A Câmara Municipal de Matosinhos voltou a promover o já tradicional Passeio
Matosinhos Sénior, iniciativa que este ano vai levar cerca de 5.500 pessoas a bordo,
repartidas por freguesias, numa espécie de cruzeiro democrático onde o mar une aquilo
que o trânsito separa.
E ainda bem que mostraram fotografias do primeiro passeio. Durante algumas horas,
muitos matosinhenses ficaram descansados ao ver mesas carregadas de carabineiros
e camarão. Confesso que, perante o atual ambiente de insegurança urbana, mudança
constante de sentidos de trânsito, obras intermináveis e helicópteros ocasionais a
sobrevoar a cidade como se estivéssemos num remake de “Apocalypse Now” versão
Leça da Palmeira”, pensei que a autarquia tivesse finalmente decidido agir.
“Chegaram os Carabinieri”, pensei eu.
Afinal, não. Eram apenas carabineiros. Marisco.
Durante breves instantes imaginei uma cooperação internacional sem precedentes:
polícia italiana destacada para Matosinhos, agentes de bigode impecável a patrulhar
rotundas recém-invertidas, a tentar perceber por que razão uma rua muda de sentido
três vezes por semana e porque é que para ir de São Mamede até à praia é preciso hoje
um GPS, duas bênçãos e um pedido formal à Proteção Civil.
Mas não. O investimento foi gastronómico.
E diga-se, percebe-se a prioridade. Em Portugal, quando há problemas, responde-se
com comida. É quase uma política pública paralela. Há insegurança? Faça-se um
almoço. Há trânsito? Organize-se uma sardinhada. Há descontentamento? Acrescente
sobremesa.
Também impressiona a rapidez com que o passeio esgotou. Ao segundo dia já não havia
vagas. O que prova duas coisas, os seniores portugueses continuam a ter uma eficácia
organizativa que faria corar qualquer start-up tecnológica, e qualquer promessa de
passeio de barco com marisco incluído tem mais poder mobilizador do que metade dos
programas eleitorais do país.
Aliás, começa legitimamente a surgir a dúvida, isto é, um passeio sénior ou um ensaio
geral de campanha eleitoral? Porque há uma linha muito ténue entre política social e
comício flutuante. Hoje é um passeio de barco, amanhã estamos a batizar embarcações
com nomes de candidatos e a distribuir bonés junto ao buffet de camarão.
Mas talvez este seja apenas o início de uma revolução maior: os transportes gratuitos
na Área Metropolitana do Porto. E, nesse caso, Matosinhos está simplesmente à frente
do seu tempo. Uns começam com autocarros, Matosinhos começa logo com cruzeiros.
Visionário.
Outra questão que me tem causado algum desconforto existencial é a designação “60+”.
Ora, a idade legal da reforma já vai nos 66 anos e 9 meses. Portanto, anunciar atividades
“60+” parece um pouco otimista. Quase provocador. Aos 60 anos, atualmente, uma
pessoa ainda está a trabalhar, a descontar, a pagar combustível e a tentar perceber
porque é que a sua rua agora é de sentido único… ao contrário.
Talvez fosse mais rigoroso chamar-lhe “66 anos e 9 meses +”. Sim, perde impacto
gráfico. Mas ganha honestidade institucional.
E depois há o símbolo “+”. Esse misterioso “mais”. Antigamente era matemática. Agora
aparece em todo o lado. Temos Disney+, Apple TV+, LGBTQIAPN+, 60+… qualquer dia
a própria Câmara Municipal passa a chamar-se “Matosinhos+”. O problema é que
ninguém explica exatamente o que significa o “+”. É um extra? Uma atualização? Uma
expansão premium?
No caso do trânsito em Matosinhos, suspeito que significa simplesmente: “mais
confusão”.
Talvez, em vez de passeios de barco, fosse interessante investir numa solução
verdadeiramente transformadora, uma trotinete elétrica para cada residente. Imaginem
o impacto. Acabava o trânsito, reduziam-se emissões, as ruas deixavam de precisar de
mudanças de sentido porque ninguém saberia bem por onde circulava, e os helicópteros
passavam a ser desnecessários.
Matosinhos tornava-se a primeira cidade oficialmente eco-progressista anfíbia do país.
E o melhor de tudo: sem necessidade de chamar os Carabinieri.
Bastavam os carabineiros.

Shipchandler














