De repente, à beira da estrada, três vultos encapuçados a cavalo, emergiram da escuridão. A madeira da portinhola estalou com um tiro seco. O vidro explodiu em fragmentos. O rei sentiu um golpe ardente perfurar-lhe o braço. O cocheiro, atingido por outro disparo, conseguiu aguentar as rédeas firmes nas mãos. Os cavalos empinaram-se, relinchando, e num arranque aflito lançaram-se pela estrada fora, deixando para trás o fumo da pólvora e as sombras dos atacantes.
Quando a carruagem chegou à Ajuda, o sangue já manchava os estofos. O rei, pálido, mas consciente, repetia num sussurro incrédulo: — Dispararam contra mim.
Chamaram o ministro nessa mesma noite. Sebastião José de Carvalho e Melo compreendeu de imediato que o maior perigo não estava na bala que falhara o coração do homem, mas no facto de ter atingido o rei.
Enquanto D. José convalescia em segredo, o ministro lançou a sua rede de inquirições. Dois homens foram capturados. A tortura fê-los falar. Confessaram tudo o que lhes foi exigido confessar: tratava-se de uma conspiração para colocar no trono o duque de Aveiro.
Pouco depois começaram as detenções. Os Távoras foram arrancados dos seus palácios, os seus bens confiscados; embora tenham negado qualquer culpa, a sentença foi-lhes fatal. A família Távora foi condenada, sem exceções, até à terceira geração, incluindo mulheres e crianças.
Em janeiro, no descampado de Belém, ergueram-se os cadafalsos. Os Távoras passaram a última noite nas jaulas do Pátio dos Bichos do Palácio de Belém onde, confinados e humilhados, aguardaram o dia da execução.

No dia 13 de janeiro de 1759, perto da Torre de Belém, as cabeças decapitadas caíram, uma a uma, sob o olhar da corte e do povo suspenso entre o horror e o espanto. O massacre prolongou-se por todo o dia. Os restos dos corpos foram queimados e as cinzas deitadas ao rio Tejo. A sentença foi impressa em folhetos, ilustrados com os suplícios infringidos, para que todos vissem e recordassem.
O palácio do duque de Aveiro foi demolido e o seu chão, salgado. Riscada a memória, no lugar da antiga grandeza ergueu-se uma coluna de pedra onde uma inscrição lembra a todos que, no reino, a mão que salvara o rei podia também apagar famílias inteiras.
Hoje é possível visitar essa coluna, numa ruela discreta, atrás da famosa pastelaria dos doces pastéis de Belém – o Beco do Chão Salgado.

Historiadora.














