Quando o Espaço Público Perde a Vergonha: Uma Reflexão Sobre Juventude, Linguagem e Civilidade

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Ao longo dos anos, tornei algumas esplanadas em espaços de trabalho improvisados, quase extensões naturais da minha mesa de escrita. São lugares onde o murmúrio das conversas se mistura com o som das chávenas, onde a vida circula de forma tranquila e onde a presença do outro é companhia, não perturbação. Contudo, há dias em que esta harmonia se desfaz. Dias em que o espaço público se converte num palco involuntário de comportamentos ruidosos, impróprios e profundamente reveladores da erosão das normas básicas de convivência.

Foi o que aconteceu recentemente enquanto trabalhava numa esplanada cheia de adultos e idosos. Ao meu lado, instalou‑se um grupo de oito jovens universitários — cinco rapazes e três raparigas. Nada de anormal: a juventude sempre trouxe vitalidade aos espaços comuns. O que surpreendeu não foi a presença, mas a forma como ocuparam o espaço sonoro e simbólico. Durante mais de uma hora, falaram em voz muito alta, num tom expansivo que parecia ignorar completamente a existência das restantes pessoas, num desrespeito profundo. A conversa girou sempre em torno de temas de teor adulto, tratados com uma superficialidade ruidosa, como se cada frase fosse um exercício de exibição social.

O impacto na esplanada foi imediato. Vi rostos escandalizados, olhares perplexos, expressões de desconforto entre idosos que apenas procuravam um momento de calma. O que antes era um espaço partilhado tornou‑se palco de uma presença juvenil que parecia pouco consciente de que vivemos em comunidade. Havia ali uma ausência total de vergonha, uma espécie de perda de autocensura que transformava a conversa privada em espetáculo público, sem qualquer filtro.

Do ponto de vista sociológico, este fenómeno não surge do nada. A pesquisa académica tem demonstrado que os jovens utilizam frequentemente linguagem imprópria e expansiva como forma de integração e identidade grupal. Um estudo recente sobre linguagem obscena entre jovens universitários realça precisamente este comportamento: o uso de expressões marcadas como forma de coesão, de expressão emocional e até de afirmação perante os pares. Outra investigação, realizada no contexto universitário, observa que muitos estudantes recorrem de forma natural a expressões de teor ofensivo em conversas informais, sobretudo quando se encontram em grupo, reforçando uma sensação de pertença e desinibição coletiva.

No entanto, a sociolinguística alerta há muito para o facto de que a linguagem nunca é neutra. Palavras, tons, registos — tudo transporta significado social. O estudo clássico da Universidade Federal do Paraná sublinha que “nunca as expressões de baixo nível e a gíria tiveram uso tão generalizado quanto agora”, e que o seu impacto emocional é real, ativando mecanismos de reação no ouvinte. Ou seja, aquilo que para os jovens é apenas “estar à vontade” pode revelar‑se uma agressão subtil aos que partilham o espaço.

Do ponto de vista da teoria da linguagem, Steven Pinker, psicólogo e linguista canadiano, naturalizado norte-americano, professor da Universidade Harvard e escritor de livros de divulgação científica, lembra que certas expressões carregam um peso simbólico e emocional profundo, precisamente porque nasceram como tabu. Mesmo quando se tornam hábitos, continuam a criar impacto. A sua utilização descontextualizada provoca rupturas no ambiente comunicativo. E foi exatamente isso que ali se testemunhou: a ruptura entre aquilo que um grupo considera normal e aquilo que uma comunidade inteira sente como excessivo.

O contexto intergeracional agrava esta fricção. Para muitos adultos e idosos presentes naquela esplanada, a linguagem usada por este grupo juvenil não era apenas ruidosa: era desrespeitosa, um sinal claro de que a fronteira entre o privado e o público se esbateu perigosamente. A vergonha — esse regulador social invisível que durante décadas moldou comportamentos — parece ter perdido qualquer função. E quando a vergonha desaparece, desaparece também a noção de limite.

O que está verdadeiramente em causa é a transformação do espaço público. Cada geração reinterpreta-o, mas o que hoje se observa é uma tendência crescente para o uso do espaço comum como prolongamento da esfera privada: sem filtro, sem autocontrolo, sem consciência do outro. A liberdade de expressão, que é uma conquista, torna‑se facilmente num abuso quando deixa de considerar a convivência alargada.

Não se trata de censurar a juventude (porque também o fui de forma imensamente efusiva!) — que é naturalmente ruidosa e irreverente — mas de recordar que viver em sociedade implica reconhecer a existência dos outros. A modernidade líquida, como descreve Bauman, dissolve fronteiras e torna aparente o imediatismo, mas não elimina a responsabilidade coletiva de preservar a civilidade. A convivência exige equilíbrio; a espontaneidade requer contexto; e o espaço público pede contenção mínima.

A cena que testemunhei não foi apenas um episódio isolado. É um sinal de algo maior: a crescente dificuldade em compreender que a liberdade individual não pode atropelar o bem‑estar comum. Que falar alto não é apenas uma preferência, mas uma intrusão. Que certos temas precisam de contexto para não se tornarem agressivos. Que a vergonha — longe de ser uma fraqueza — é um sofisticado mecanismo de respeito social.

E talvez seja esse o grande desafio contemporâneo: reaprender a partilhar o espaço, a reconhecer limites, a perceber que a linguagem é mais do que expressão — é relação.

As palavras que usamos, o volume com que as dizemos e o contexto em que as colocamos dizem sempre mais de nós do que imaginamos. E dizem, sobretudo, que tipo de comunidade estamos a construir.

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