Quando a Formação Perde o Propósito

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Há momentos no desporto que nos ficam gravados não pelo resultado, não pela qualidade do jogo, nem sequer pela rivalidade.

Ficam porque nos obrigam a parar e a pensar naquilo em que o desporto de formação se está a transformar.

Na semana passada vivi um desses momentos.

Em quase quatro décadas ligadas ao futebol e ao futsal, primeiro como atleta, depois como treinador, nunca tinha assistido a algo assim.

Num jogo de sub-17 do campeonato inter-distrital da Associação de Futebol de Braga, a nossa equipa apresentou-se normalmente.

Jogadores preparados. Treinadores preparados. Pais na bancada. Tudo pronto para mais um jogo de formação.

Do outro lado… estavam apenas três jovens atletas.

O jogo começou, mas rapidamente percebemos que aquilo nunca deveria ter acontecido. Cerca de dez minutos depois, um dos miúdos caiu no chão e a partida terminou.

E foi impossível não sair dali com uma sensação profunda de vazio.

Porque aqueles três jovens não eram o problema. O problema era terem sido colocados naquela situação.

Porque aquilo não era formação. Era apenas o reflexo de um problema muito maior.

Hoje, em muitos contextos desportivos, a formação começa a ser tratada como um requisito administrativo e não como um verdadeiro projeto humano.

Criam-se equipas à pressão. Preenchem-se escalões para cumprir regulamentos. Inscrevem-se jovens para garantir licenças, participações ou subidas competitivas.

E no meio disso tudo, por vezes esquecemo-nos do essencial:

Estamos a falar de jovens.

Miúdos que não deviam ser tratados como números, burocracia ou ferramentas ao serviço dos objetivos dos adultos.

A formação deveria ser um espaço de crescimento. Um lugar onde se aprende disciplina, compromisso, espírito de equipa, respeito e superação.

Foi isso que muitos de nós encontrámos no desporto.

Quem cresceu dentro de um balneário sabe que o verdadeiro valor do futebol, do futsal, e de tantas outras modalidades, vai muito além do resultado final. O desporto ajuda a formar caráter, ensina-nos a lidar com derrotas, a respeitar colegas, a ouvir líderes e, muitas vezes, torna-se uma escola para a vida.

Talvez por isso custe tanto assistir a situações destas.

Porque enquanto existem treinadores, dirigentes, pais e voluntários que sacrificam tempo, dinheiro e família para manter projetos vivos e criar oportunidades para os jovens, continuam a existir exemplos que parecem esvaziar completamente o verdadeiro significado da palavra FORMAÇÃO.

E talvez esteja na altura de fazermos uma pergunta séria:

Que desporto queremos deixar às próximas gerações?

Um desporto de aparências e regulamentos? Ou um desporto de valores, responsabilidade e respeito pelos jovens?

Porque quando a formação perde o propósito…o desporto perde a alma.

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