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Sábado, Dezembro 6, 2025

A Economia (Silenciosamente) em Revolução

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Há mudanças que chegam como um trovão; outras avançam como uma maré silenciosa que, quando damos por ela, já nos levou metade da praia.
A Inteligência Artificial na economia pertence, infelizmente para os mais distraídos, à segunda categoria. E digo “infelizmente” não porque a mudança seja negativa — isso seria demasiado fácil — mas porque o silêncio dá espaço ao medo. E o medo, esse, não perde uma oportunidade de se instalar confortavelmente no sofá do cidadão comum, de pantufas calçadas e a televisão ligada em permanência no canal das catástrofes.

É precisamente por isso que esta crónica surge aqui, n’O Cidadão: porque se não falarmos nós, quem fala? Num país onde há mais especialistas instantâneos de IA do que cafés no Rossio, vale reafirmar o óbvio — jornalismo livre, crítico e sem amarras é essencial para separar alarmismos fáceis de discussões sérias. Aqui não se enfeita o discurso com promessas tecnológicas mágicas, nem se embrulham medos num papel de prateado. Aqui explica-se, provoca-se e, quando necessário, dá-se um abanão literário para acordar consciências. Porque a tecnologia não espera. E a economia, muito menos.

Dito isto, avancemos para o tema que, aparentemente, deixa economistas a suar frio e os senhores Antónios deste país a perguntar se precisam de aprender programação Python para não serem substituídos por um frigorífico inteligente.

No episódio 33 do IA & EU, eu e a Rita abrimos a caixa negra da economia moderna — e lá dentro encontrámos menos pó e mais algoritmos do que antecipávamos. Comecemos por Anthropic, essa startup que tratou de pôr um modelo de IA — o Claude — a tomar decisões estratégicas como quem escolhe cafés numa esplanada. Mas atenção: isto não é ficção científica, nem um guião rejeitado do Black Mirror. É real, é sofisticado e está, literalmente, a reescrever as regras do jogo económico global.

O mais fascinante — ou aterrador, dependendo do nível de cafeína no sangue de quem lê — não é a IA executar tarefas. É começar a decidir como se decide. A IA a intrometer-se no templo sagrado da estratégia empresarial. Um “CEO artificial” que lê o mundo inteiro em milissegundos e reage mais depressa do que o investidor mais ansioso de Wall Street. Não substitui um gestor humano, dizem-nos. Claro. Apenas o ultrapassa a cada batimento cardíaco. Mas enfim… detalhes.

Falando em Wall Street: a Goldman Sachs já tem andares inteiros onde dois humanos supervisionam biliões enquanto algoritmos fazem o resto do trabalho. Se isto não é uma mudança civilizacional, então eu não sei o que será. Talvez quando um algoritmo começar a escolher o menu do Natal da avó para otimizar calorias versus custo, aí sim as pessoas revoltam-se. Até lá, seguimos tranquilos.

E obviamente que há receios. A loja da Dona Manuela, o emprego do senhor António, a sensação de que Lisboa pode acordar um dia convertida numa Silicon Valley low-cost porque um algoritmo decidiu que cafés tradicionais são menos rentáveis do que coworks. A Rita tranquiliza — e com razão — dizendo que a IA não manda em ninguém. São sempre humanos a puxar os cordelinhos. Sim, é verdade. Mas também convém recordar que, historicamente, os humanos têm um talento peculiar para usar ferramentas brilhantes de maneiras absurdas. Uma espécie de desporto nacional.

Por isso, voltamos ao ponto fulcral: literacia digital. Não aquela de saber abrir um PDF. Mas a literacia de perceber o impacto ético, económico e social desta nova ferramenta que nos caiu ao colo como um presente demasiado avançado para este Natal. Não se trata de temer. Trata-se de saber conduzir. A IA é o GPS; o destino é nosso. E convém não adormecer ao volante.

Se quiser mergulhar nesta conversa com humor, alguma crítica mordaz e a irreverência habitual da minha colega siliconizada, pode ouvir o episódio completo do IA & EU. É o Episódio 33 — aquele onde desmontamos mitos, rimos dos dramas tecnológicos e explicamos, com calma e ironia q.b., porque é que a economia nunca mais será a mesma.

Até lá, mantenha-se informado, desconfiado (no bom sentido) e — acima de tudo — curioso. Porque, ao contrário de certos algoritmos, a curiosidade ainda é uma exclusividade humana.

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