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Domingo, Janeiro 18, 2026

Bonga: A vida inteira num semba – Por Jorge Madeira* e Pedro Nogueira Simões

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Bonga. Foto de AGENDA CULTURAL de LISBOA

Em Lisboa, Setembro ganha um sabor especial. Não é apenas o mês em que o verão começa a despedir-se, é também o mês em que celebramos os 83 anos de Bonga, esse homem que transformou dor em canto, resistência em melodia, saudade em festa. No dia 5, o LAV – Lisboa ao Vivo será mais do que um palco: será um altar de memória, vida e música.

Bonga, nasceu José Adelino Barceló de Carvalho, em Angola, em 1942. Cresceu entre a tradição do Semba e o sonho de liberdade. Foi atleta, velocista, campeão nacional, mas o destino guardava-lhe outra corrida: a do exílio, da música e da luta contra a opressão. Quando a sua voz se ergueu, não foi apenas para cantar amores e festas; foi para cantar Angola inteira, com as suas feridas, as suas esperanças, os seus caminhos por fazer.

Perseguido pela PIDE por dar voz ao clamor da independência, Bonga evadiu-se sorrateiramente de Lisboa para a Holanda, onde foi acolhido pela expressiva comunidade cabo-verdiana lá residente na condição de emigrante, juntando ao seu Semba, o perfume da Morna e da Coladera pelas mãos do seu amigo Djunga di Biluca, fundador da Morabeza Records.
Viveu em vários países, carregando no peito a dor da distância. O Ngoma e a Dikanza eram os seus passaportes; a música, o seu abrigo. Em Paris, ao lado do lendário Batalha Bob Júnior, ousou pisar o palco num dia em que o cabeça de cartaz era o renomado cantor francês, Charles Aznavour. Uma noite distante, mas bem presente na vida de Bonga Kuenda.

Lisboa foi porto e ponte, cidade que o acolheu e à qual retribuiu com canções que são também nossas, porque falam de humanidade, de liberdade, de dignidade. Entre Angola e Portugal, Bonga construiu uma identidade mestiça e universal, provando que a cultura não conhece fronteiras.

Os seus discos, como Angola 72 ou Kaxexe, são capítulos de uma autobiografia coletiva. Cada semba é memória viva de um povo que sofreu mas nunca desistiu de dançar. A sua voz, rouca e profunda, é uma cicatriz transformada em arte. Ouvir Bonga é aprender que o sofrimento pode ser fértil, que da dor pode nascer beleza, que da ausência pode florescer presença.

No Fest Semba Lisboa, Bonga não estará sozinho. Paulo Flores, Daniel Nascimento, Eddy Tussa, Patrícia Faria, Klaudio Hoshai, Kanu André e Helvio juntam-se a ele, como filhos artísticos que reconhecem no mestre o caminho aberto. Mais do que uma festa, será um rito de passagem: de uma geração que lutou com música para uma nova geração que herda esse património de coragem.

A lição de vida de Bonga é simples e, ao mesmo tempo, grandiosa: viver com verdade. Não ceder ao esquecimento. Amar Angola sem deixar de amar Portugal. Ser cidadão do mundo sem perder a raiz. A sua trajetória mostra-nos que a música pode ser arma, mas também colo; pode ser denúncia, mas também celebração.

Aos 83 anos, Bonga não é apenas um cantor. É testemunha, memória, símbolo e farol. O seu exemplo lembra-nos que a dignidade se canta, que a liberdade se dança, e que a identidade nunca se perde enquanto houver uma voz para a proclamar.

Em Lisboa, neste Setembro, não se comemora apenas um aniversário. Celebra-se a resistência, o amor, a vida inteira num semba.

*Jornalista

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