Querida Vó Milay,
Numa destas sextas-feiras – já são cerca de 240 desde que me faço acompanhar
incondicionalmente dos teus ensinamentos e da tua voz para onde quer que vá, pois, a
maldita doença de Alzheimer impediu-nos de partilhar cada momento como outrora –, saí
apressada de um comboio numa das estações da Linha de Cascais e desci as escadas que
me deram acesso ao metro. Escrevo-te por querer fazer das minhas palavras tuas, por ter
a necessidade de que dês ensejo à leitura de cada frase e me repreendas, reparando que
não coloquei uma vírgula antes do vocativo ou que uma determinada estrutura frásica
poderia ser reformulada.
Na verdade, se ainda tivesses capacidades cognitivas suficientemente fortes para
compreender a carta que te escrevo, soltarias “Mas a que estação te referes? Não percebes
que o suspense não funciona sempre?”. E eu sorriria, como sorrio redigindo este texto,
enquanto imagino que, mesmo que me colocasses essa questão, fá-lo-ias sabendo que
pisei o nosso Cais do Sodré. Afinal, de tantas vezes que cantámos “Ai cais do Sodré / ai
cais do Sodré / mais vale parecer / que ser o que é”, o mesmo tornou-se oficialmente
propriedade nossa por entoarmos com pouca mestria mas boa vontade os versos do
Rodrigo.
Aliás, a mestria sempre esteve presente na tua alma de fadista amadora. Do meu
lado, o fascínio pela arte de escrever versos mais ou menos elaborados – apresentassem-
se eles em formato de décimas, quintilhas, sextilhas, alexandrinos decassílabos ou fossem
improvisados numa desgarrada – levou a que enveredasse pela profissão que tanto temias.
Por ter abraçado o jornalismo – apesar de te ouvir dizer repetidamente “Vai para Direito.
Assegura a tua profissão. Depois, escreve livremente, mas como hobbie” –, fui ao Cais
do Sodré que tanto mencionámos imitando o Rodrigo, em tardes de sábado e domingo. É
curioso porque, naquele dia, enquanto chovia a cântaros e proferia quase silenciosamente
versos das nossas músicas – não esquecendo “A chuva molhava-me o rosto / Gelado e
cansado / As ruas que a cidade tinha / Já eu percorrera” – pensava que, se todos os fadistas
que admiramos nos conhecessem, perceberiam que, se em termos legislativos, os
progenitores em regime de guarda partilhada dos filhos podem escolher um regime de
residência alternada, eles fizeram-no connosco, sendo nós mães do fado durante tantos
fins de semana.
Lembras-te de quando me levavas de forma sorrateira às noites de fado
da Casa do Adro, às sextas à noite, e o apresentador insistia que cantasse o Trigueirinha?
Optavas sempre por um dos seguintes cenários: subias ao pequeno palco improvisado e
cantavas – as estrelas do teu repertório eram O Marquês de Linda-a-Velha e o Embuçado –, enfrentando a reduzida, mas exigente audiência em meu lugar, fechando os olhos e
colocando as mãos nos bolsos como se da encarnação feminina do Alfredo Marceneiro te
tratasses ou encorajavas-me a entoar uns versos a partir da mesa de madeira envelhecida.

Como me dizias que “a História é essencial” e não se pode dissociar de qualquer outra
das vertentes da nossa existência, dei por mim a recordar pormenores absolutamente
fúteis como o facto do Cais do Sodré ter sido inaugurado a 18 de abril de 1998 no âmbito
da expansão da Linha Verde do metropolitano. Depois, como a minha memória também
já falha – deixaste-me com a tarefa inesperada e árdua de ser guardiã daquilo que
vivemos, perdoa as minhas lacunas –, pesquisei um pouco e descobri esta descrição
online: “Acesso à Avenida 24 de Julho. Composição chegando à plataforma. Acesso à estação
ferroviária. Esta estação está situada no Cais do Sodré, entre a Avenida 24 de Julho e o
Jardim Roque Gameiro, fazendo interface com a Estação Ferroviária do Cais do Sodré,
que serve a Linha de Cascais, e com a Estação Fluvial do Cais do Sodré que liga Lisboa
a Cacilhas, Seixal, e Montijo. A estação possibilita ainda o acesso ao Mercado da Ribeira
e aos arruamentos circundantes”. Porquê? Não sei. Apercebo-me de que temo tanto ficar
com as memórias em espera, como tu, que acabo por querer apoderar-me das mesmas de
alguma forma, por mais inusitada que seja. Neste caso, por mais exaustiva que a minha
investigação seja, será infinitamente infrutífera. Por mais acessos que as estações de
metro proporcionem, nunca serão capazes de me conduzir até àquele que eu almejo: um
regresso ao passado.
Não mentirei – até porque seria desnecessário ousar, sequer, fazê-lo contigo – mas, apesar
de ter realizado esta pesquisa somente em casa, poderia ter-me sido útil quando viajava.
Naquela sexta-feira que foi tão vazia quanto todas as outras que tenho passado a esforçar
me por preservar a nossa memória coletiva porque a estúpida demência decidiu corroer
te a pouco e pouco. A cerca de cinco passos largos de mim – desculpa a minha exatidão,
tentei fazer estes cálculos enquanto o nervosismo me acometia e o varão de ferro irritava-
me, perturbando o meu campo de visão –, entre o Cais do Sodré e o Areeiro, uma rapariga
com cerca de 30 anos, o rabo de cavalo castanho escuro bem preso com um scrunchie
colorido, uma mochila branca com joaninhas – sabias que são consideradas, pela
comunidade científica, besouros e alimentam-se de pulgas? Aposto que sim, porque tens
dois volumes da enciclopédia Lello Universal numa das estantes da sala, mas poderias
efetivamente ter sido tu a escrevê-las – desenhadas e uma indumentária quase pueril
pegou no telemóvel.
Esta é a passagem que marcaria, indubitavelmente, o fim da tua paciência. “Maria, que
raio importa que a mulher tenha pegado no telemóvel? É isso que as pessoas fazem diária
e constantemente. Não podes esperar que um leitor fique preso ao texto com esses
excertos fraquinhos”, imagino-te a dizer sem rodeios.
E não sabes, não fazes a menor ideia, do quão significativo seria para mim apreender as tuas críticas construtivas e tentar
melhorar. Uma e outra vez. Porém, antes que me disperse completamente e perca o fio à
meada, regressemos à viajante que me acompanhou. No minuto que o metro demorou a
viajar entre o Cais do Sodré e a Baixa-Chiado – com aqueles túneis quase abobados em
cujas escadas rolantes te telefonava qual stalker quando, durante o meu primeiro ano da
licenciatura, tinha de me deslocar à faculdade ou realizar algum trabalho de grupo ou uma
entrevista e fazias supostos disparates (hoje, tenho conhecimentos para saber que o
disparate era meu por não conseguir ajudar-te devidamente) como atirar beatas dos
cigarros para dentro da panela da sopa, descascar uma laranja para dentro de um cinzeiro
minúsculo ou clicar em todos os botões do comando da televisão, ficando desorientada e
frustrada –, ouvi “Avó, como está? Tem muitas dores?” e fingi que olhava para o
telemóvel. A bem dizer, olhei, só que fiz algo não muito ortodoxo: cliquei de imediato na
aplicação do bloco de notas e transcrevi o diálogo que a rapariga estava a ter com a idosa.
Quero dizer, as intervenções da passageira, mas não deixou de ser percetível a intenção
da outra interlocutora.
Vou elucidar-te, tal e qual como se absorvesses estas linhas. Por aquilo que entendi, a avó
da rapariga estava no hospital (não sei qual, imagino que num de Lisboa) e insistia que
queria ir embora. A seu lado, a rapariga respondia, num tom de voz estridente, quase a
“dar show”, expressão que utilizavas frequentemente quando alguém parecia tentar
destacar-se.
Não sei se era esse o motivo ou a eventual surdez da senhora. Creio que seria
uma mistura de ambos. “Ó vó, tem de ter paciência. Fez uma fratura grave no braço”. Por
esta altura, já a arquitetura de Siza Vieira tinha voado quando entrámos na estação que,
caso quiséssemos, nos daria acesso à Praça da Figueira. Confortou-me pensar que ambas
não o fizemos por termos tempo. Pelo menos, eu tive alguns segundos para criar o cenário
hipotético em que ela se deixava entrevistar e eu fazia-lhe perguntas mundanas. Que idade
teria a senhora? Como teria partido o braço?
“Eu sei que estás cansada, mas tens de esperar. Se ainda não tiveste alta, é porque não
estás boa”. Tentei abstrair-me da conversa, não querendo ser “voyeur”, e combati a minha
curiosidade.
Acreditas que vislumbrei a gravura do D. Afonso Henriques qual cruzado
sem a ver e o cheiro a caril invadiu-me sem o sentir? Quando me consciencializo de que
cometo atos que reprovarias, retraio-me e dou tudo para regressar aos bons costumes que
me incutias. Passávamos a toda a velocidade no Intendente quando o pensamento sobre
os seus azulejos coloridos não funcionou. Principalmente, quando a rapariga ficava
calada, roía as unhas de uma mão e parecia estar enfadada, não querendo ouvir a avó. É
que, na minha cabeça, surgia apenas uma imagem: a do teu telemóvel branco pousado em
cima do toucador, com o post-it debruado a padrão floral em que escrevi “Em caso de
emergência, telefonar à neta Maria. 926537672”, tendo-o colado cuidadosamente com
fita-cola (ou fita gomada, como dizias) num dos dias de desespero. Quando achavas que
eras suficientemente independente para sair à rua, mas não aceitavas que começavas a ser
insuficientemente racional para fazê-lo. O contacto telefónico desatualizado denuncia a
morosidade infeliz da tua doença.
“Para o ano, tudo será melhor”. Percorríamos as estações Intendente e Anjos à medida
que a rapariga fazia um discurso prolongado sobre a influência da covid-19 no tratamento
hospitalar que a idosa recebia assim como no impedimento das visitas à mesma. A covid
19 é aquele vírus cruel ao qual chamo “bicho” quando te vejo “atenta” a uma peça
televisiva sobre o mesmo ou assustada com as máscaras cirúrgicas de um azul esbatido
que não dispenso. Acima de tudo, pela tua segurança, pois sofro de uma espécie de
complexo de Deus transformando em complexo da cuidadora informal, achando que te
resguardarei de todos os males do mundo.
Tendo eu a minha quota parte de masoquismo, como todos os outros seres humanos,
agradeci às obras de reabilitação prolongadas pela mensagem “Este comboio não pára em
Arroios” mas, simultaneamente, desejei que parasse. Seriam os sete minutos de viagem
que restavam suficientes para ouvir o resto da conversa? E sairia a rapariga na Alameda
ou, tal como eu, no Areeiro? Tentava dividir a minha atenção entre estas divagações e a
chamada telefónica alheia quando ouvi “Vá, vó, se precisares de alguma coisa, diz.
Beijinhos”. Naquele momento, uma súbita e quase insuportável vontade de falar com a
rapariga invadiu-me. Uma espécie de mecanismo de coping através do qual, dando o
máximo para viver aquela realidade que em tempos me fora querida através das suas
declarações, pedir-lhe-ia que me narrasse os dias que passa com a avó e o relacionamento
que têm.
Vó Milay, não me interpretes mal, eu continuo a amar-te com a mesma
intensidade, mas a Alzheimer vai lutando para te roubar de mim e, por vezes, sinto que
vou ceder aos seus caprichos.
E, por mais bizarro que pareça, isto não aconteceu somente naquela viagem de metro. E
escrevo-o como se fosse uma mulher a admitir uma traição ao marido com uma lucidez
inquietante.

Certo dia, encontrava-me na estação de Oeiras, quando vi um casal de idosos
a partilhar uma dúzia de castanhas assadas. A senhora arrancava-lhes a casca com lassidão
e, à sua vez, o senhor comia-as com rapidez. Quando o fumo já não saía do embrulho
feito com folhas de jornal e as pobres coitadas estavam mais frias do que as notícias, a
senhora, com os olhos esbugalhados, resmungou: “Olha lá, pára com isso! Não podemos
comer todas, vem aí o miúdo!”. O senhor embrulhou o resto das castanhas com amor e
entregou-as à dona do carrapito de cabelo branco mais belo que alguma vez vira. Alguns
minutos depois, um rapaz pouco mais velho do que eu saiu do comboio, abraçou os avós
com força e recebeu as castanhas com alegria.
Ao refletir sobre esse episódio com a devida distância temporal, concluo que, à época,
não me questionei. Terá o jovem comido as castanhas ou guardou-as como se
constituíssem um pequeno tesouro? Não o censuraria porque, há três anos, quando a tua
mobilidade ainda estava apenas ligeiramente afetada, passeámos pela longa rua de casa
da minha mãe, tua filha (importa salientar detalhes mundanos – aos olhos de quem não
conhece a Alzheimer – como graus de parentesco. Estou ciente de que não os entendes,
mas tentar é essencial), e arrancaste a pétala a uma rosa. Entregaste-ma e guardei-a entre
as páginas de um caderno cuja capa azul tem a imagem de um fonógrafo. Esta escolha,
que não foi deliberada, tem o seu quê de amargura. Afinal, qual versão atualizada do
aparelho inventado por Thomas Edison, reproduzo sons, imagens, cheiros, gostos, ódios,
expressões faciais e o diabo a sete esperando qualquer espécie de retorno. Mas esse
esconde-se. Estou a ser injusta: está presente em ti, não o consegues transmitir.
Segundo informação veiculada pela Alzheimer Portugal (por favor, ignora as
idiossincrasias jornalísticas), “a Doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca
uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas” como
a memória, a atenção, a concentração, a linguagem, o pensamento, entre outras, sendo
que “esta deterioração tem como consequências alterações no comportamento, na
personalidade e na capacidade funcional da pessoa, dificultando a realização das suas
atividades de vida diária”.
Se em 2015 sintomas como as dificuldades de memória persistentes e frequentes, o
discurso vago, a perda de entusiasmo em relação a atividades que eram apreciadas antes
ou o esquecimento de pessoas ou lugares conhecidos eram-me absolutamente
desconhecidos, atualmente, interpreto-os como corriqueiros. Não quero abordar a
patologia de que sofres num tom pejorativo – muito pelo contrário, acredita que faço um
esforço hercúleo para lidar com a mesma todos os dias –, contudo, quero colocá-la no seu
lugar, fazê-la ver que, apesar das tuas fragilidades físicas e psicológicas, continuas a ter
um destaque ímpar na minha vida, vivendo na redoma de amor, aconchego, preocupação
excessiva e inversão de papéis – chego a tratar-te por “filha” em tom jocoso embora, se
quiser enveredar pela verdade dos factos, tenha de admitir que és, sem dúvida alguma,
uma extensão de mim e te veja como um ser pequenino e indefeso pelo qual devo zelar –
que tenho vindo a construir com base na experiência.
No 12.º ano, num dos três volumes do manual da disciplina de História A, deparei com
uma reprodução da pintura A Persistência da Memória de Salvador Dalí. Estudava o
surrealismo quando fui acometida por um fascínio emergente. O que significariam o
penhasco e o mar no horizonte? Pesquisei: Dalí vivia na Catalunha e pretendia retratar a
paisagem da comunidade autónoma sem qualquer símbolo metafórico, querendo limitar
se “ao real”. E as formigas que, no canto esquerdo, se reuniam num dos relógios.
Pesquisei: de modo aparente, para além de uma mosca, estes pequenos insetos eram a
única representação de vida na pintura, sendo que Dalí não gostava deles e recorria à sua
presença, na obra que desenvolvia, para simbolizar a putrefação. Mas, e os relógios, que
se “derretiam”? Pesquisei, mas não o suficiente: talvez, se o tivesse feito, e compreendido
que aqueles objetivos aludiam à relatividade do espaço e do tempo, como se
assemelhassem a um colapso das nossas noções de uma ordem cósmica instaurada – que
inocentes! –, meses depois estaria preparada para enfrentar o resultado da tua avaliação
neuropsicológica: quadro compatível com demência de nível moderado.
Mesmo assim, continuo a encetar uma corrida contra o tempo e a recordar uma célebre
citação de Dalí: “Toda a minha ambição no campo pictórico é materializar as imagens da
irracionalidade concreta com a mais imperialista fúria da precisão”. E, mesmo não tendo
conhecimentos artísticos consolidados para adaptar para o meu (nosso) quotidiano a
conceção de que os relógios derretidos se misturam com imagens familiares aos olhos
humanos e podem criar uma impressão de que realmente estão ali, sei que a degradação
da tua memória – resumindo-se a isso para os leigos ou para aqueles que não te veem para
além do rótulo da doença – permanecerá, mas eu não desistirei de ver em ti, através de
frases raramente proferidas como “És a minha menina” ou gestos ainda menos casuais
como uma carícia na face, os resquícios do laço que nos une.

Por estes motivos, querida Vó Milay, farei, até ao meu último suspiro, uma elegia da
Alzheimer. Se esta é uma poesia triste, melancólica ou complacente, dizendo respeito a
uma música para funeral ou um lamento de morte, a tua doença pode considerar-se morta
enquanto eu tiver alento para a combater. Na Literatura Grega, o termo elegeia era usado
no âmbito de referências a versos escritos, por exemplo, em epitáfios para túmulos. E se
a Alzheimer pudesse ler o seu epitáfio, redigido por mim, deparar-se-ia com uma
mensagem semelhante a esta: “Eu só queria telefonar à minha avó e comer castanhas
frias. Será pedir muito? Pelos vistos, pensaste que sim”.
Da tua filha-neta,
Maria
N.A. : “Texto que redigi para uma unidade curricular, em 2020, mas nunca o publiquei”.

Jornalista














