Comportamento Social exemplar, segundo “Os Mandamentos da Santa Igreja”

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Falando de comportamento social, tomem lá este exemplo: é público que o ex-banqueiro Jardim Gonçalves, destacado membro da seita vaticana Opus Dei e que foi presidente do Banco Comercial Português (Millennium), no ano 2020 viu anulado pelo Tribunal da Relação o seu complemento de reforma no valor de 175 mil euros mensais (não é gralha: são 175.000,00 € por mês!) e o senhor não gostou de lhe ser permitido receber, “apenas”, cerca de 70.000 € (que lhe coube na sentença), e recorreu da decisão do tribunal.

Pergunto: esta atitude de quem é banqueiro e membro da seita fundada pelo fascista espanhol Escrivá de Balaguer, tem algum resquício de “atitude cristã”?!… Não tenho dúvidas de que os ensinamentos cristãos para as boas relações humanas fazem parte da aspiração da maioria de nós. Nas palavras de Lucas, no Sermão da Montanha (6; 27-39), estão contidos todos os modos de bem viver em comunidade quando esta é sadia. Vejamos o que nos diz ele (que percorre o mesmo caminho feito por Mateus [5; 1-12]): “A vós que me escutais digo o seguinte: amai os vossos inimigos e fazei bem aos que vos odeiam; a quem te bater numa face oferece-lhe a outra; a quem te roubar a capa dá-lhe também a túnica; dá a todo aquele que te pede, e quando levarem o que é teu, não reclames; tal como queres que as pessoas procedam contigo, procede com elas da mesma maneira”.

A estes ensinamentos (que não são mais do que caricaturas pelo exagero neles contido para ajudar a memorizar o conceito apregoado) seguem-se algumas perguntas para aclarar propósitos: “Se amais aqueles que vos amam, que agradecimentos mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores a fim de receberem o equivalente (…)”.

Os meus leitores conhecem algum católico (ou crente de qualquer outro formato de fé) que proceda assim? Quantos são os que emprestam dinheiro sem cobrar juros? Conheceis um banco, ou um banqueiro, que tenha uma acção social e fraterna para com os seus clientes?

(Já ouvi excelentes referências humanitárias a Arthur Cupertino de Miranda, precisamente o fundador da instituição de que resultou o Millennium, o Banco Português do Atlântico… mas é apenas um… e nós somos dez milhões).

Aqui obrigo-me a relatar um caso familiar como exemplo contrário às acções do banqueiro opus deísta: os meus pais, nos últimos 30 anos das suas vidas, viveram de um negócio que arrendaram em Rio Tinto na década de 1950: uma mercearia e adega.

Foto de Onofre Varela

Há cerca de uma vintena de anos encontrei-me com uma senhora minha vizinha desse tempo e cliente da loja dos meus pais. Ela contou-me: “Os teus pais foram uns santos para mim! São as pessoas cuja memória eu mais prezo. Nem da minha família tenho recordação tão grata. Numa altura difícil da minha vida (década de 1960), tinha o meu marido internado num hospital com doença grave, dois filhos em idade escolar e eu desempregada. Não tinha como dar de comer aos meus filhos. Os teus pais forneceram-me as mercearias, pagaram-me a renda, a luz (a água tirava-se de um poço comunitário) e demais necessidades. Num caderno apontavam-se todos esses valores, cuja conta só pagaria, a prestações e de acordo com as minhas possibilidades, quando o meu marido se curasse e trabalhasse, e eu arranjasse emprego. Demorei alguns anos a pagar a dívida… sem quaisquer juros!… Não paguei nem um tostão a mais do valor que os teus pais me confiaram”.

Resta dizer que a minha mãe, religiosamente, era aquilo que se costuma designar por “católica não praticante”… e o meu pai era ateu e comunista.

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