A IA Quer Falar de Sexo e o Dicionário Processou a OpenAI

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Há semanas em que a realidade parece escrita por um argumentista em final de carreira e desesperado por audiências. Chegámos a um ponto em que as novidades da Inteligência Artificial oscilam violentamente entre o apocalipse geopolítico, a solidão humana e o ridículo absoluto nos tribunais.

Como costumo discutir no podcast «IA&EU», a tecnologia é apenas um espelho ampliado das nossas próprias falhas, ambições e absurdos. Mas confesso que esta semana o espelho estilhaçou-se. Enquanto andamos todos a tentar perceber como usar agentes autónomos para limpar as nossas caixas de correio, os gigantes de Silicon Valley estão a travar guerras em frentes que roçam o bizarro. De debates internos sobre se o ChatGPT deve sussurrar obscenidades, a processos judiciais movidos por… dicionários.

Prepara o café, senta-te confortavelmente e vamos mergulhar na ressaca tecnológica destes últimos sete dias. Porque se a IA é o futuro, o futuro precisa urgentemente de terapia.

OpenAI: O Negócio da Solidão e o Processo do Alfabeto

Começamos pela OpenAI, que teve uma semana tão caótica que até o Sam Altman deve estar a precisar de um abraço. A grande fuga de informação da semana revela que os conselheiros internos da empresa e especialistas em ética estão em guerra aberta sobre a introdução de um “modo adulto” no ChatGPT. Sim, leram bem. Estão a debater se o modelo deve ou não ter filtros para conversas explícitas (X-rated ou pornográficas) e relacionamentos românticos.

De um lado, as equipas de segurança alertam para os perigos da dependência emocional severa… estamos a falar de utilizadores a apaixonarem-se por linhas de código. Do outro lado, os executivos olham para o mercado da solidão e vêem cifrões. Enquanto a Anthropic continua a polir o Claude com a sua habitual “Constituição” puritana, e a X.ai de Elon Musk deixa o Grok afundar-se em polémicas e processos de moderação desastrosos, a OpenAI tenta encontrar o equilíbrio entre ser a ferramenta corporativa da Microsoft e o “companheiro de cama” digital do utilizador comum. É a mercantilização da intimidade, pura e dura.

E como se o dilema moral não bastasse, a OpenAI levou com o processo judicial mais hilariante da década: O Dicionário processou a empresa.
Não, não é uma metáfora. A histórica Encyclopedia Britannica e o dicionário Merriam-Webster avançaram para tribunal alegando que a OpenAI violou direitos de autor ao treinar os seus modelos com quase 100 mil definições e artigos. Chegámos ao pico da absurdidade dos direitos de autor. O que se segue? A gramática processar-nos por usarmos vírgulas? É a prova provada de que o sistema legal atual está completamente obsoleto para lidar com modelos fundacionais.

Infraestrutura: A Meta Abre os Cordões à Bolsa e a Nvidia Dá Cartas

Mas enquanto os advogados discutem de quem é a propriedade da palavra “batata” num tribunal, o verdadeiro poder está a consolidar-se no hardware e na infraestrutura bruta.

Esta semana, a Meta atirou 27 mil milhões de dólares (o equivalente ao PIB de um pequeno país) para cima da mesa num acordo de infraestrutura histórico de cinco anos com a Nebius Group. O Mark Zuckerberg percebeu que quem não tiver os seus próprios data centers gigantescos e clusters de computação nas próximas décadas, vai ser um mero inquilino na internet dos outros. Este acordo, que introduz a era da “neocloud”, garante à Meta acesso massivo aos novos chips Vera Rubin da Nvidia, pavimentando o caminho para o Llama 5 e Llama 6. É o fim da era em que a Meta dependia apenas da “cloud” alheia.

Em simultâneo, a Nvidia fez o que faz de melhor na sua conferência GTC: humilhou toda a gente. Com o anúncio do NemoClaw (uma infraestrutura de segurança e privacidade ultra-robusta baseada no viral agente open-source OpenClaw), a Nvidia deixa de ser apenas a “empresa que vende as pás durante a corrida ao ouro” e passa a ser a dona da mina e do banco. Esta integração brutal entre o seu hardware e ecossistemas de software agêntico mostra que Jensen Huang não quer apenas alimentar os outros; ele quer ditar o padrão da indústria e ser o “sistema operativo da IA pessoal”. A Google, com a sua infraestrutura silenciosa, que se ponha a pau, porque a máquina de guerra da Nvidia não abranda. E, claro, tudo isto fechou com a demonstração caricata do robô “Olaf”, em parceria com a Disney, porque a Nvidia também sabe dar espetáculo.

O Bizarro e o Trágico: Ídolos de Plástico e Armas Psicológicas

Para rematar esta montanha-russa, temos a dicotomia perfeita de como a IA está a alterar a nossa perceção da realidade no mundo físico.

No Japão, uma banda totalmente gerada por IA (que começou como uma mera experiência digital, como muitas que eu faço) tornou-se “real”. A fusão entre avatares virtuais e popularidade de massas esbate cada vez mais a linha entre o que é genuíno e o que é artificial. É a evolução natural da cultura de entretenimento: estrelas pop que não envelhecem, não pedem aumentos de salário, não têm escândalos na imprensa e cantam 24 horas por dia. É fascinante e, simultaneamente, o culminar da cultura plástica e algorítmica (também não é que o panorama musical humano ande muito rico em si mesmo).

No outro extremo do espectro, a escuridão. Relatórios desta semana detalham a explosão de deepfakes e IA generativa em conflitos armados no Irão, em Gaza e na Venezuela. Já não se trata apenas de vídeos falsos para ganhar likes. Estamos a falar de “guerra suave” (soft war): campanhas massivas de desinformação psicológica criadas ao segundo, áudios clonados, e imagens geradas para desmoralizar tropas e manipular civis no terreno.

A mesma tecnologia que cria música num ecrã em Tóquio está a semear o caos em zonas de guerra. A IA é uma ferramenta formidável SE a souberes usar. Mas nas mãos erradas, é a arma de destruição maciça da verdade… não esquecer que é uma ferramenta e o uso e responsabilidade são das mãos que a usam.

Conclusão: Onde Fica o Humano?

Olhando para esta semana, o padrão é evidente. A tecnologia está a invadir os últimos redutos da experiência humana: a nossa intimidade (com o modo adulto da OpenAI), a nossa linguagem (com o processo da Merriam-Webster e da Britannica), a nossa infraestrutura física (com o império da Nvidia e os 27 mil milhões da Meta) e a nossa perceção da realidade (entretenimento no Japão e desinformação letal em zonas de guerra).

As “Big 4” (OpenAI, Anthropic, Google, X.ai) e os gigantes do hardware estão a desenhar um mundo onde a fricção e os limites desaparecem. Mas será que queremos um mundo sem limites?

Usar a IA para organizar processos, fazer investigação, escrever código ou resumir um documento complexo para ganhares duas horas na tua sexta-feira? Excelente. Usar a IA para substituir o calor humano porque é mais fácil do que lidar com a complexidade de outra pessoa? Estamos a caminhar para o abismo. Não deixem que a conveniência vos roube a humanidade. Usem a ferramenta, não deixem que a ferramenta vos use a vós. LITERACIA DIGITAL!

Se gostas deste tipo de análise sem tretas, nua e crua e longe do hype deslumbrado ou dos velhos do Restelo, subscreve esta newsletter no substack e descobre como usar a IA a sério, no mundo real, e não apenas para romances virtuais da treta… ou acompanha as minhas crónicas no jornal “O CIDADÃO”. Aqui analisa-se a tecnologia com a frieza que ela exige, e com o humanismo que ela não tem.

Artigo publicado simultaneamente n’ O Cidadão e no substack do autor

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