer que na segunda volta vinha cá. E veio”, afirmou Joaquim Jorge, perante uma sala com forte adesão do público.
Um espaço de debate e não um comício
Logo no início da sessão, Joaquim Jorge fez questão de distinguir o formato do encontro, afastando a ideia de um comício político. “Eu sei que isto hoje parece um comício, mas não é. Estamos no Clube dos Pensadores”, afirmou, acrescentando que o espaço se mantém aberto a diferentes sensibilidades políticas e a participantes que ali se encontram pela primeira vez.

O fundador do CdP explicou também as regras do debate, sublinhando a necessidade de rigor no tempo concedido às intervenções do público. Cada pergunta teria a duração máxima de um minuto, sendo pedido aos participantes que se identificassem antes de intervir. “Faço isto há 20 anos. Resulta”, afirmou, reforçando a natureza estruturada do modelo seguido pelo Clube dos Pensadores.
A intervenção inicial de André Ventura
Na sua primeira intervenção, André Ventura começou por agradecer o convite e a receção por parte da organização. “Antes de mais, um agradecimento ao clube por me receber novamente”, disse, recordando que esta foi a sua terceira participação naquele espaço.
O candidato sublinhou a importância de espaços de debate num contexto político marcado pela campanha eleitoral e por um momento que classificou como exigente para o país. “Estamos a atravessar um momento difícil no país e, a par disso, estamos no meio de uma campanha para a segunda volta das presidenciais”, afirmou.
André Ventura explicou que aceitou o convite não com o objetivo de fazer uma intervenção prolongada, mas sobretudo para ouvir. “Não para falar tanto, mas para ouvir. Para poder expressar o que vai mal na minha perspetiva e aquilo que temos de mudar, mas também ouvir da vossa parte”, referiu.
Críticas ao afastamento dos políticos da realidade social
Durante a sua intervenção inicial, o candidato apontou críticas ao que considera ser um afastamento dos políticos face aos problemas concretos da população. “Os políticos nos últimos anos fecharam-se nas suas redomas e deixaram de falar sobre os problemas reais das pessoas”, afirmou.
Referiu ainda que tem sido alvo de críticas por manter uma presença regular em territórios afetados por situações de crise, nomeadamente incêndios, cheias e outras ocorrências recentes. “Nos incêndios, na Covid-19, nas cheias, fiz sempre assim na minha vida política”, afirmou, defendendo a proximidade como uma dimensão essencial da ação política.
Segundo André Ventura, essa proximidade deve manter-se independentemente das funções exercidas. Quando questionado se essa postura se manteria mesmo em funções de poder, respondeu de forma direta: “Sempre, sempre. Está prometido. É um compromisso”.
A proximidade e a reflexão como eixos centrais
O candidato à Presidência da República identificou duas dimensões fundamentais da política: a proximidade às populações e a capacidade de reflexão sobre o futuro do país. A sua presença no Clube dos Pensadores, explicou, enquadra-se precisamente nessa segunda dimensão.
“Há momentos em que temos de superar um bocadinho o dia-a-dia e refletir sobre aquilo que queremos para o futuro”, afirmou, acrescentando que considera o Clube dos Pensadores um espaço adequado para esse exercício.
Convidado por Joaquim Jorge a subir ao palco principal, André Ventura iniciou então o diálogo direto, numa sessão marcada por perguntas abertas e pela participação do público.
A questão da controvérsia política
Uma das primeiras perguntas colocadas por Joaquim Jorge centrou-se na perceção pública em torno da figura de André Ventura e na razão pela qual o candidato considera gerar “agitação e turbulência” no espaço político.
Em resposta, André Ventura afirmou que essa reação resulta da forma como se posiciona no discurso político. “As pessoas não estavam habituadas a um político e a um movimento que tivessem autenticidade e, ao mesmo tempo, não tivessem medo de dizer as coisas”, afirmou.
Como exemplo, referiu visitas recentes a zonas afetadas por fenómenos meteorológicos adversos, nomeadamente no distrito de Leiria, onde contactou com agricultores que perderam os seus bens. “Estávamos a falar com agricultores que perderam tudo, literalmente”, descreveu.
Segundo explicou, nesses contextos considera essencial que um político relate aquilo que observa. “Há momentos na vida em que um político tem de dizer aquilo que se passa mesmo”, afirmou, referindo-se à situação de pessoas em filas para obter materiais básicos para reparar as suas casas.
André Ventura sustentou que a sua postura contrasta com a de outros responsáveis políticos. “Habituámo-nos a ter políticos que só dizem a generalidade, só dizem aquilo que toda a gente quer ouvir”, afirmou, acrescentando que essa atitude visa evitar conflitos, mas afasta o debate da realidade.
“Eu não vim para agradar a todos, eu vim para dizer a verdade”, afirmou.
A petição para ilegalização do Chega e o debate sobre a democracia
O debate prosseguiu com a referência à petição apresentada para a ilegalização do partido Chega, tema que marcou parte significativa da conversa entre Joaquim Jorge e André Ventura. O fundador do Clube dos Pensadores introduziu o assunto sublinhando a sua posição pessoal, apesar de afirmar não ter filiação partidária no Chega.
“Eu não sou do Chega, mas eu penso”, afirmou Joaquim Jorge, acrescentando que o que o incomoda é “este apego exagerado em relação ao Chega e esta tentativa de superioridade moral”.
Questionado sobre a petição, André Ventura enquadrou o tema no contexto político e institucional do momento. “Nós estamos numa segunda volta das eleições presidenciais e temos uma petição no Parlamento para ilegalizar um partido”, afirmou, considerando que se trata de uma situação que não faz sentido num regime democrático.
O candidato salientou que a iniciativa foi aceite para discussão parlamentar, frisando que, apesar das divergências políticas, não defende a exclusão de forças partidárias por via administrativa ou judicial. “Eu não concordo com nada do que o Bloco de Esquerda e o PCP dizem. Com nada. Mas eu não quero ilegalizar esses partidos. Eu quero vencê-los no debate. Eu quero vencê-los na troca de ideias”, afirmou.
Para André Ventura, a ilegalização de partidos representa um risco para o sistema democrático. “Quando uma democracia começa a ilegalizar partidos e movimentos, nós não estamos no caminho de mais liberdade. Estamos no caminho de ataque à liberdade”, disse, acrescentando que considera essencial a defesa do pluralismo político.
O crescimento eleitoral do Chega
A conversa avançou para a evolução do Chega no panorama político nacional. Joaquim Jorge recordou que o partido começou com um deputado e conta atualmente com uma bancada parlamentar significativamente mais alargada. “Tu começaste com um deputado. Agora são 60”, afirmou.
André Ventura reconheceu que, como qualquer organização política, o partido enfrenta dificuldades internas. “O Chega, como todos os partidos, tem problemas”, afirmou, acrescentando que não existe nenhuma força política imune a erros ou conflitos.
Ainda assim, identificou o que considera ser o principal fator de diferenciação. “O que é que eu acho que as pessoas sentem diferente no Chega? A autenticidade”, disse, defendendo que o partido assume posições sem receio das consequências políticas. “Dizem o que tem de ser dito. Não têm medo de dizer as coisas”, afirmou.
Segundo o candidato, essa postura implica riscos, mas considera-os inevitáveis. “Quando se dizem as coisas sem medo, arrisca-se”, afirmou, acrescentando que, na sua perspetiva, o país evitou durante décadas assumir debates estruturantes por receio de conflito.
Críticas à resposta do Estado em situações de crise
Outro tema central da sessão foi a resposta do Estado a situações de emergência, em particular no contexto de fenómenos meteorológicos recentes. André Ventura relatou contactos com populações afetadas, referindo denúncias de furtos e assaltos em zonas atingidas por tempestades.
“Uma série de pessoas me disseram que está a haver roubos e assaltos a toda a hora”, afirmou, defendendo a necessidade de reforço da segurança. O candidato considerou que, em determinados contextos, deveria ser ponderada a mobilização das Forças Armadas para apoio às populações.
“As nossas Forças Armadas estão preparadas e querem fazer”, afirmou, sublinhando que, para tal, é necessária uma decisão política. “Para que é que fizemos umas Forças Armadas preparadas, equipadas, se não for para ajudar a população quando elas mais precisam?”, questionou.
O candidato comparou a mobilização de meios portugueses em missões internacionais com a resposta interna. “Nós enviámos militares para ajudar nas cheias em Moçambique, mas não temos para ajudar nas nossas”, afirmou.
A questão da prevenção e das comunicações
A discussão centrou-se também na prevenção e na gestão de crises, com referência ao sistema de comunicações de emergência. André Ventura recordou falhas anteriores e o investimento realizado ao longo dos anos. “Gastámos 700 milhões de euros no SIRESP desde a sua origem”, afirmou, questionando a eficácia do sistema face às falhas registadas.
Para o candidato, a persistência de problemas levanta questões sérias. “Isto das duas uma: ou é incompetência ou é corrupção”, afirmou, defendendo que, em qualquer dos cenários, é necessária uma resposta política firme.
Criticou ainda a demora na solicitação de apoio internacional em situações de emergência, referindo exemplos anteriores em que a ajuda chegou tarde. “Temos um Governo que está sempre a ponderar tudo, mas depois não faz nada”, afirmou.
Democracia, debates e campanhas presidenciais
A questão da democracia foi retomada quando Joaquim Jorge confrontou André Ventura com acusações recorrentes sobre o seu posicionamento político. O candidato respondeu de forma direta. “Absolutamente democrata”, afirmou, acrescentando que a sua participação em debates e a disponibilidade para responder a perguntas públicas são prova disso.
André Ventura destacou que aceitou todos os debates propostos durante a campanha. “Eu aceitei todos os debates com o meu oponente. Todos. Ele só aceitou um”, afirmou, referindo debates televisivos, radiofónicos e académicos que, segundo disse, não se realizaram por recusa do adversário.
Para o candidato, o debate de ideias é central num processo democrático. “A democracia faz-se com o debate de ideias”, afirmou, acrescentando que considera problemático que candidatos evitem confrontar publicamente as suas posições.
O voto e a participação eleitoral
A participação cívica foi outro ponto abordado durante a sessão. André Ventura alertou para o impacto do voto em branco ou nulo. “Votar em branco ou nulo não conta para nada”, afirmou, apelando à participação ativa dos eleitores.
Referiu ainda que respeita todas as opções de voto, mas sublinhou a importância da escolha consciente. “Ir lá é votar”, afirmou, defendendo que as eleições presidenciais representam uma decisão clara entre projetos distintos para o país.

Política externa e vulnerabilidade económica
A sessão avançou para o tema da política externa, apontado por Joaquim Jorge como um dos assuntos menos debatidos durante a campanha presidencial. André Ventura concordou com a observação, considerando que Portugal apresenta uma elevada vulnerabilidade face ao contexto internacional.
“Portugal está numa situação em que é dos países mais vulneráveis, do ponto de vista económico, ao cenário internacional”, afirmou, referindo a dependência do país em relação a fatores externos como o preço da energia, bens essenciais e decisões políticas tomadas fora do território nacional.
O candidato sublinhou que as maiores crises económicas portuguesas tiveram, em grande parte, origem externa. “A grande razão da nossa crise económica vem quase sempre do cenário externo e do cenário internacional”, disse, apontando as relações comerciais com Espanha, Estados Unidos, Reino Unido e Brasil como determinantes para a estabilidade económica nacional.
André Ventura defendeu que, independentemente das afinidades ideológicas com líderes estrangeiros, Portugal deve garantir relações institucionais estáveis. “Nós podemos não gostar de alguns presidentes e primeiros-ministros, tudo certo, mas temos parcerias comerciais que temos de assegurar”, afirmou.
Considerou ainda que a ausência deste tema nos debates presidenciais empobrece o confronto de ideias. “Porquê que não discutimos isto? Porquê que não falamos sobre isto?”, questionou, defendendo que a política externa deveria assumir maior centralidade na campanha.
Imigração, emigração e o voto no estrangeiro
A questão migratória surgiu associada à participação eleitoral dos portugueses residentes no estrangeiro. André Ventura referiu dados sobre a taxa de votação fora do país, apontando que apenas uma pequena percentagem dos emigrantes exerce o direito de voto.
“Votaram nem 5%”, afirmou, questionando as dificuldades logísticas impostas aos eleitores residentes fora de Portugal. “Há imigrantes para votar que precisam de fazer 300 quilómetros”, disse, considerando a situação incompreensível.
Para o candidato, esta realidade não é neutra do ponto de vista político. “O PS e o PSD sabem que as pessoas que foram para fora do país foram embora precisamente porque querem fugir ao sistema que eles criaram”, afirmou, associando a emigração jovem a salários baixos e falta de oportunidades.
O tema da imigração foi igualmente abordado na perspetiva económica e social. André Ventura defendeu que a necessidade de mão de obra estrangeira resulta, em parte, da desvalorização salarial interna. “Se pagássemos melhor aos nossos, nós não precisávamos dessa mão de obra”, afirmou.
O confronto com António José Seguro
O confronto direto com António José Seguro foi um dos momentos mais marcantes da sessão. Questionado sobre a campanha presidencial, André Ventura afirmou que aceitou todos os debates propostos. “Eu aceitei todos os debates com o meu oponente. Todos. Ele só aceitou um”, disse.
Segundo o candidato, o seu adversário evitou debates em diferentes formatos, incluindo televisões, rádios e universidades. “Não aceitou debater numa universidade sobre saúde, não aceitou debater nada”, afirmou.
André Ventura relatou ainda a perceção que ficou de um dos debates realizados. “Eu nunca saí de um debate com a sensação como saí de um homem que não tem uma ideia sobre nada”, afirmou, acrescentando que ficou com dúvidas sobre a compreensão do papel presidencial por parte do adversário.
Na sua análise, a escolha eleitoral resume-se a dois projetos distintos. “Um vai manter exatamente tudo como está. E outro vai tentar mudar isto”, afirmou, defendendo que a sua candidatura representa uma rutura com o sistema político instalado.
Perguntas do público e o debate sobre o passado
A sessão incluiu um período alargado de perguntas do público. Uma das intervenções mais relevantes partiu de um participante que questionou uma declaração anterior de André Ventura sobre a necessidade de “três Salazares”.
O interveniente explicou que viveu durante o regime do Estado Novo e manifestou receio perante esse tipo de afirmações. “Eu vivi 21 anos no fascismo. Fiquei com medo”, confessou.
Na resposta, André Ventura começou por reconhecer a legitimidade da questão. “Compreendo a questão que colocou”, disse, esclarecendo o contexto da afirmação. “Foi uma expressão de querer pôr o país na ordem”, afirmou, acrescentando que não defende um regresso ao passado.

“Eu não quero voltar para trás”, disse, rejeitando o revisionismo histórico como justificação para problemas atuais. “Não façamos revisionismo histórico para justificar o presente”, afirmou.
Segundo o candidato, o foco deve estar no futuro e na resposta aos problemas acumulados ao longo das últimas décadas. “Aquilo que fizemos nos últimos 50 anos foi dar às pessoas esperança de um país que depois não se concretizou”, afirmou.
Subsídios, pensões e apoio social
Outra questão colocada pelo público incidiu sobre os subsídios sociais e as pensões, em particular no caso de pessoas mais velhas fora do mercado de trabalho. André Ventura procurou distinguir situações distintas.
“Não faz sentido termos jovens a achar que vale mais não trabalhar do que trabalhar”, afirmou, referindo-se ao que designou como “cultura de subsídio-dependência”. No entanto, esclareceu que essa crítica não se aplica a pessoas com carreiras contributivas longas e sem possibilidade real de reintegração profissional.
O candidato defendeu o aumento das pensões mínimas. “Quem é que consegue viver com 300 euros em Portugal?”, questionou, afirmando que o seu partido tem defendido o reforço da pensão social de velhice.
A sessão aproximou-se do fim com o regresso ao formato habitual do Clube dos Pensadores, mantendo o controlo do tempo e a rotatividade das intervenções. Joaquim Jorge recordou que o Clube não promove sessões de propaganda, mas sim espaços de debate e confronto de ideias.
O encontro terminou dentro do horário previsto, com André Ventura disponível para contactos informais com os participantes e jornalistas presentes. A sessão encerrou-se com aplausos, assinalando mais um debate no percurso do Clube dos Pensadores.
OC/RPC

Editor Adjunto, Eng. Eletrotécnico
e Aluno da Lic. em Gestão do Património Cultural







