Portugal deve seguir o exemplo da Noruega e comprar livros para todas as bibliotecas

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Há países que investem na leitura como quem investe no futuro. A Noruega é um desses exemplos luminosos. Desde os anos 1960, o Estado norueguês criou e aperfeiçoou um programa exemplar — o Purchasing Scheme for Literature — que garante que a literatura de qualidade chegue às estantes das bibliotecas públicas, independentemente do autor, da sua editora ou do sucesso comercial esperado. Não se trata de retórica cultural: trata-se de uma política pública inteligente, contínua e profundamente eficaz.

Segundo a UNESCO, o governo norueguês, através do Arts Council Norway, compra 703 exemplares de cada novo livro de alta qualidade destinado a adultos e 1.480 exemplares de livros infantis. Estes exemplares não ficam guardados em armazéns nem são destinados à venda; seguem diretamente para bibliotecas de todo o país, reforçando de forma homogénea o acesso à leitura, mesmo nas regiões mais isoladas.

A filosofia subjacente é simples e poderosa: garantir diversidade literária, apoiar autores, estabilizar o mercado editorial e democratizar o acesso ao livro. Nas palavras do próprio governo norueguês, a política pretende assegurar “diversidade e qualidade, bem como acesso generalizado à literatura para todos”.

Numa sociedade de apenas 5,3 milhões de habitantes, onde o mercado interno poderia ser um obstáculo à sobrevivência de novos escritores, esta política transforma-se num motor cultural. Graças a este programa, um autor estreante sabe que o seu livro não se perderá na maré das novidades; terá centenas de leitores logo à partida. As editoras, por seu lado, podem arriscar mais, publicar obras inovadoras, abrir espaço a novas vozes, sabendo que existe um apoio institucional que reduz parte da incerteza. E as bibliotecas, grandes ou pequenas, mantêm-se vivas, atualizadas e relevantes para as suas comunidades.

É impossível olhar para este sistema e não pensar na realidade portuguesa. Em Portugal, a renovação das bibliotecas depende frequentemente de orçamentos curtos, concursos irregulares, projectos locais e, por vezes, uma boa dose de sorte. Muitos municípios fazem milagres com recursos limitados, mas a desigualdade no acesso ao livro recente é real: há bibliotecas com coleções constantemente rejuvenescidas e outras onde os lançamentos só chegam anos depois — se chegarem.

Os nossos escritores enfrentam uma adversidade semelhante: tiragens reduzidas, forte concorrência, um mercado saturado e poucas garantias de que a sua obra encontrará leitores. Um primeiro livro pode ser excelente e, ainda assim, cair rapidamente no esquecimento, não por falta de mérito, mas por falta de caminhos para chegar ao público. E isso é injusto — para o autor, para o leitor e para a própria cultura nacional.

A Noruega prova que existe uma alternativa concreta. Um programa português de aquisição pública de livros, adaptado às dimensões do nosso país, poderia transformar o setor. Imagine-se uma política que garantisse, desde o início, que cada novo livro português selecionado, segundo critérios transparentes e rigorosos, seria automaticamente adquirido em algumas centenas de exemplares e distribuído pela Rede Nacional de Bibliotecas Públicas. Seria uma revolução silenciosa: as bibliotecas seriam revitalizadas; os autores ganhariam leitores e rendimento; as editoras arriscariam mais; e os leitores, de norte a sul, incluindo ilhas, teriam acesso imediato à literatura produzida no seu país.

E há ainda um efeito colateral precioso: a afirmação da leitura como bem público essencial. A Noruega entende que a literatura não é um produto de luxo. É uma ferramenta de cidadania, de pensamento crítico, de coesão social. Ao comprar livros para todos, o Estado está a dizer que todos merecem acesso à palavra escrita — e que todos devem ter a oportunidade de descobrir autores novos, ideias novas, mundos novos.

Portugal tem aqui uma oportunidade rara: aprender com quem faz bem, adaptar o que funciona e transformar profundamente a forma como tratamos o livro e quem o cria. Não se trata de imitar; trata-se de reconhecer que há políticas que valem a pena, que produzem resultados duradouros e que podem fazer crescer um país culturalmente, socialmente e até economicamente.

A pergunta que se impõe, portanto, é simples: se a Noruega investe na leitura com resultados tão claros, de que estamos nós à espera? Portugal não precisa de reinventar a roda — basta fazê-la girar também por cá.

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