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Domingo, Fevereiro 15, 2026

A Jonglerie do Telemóvel no Urinol

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Estou eu, entre pratos e pausas fisiológicas, diante do velho urinol de porcelana — relicário laico onde, por breves segundos, o mundo se cala e o corpo recupera o seu direito à simplicidade.

Mas entra ele. Jovem, dos seus 18 a 20 anos, camisa meio aberta, passo distraído, olhos colados ao telemóvel como se dele dependesse a respiração. Encosta-se ao urinol vizinho, desabotoa, e… continua a escrever. Primeiro com uma mão. Depois, num golpe de virtuosismo absurdo, com as duas. Pasme-se! Sim: enquanto urina, os polegares voam, emojis nascem, e as mensagens partem para o éter. O corpo esvazia-se; a mente, sobrecarregada, já está noutra galáxia.

Fico ali, suspenso entre o ridículo e o lúcido. Que espécie de criatura somos agora? Capazes de dividir a atenção até no ato mais íntimo e instintivo?

Imagino Jane Goodall, sentada sob as árvores do Parque Nacional de Gombe, a observar os chimpanzés durante horas em silêncio absoluto. Ela, que aprendeu com eles a escutar o vento, o chão, o outro — sem pressa, sem interrupções. Ela, que viu nos olhos dos primatas uma presença tão humana como esquecida. Que diria, hoje, ao ver um homem incapaz de estar só consigo mesmo nem por trinta segundos? Diria, talvez, que perdemos algo essencial: não a tecnologia, mas a capacidade de estar e de ser.

Os chimpanzés não usam telemóveis. Mas sabem quando um companheiro está triste. Sabem esperar. Sabem tocar. Nós, cada vez mais, apenas notificamos.

E não é só no urinol. É no café, onde os casais jantam frente a frente, mas olham para baixo. É na fila do supermercado, onde as mães respondem a mensagens, enquanto os filhos puxam pela manga, em vão. É no comboio, onde ninguém vê a paisagem — todos vêem o reflexo do próprio rosto distorcido por notificações. Transformámo-nos numa espécie de Homo Absentis: presente fisicamente, ausente existencialmente.

O telemóvel deixou de ser um instrumento. Tornou-se um ritual de pertença. Quem não responde depressa demais é considerado frio; quem não publica é invisível; quem se atreve a guardar o aparelho durante uma refeição é quase um herege. A liberdade já não é escolher o que fazer — é conseguir não fazer nada sem culpa.

E assim chegámos ao cúmulo do absurdo: jonglar com as mãos no urinol, como se a natureza exigisse espetáculo, como se o corpo fosse apenas um veículo incómodo entre dois scrolls. Já não há sagrado, nem sequer o profano merece respeito. Tudo é palco. Tudo é conteúdo. Até a urina.

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