13.7 C
Porto
17.5 C
Lisboa
15.9 C
Faro
Sábado, Dezembro 6, 2025

A Garça, o Pescador e a Saudade: Mural que Conta a Alma de Aveiro

Encontrei-o numa esquina de Aveiro onde o betão ainda cheirava a tinta fresca — não por acaso, mas por intenção. Esteban — nome artístico de Camilo Pineda, biólogo colombiano e muralista residente em Portugal desde 2020 — estava a concluir um mural encomendado pela construtora ICON, cujo propósito era transformar uma vedação de obra num espelho da identidade local. E o que escolheu pintar? Não apenas uma ave, mas uma narrativa

Mais artigos

O artista colombiano e a sua obra. Foto de JPS

O painel, de fundo negro e linhas douradas, é uma ode à cidade: à sua Ria, ao seu mar, às suas gentes. No centro, a garça-real (Ardea cinerea) — ave emblemática da Ria e dos canais que circundam Aveiro — olha para o lado, como se estivesse a vigiar o futuro que se ergue atrás dela. À direita, três homens, vestidos com chapéus de trabalho, remam num moliceiro carregado de peixe — evocando a pesca tradicional, o esforço diário, a luta contra o vento e as ondas. Ao lado, uma figura feminina, de lenço na cabeça, segura as mãos juntas, como quem espera — talvez a saudade daqueles que partem ou a memória dos que já não voltaram. Entre eles, ondas estilizadas, pássaros em voo e o próprio nome “ICON”, em letras douradas e robustas, como um selo de pertença.


Esta obra é mais do que um mural: é ilustração científica a céu aberto, mas também é história visual, cartografia simbólica, poesia urbana. A ilustração científica, tal como Esteban a pratica, é uma forma rigorosa de arte visual cujo propósito é representar organismos — plantas, animais, fungos, fósseis — com fidelidade anatómica, morfológica e ecológica, servindo simultaneamente à ciência e à educação. Requer observação minuciosa, base empírica e, frequentemente, colaboração com investigadores. Em Esteban, porém, essa tradição sai do laboratório e do caderno de campo para se fundir com o muralismo, o graffiti e a arte comunitária. Assim, a ilustração científica mantém a sua exatidão, mas ganha dimensão pública, sensibilidade poética e função social — tornando-se uma ponte entre o saber biológico e o imaginário coletivo.


Originário de Bogotá, licenciado em Biologia pela Universidade Distrital Francisco José de Caldas (2016), formado em Ilustração Científica na Universidade de Aveiro (2020/2021) e recentemente mestre em Biologia Aplicada (2024), Esteban reúne mais de uma década de experiência entre a ciência e a arte. A sua prática — que inclui murais temáticos, intervenções em interiores, workshops comunitários e até paleoarte digital — é profundamente contextualizada. Em Aveiro, ele não apenas pinta aves: estuda-as, reconhece-as, dá-lhes voz nas paredes da cidade. O crocodilo do Jurássico que ajudou a descobrir enquanto investigador na UA? Hoje, habita as fachadas da cidade. O beija-flor (Icterus nigrogularis) que desenhou em técnica mista? Agora paira sobre mesas de restaurantes. E a garça que acabou de pintar para a ICON? Tornou-se guardiã simbólica de um espaço em transformação — lembrando aos futuros moradores que, antes de serem edifícios, estes terrenos foram habitat, foram rio, foram mar, foram vida.

Com o tempo chuvoso, Esteban tem, muitas vezes, de apagar o que já fez e voltar a pintar. Foto de JPS

Mas há algo ainda mais raro na sua abordagem: a dimensão comunitária. Em projetos como o “Bairro Feliz”, promovido pelo Pingo Doce no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, ou nos murais participativos de Bogotá, Esteban não pinta sozinho. Convoca crianças, vizinhos, educadores. Transforma muros em murais coletivos onde cada pincelada é também um gesto de pertença. A arte deixa de ser propriedade do artista e passa a ser memória partilhada. Nesses espaços, a natureza não é apenas tema — é pretexto para diálogo, para escuta, para redefinição do que significa habitar um lugar.

Numa era em que o digital nos habitua à superficialidade, a arte visual de Esteban resiste com profundidade. Resiste com a lentidão do traço observado, com a cor que não se apaga com um clique, com o betão que se torna jardim. E talvez seja exatamente isso que a torna tão necessária: numa cidade que olha para baixo, distraída pelos ecrãs, ele pinta para cima — para que levantemos o olhar, nos detenhamos, e percebamos que, mesmo nas frestas mais áridas do betão, a vida insiste em brotar.


Neste gesto há algo profundamente ético — e artístico. Como escreveu Paula Rego, uma das maiores vozes da arte portuguesa contemporânea: “A pintura é uma maneira de dizer as coisas que não se conseguem dizer de outra forma.”

O Mural da Icon. Foto de JPS

É essa linguagem que Esteban usa nas ruas: uma linguagem de garças, moliceiros e silêncios — que fala daquilo que os relatórios urbanísticos calam — a alma de um lugar, a memória da terra, a dignidade do trabalho, a beleza do que vive sem pedir licença. A arte não é acessório; é testemunho.

Enquanto uma criança apontar o dedo para a garça na parede e perguntar “o que é aquilo?”, a ciência estará viva. E a cidade, um pouco mais humana.


- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img