Desde turmas do primeiro ciclo a grupos de escuteiros, dezenas de participantes têm ajudado na recolha de bolotas e no mapeamento da espécie Quercus lusitanica, conhecida como carvalhiça. Um trabalho realizado no âmbito do LusoQuercus, um projeto de investigação, coordenado pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto, que conta com a participação de vários docentes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP).

“O LusoQuercus centra‑se na conservação e estudo do Quercus lusitanica, um arbusto anão lindíssimo e pouco conhecido, altamente ameaçado no Noroeste do país”, explica Ana Campilho, coordenadora do projeto e professora na FCUP. A pressão das alterações climáticas e da agricultura intensiva tornam esta espécie, que se distingue pela sua forma peculiar de propagação horizontal através de caules subterrâneos, especialmente vulnerável.
O contributo da sociedade tem sido decisivo para devolver visibilidade a este carvalho-anão e reunir a informação necessária para garantir o futuro desta planta. A recolha de bolotas, feita pela comunidade e promovida pelo LusoQuercus, é essencial para o trabalho de conservação, permitindo à equipa científica mapear populações e aprofundar o conhecimento sobre a espécie.
A presença da carvalhiça no território é, aliás, muito particular. O Quercus lusitanica deve a sua designação à distribuição marcadamente portuguesa. A maioria dos núcleos encontra-se em território português, dispersos de Noroeste a Sul, e apenas algumas manchas no golfo de Cádis e Marrocos. “É o único carvalho‑anão da Euro-Ásia”, sublinha Ana Campilho. “As restantes espécies-anãs são americanas”, o que acentua a importância de conservar este pequeno arbusto.
O projeto analisa ainda a sua capacidade de rebentar no pós‑fogo. Foto: DR
Um verdadeiro movimento de devolução
Nas estufas do BIOPOLIS-CIBIO, as bolotas dão origem a novas carvalhiças que serão plantadas em escolas, parques e jardins públicos, e em florestas fragilizadas, num verdadeiro movimento de devolução, que procura dar ao Quercus lusitanica o lugar que merece no território português. Como resume a coordenadora do projeto, “queremos elevar a espécie, tornando-a icónica cá em Portugal”.
Paralelamente, a equipa está a investigar como variam, geneticamente, estes carvalhos-anões ao longo do país. “Estamos a analisar qual é a diversidade genética das populações, informação essencial para a genómica da conservação, que nos permitirá perceber se há plantas mais adaptadas ao calor ou à seca e se essas características podem ajudar a proteger a espécie no futuro, nomeadamente da forte pressão das alterações climáticas”, explica a investigadora.

Há, também, testes de diferentes formas de propagação, incluindo por estaca, em curso para produzir plantas com maior rapidez, mas é o comportamento da espécie após incêndios e os seus caules subterrâneos que mais têm chamado a atenção da equipa. “Este pequeno carvalho é frequentemente dos primeiros a rebentar depois do fogo, um sinal de resiliência que ainda não está totalmente compreendido”, comenta.
Da floresta às escolas para semear o futuro
A divulgação tem sido outro pilar do projeto, com ações em escolas do primeiro ciclo ao secundário. As carvalhiças jovens, produzidas nas estufas, e as bolotas servem de base para atividades práticas que aproximam os alunos da espécie e dos desafios da sua conservação. “Eles gostam é muito das bolotas, principalmente os mais pequeninos, que ficam encantados e querem fazer esculturas”, conta ainda Ana Campilho. A equipa leva pés de planta ou bolotas para semear nas escolas e, sempre que possível, acompanha a plantação. “Uma turma de quarto ano estava muito entusiasmada com os carvalhos”, recorda a investigadora, que descreve esta experiência como “um dos momentos mais bonitos” que viveu no projeto.
Este movimento, entre participação pública, investigação e devolução ao território, assenta numa estrutura que o LusoQuercus tem vindo a consolidar desde a sua génese. O projeto arrancou no âmbito do Prémio de Biodiversidade da Fundação Belmiro de Azevedo, tendo, mais tarde, o apoio da Fundação Belmiro de Azevedo. Recentemente, conquistou financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia/COMPETE2030-FEDER, que o apoia nos próximos dois anos.

Para além de Ana Campilho, conta com uma equipa multidisciplinar, da qual fazem parte vários docentes da FCUP: Carlos Vila-Viçosa, Mariana Sottomayor, Rubim Almeida, Fernando Tavares, Ana Rita Seabra, Paulo Farinha Marques e Catarina Teixeira.
A iniciativa envolve ainda diversas instituições, entre elas as associações Viver a Ciência e BioLiving, o INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial, o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e o Jardim Botânico da Universidade do Porto.
OC/ Francisca Rodrigues e Renata Silva/FCUP







