O auditório encheu-se cedo no Hotel Holiday Inn Porto-Gaia. A sala estava disposta para um debate, não para uma apresentação convencional. “Hoje é o centésimo quadragésimo nono debate. Isto, no fundo, é um debate, não é uma apresentação de um livro.”, clarificou logo de início, Joaquim Jorge, perante um público atento.

Para o autor, os encontros do Clube dos Pensadores sempre se distinguiram pela informalidade direta: “Qualquer pessoa faz uma apresentação de um livro às seis e meia… Aqui não.”
Ao lado do autor esteve Joana Petiz, diretora editorial do SAPO, que participou na sessão conduzindo parte da conversa. “A Joana é jornalista há mais de 20 anos “ fato que Joaquim Jorge fez questão de assinalar, realçando desta maneira o seu longo percurso.

Joaquim Jorge, Jota Jota, só para os amigos, explicou como sempre a regra do clube: não há títulos académicos, apenas o nome próprio. “A metodologia do clube é a seguinte: as pessoas tratam-se pelo nome.”
A relação entre os presentes e o autor é marcada por proximidade. Joaquim Jorge descreveu pessoas, episódios e afetos com naturalidade, sem cerimónia e com humor. Algumas das frases geraram gargalhadas; outras, porém, silêncio atento.
Um livro onde a amizade é ação
Amizades Marcantes é o segundo volume de uma duologia iniciada com Amizade com Conhecidos e Menos Conhecidos. Ambos, afirma o autor, são complementares: o primeiro mais centrado na esfera pública e política; o segundo focado em amizades pessoais e relações construídas fora dos holofotes.
“Só falamos bem quando um ‘tipo’ morreu. Eu não. (…) Deve-se falar bem das pessoas em vida.”, afirmou.
A motivação para escrever não surgiu de um plano prévio, mas de episódios simples. Relata que, num encontro, começou a ouvir a história de vida de um amigo e sentiu que essa partilha merecia ficar registada: “Ele começou-me a contar a história da vida. Eu disse: eu posso apanhar aqui isto. E escrevi.”
Ao longo do livro, o autor menciona dezenas de pessoas e descreve momentos em que a amizade se tornou visível: através de elogios inesperados, de apoio em momentos difíceis, ou de gestos simples de presença.
Alberto João Jardim: a surpresa que marcou
Entre os episódios relatados está um momento vivido com Alberto João Jardim, ex-presidente do Governo Regional da Madeira, durante um debate organizado pelo clube. “Quando comecei o debate fez uma coisa que me tocou profundamente, foi o único convidado… antes de tomar a palavra elogiou-me veementemente e pediu uma salva de palmas para mim. (…) Toda a gente na sala bateu-me palmas de pé.” O autor assume que esse gesto lhe ficou gravado, “Foi uma coisa que me marcou na minha vida.”
Pedro Santana Lopes e a primeira enchente do Clube dos Pensadores
Outro dos nomes em destaque é Pedro Santana Lopes, que levou ao clube a primeira grande afluência mediática.
“Pedro Santana Lopes foi responsável pela primeira grande enchente no clube, e para mim, o mais importante, ter confiado na minha pessoa depois de ter sido demitido de primeiro-ministro.”
O autor quis recordar a atitude do saber estar de um grande estadista perante os jornalistas: “No jantar privado tentaram fazer um direto e ele recusou.”, enfatizou.
Paula Teixeira da Cruz: “uma mulher com personalidade forte”
Sobre a ex-ministra da Justiça, o autor destaca a forma como exerceu cargos públicos, mantendo independência:
“Sempre soube separar as águas de uma forma nítida e transparente. É uma excecional advogada que não precisa da política para nada.”
Luís Filipe Menezes, a estratégia e a cidade
A relação com Luís Filipe Menezes, presidente eleito da Câmara de Gaia, é abordada de forma directa e pragmática:
“Para Menezes, o Clube ter um debate com êxito e difundido na televisão era um êxito para Gaia.”
O autor relata que a escrita sobre Menezes causou ciúmes nalguns círculos:
“Como eu escrevi um livro sobre ele, outros ficaram com ciúmes e mandaram-me bocas.”
O momento do vídeo do Presidente da República
Durante a sessão de apresentação do livro Amizades Marcantes, foi exibido um vídeo enviado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dirigido a Joaquim Jorge. Quando o vídeo terminou, o autor explicou ao público o contexto do gesto:
“Era o Presidente da República. Ele não pode vir aqui. Mas mandou um vídeo.”
O autor descreve a forma directa como tudo aconteceu:
“Eu mandei-lhe um convite e ele respondeu logo.”
Joaquim Jorge recorda que já tinha escrito sobre Marcelo Rebelo de Sousa no primeiro volume e que, com o tempo, se estabeleceu uma relação pessoal:
“Eu falo do Marcelo Rebelo de Sousa no primeiro livro. (…) Temos uma amizade boa.”

Quanto ao gesto do Presidente, sintetiza:
“Não era obrigatório mandar vídeo nenhum. Mas mandou. Isso para mim vale muito.”
E conclui, dizendo o que considera ser a essência de uma amizade:
“As pessoas mostram amizade quando fazem coisas sem ser preciso.”
“Quanto de si está no livro?”
Joana Petiz lançou a pergunta, “Enquanto conta as histórias das outras pessoas, quanto de si é que está aqui neste livro?”, expondo o caráter pessoal da obra, ao que Joaquim Jorge respondeu sem hesitar: “Autenticidade. Naturalidade. Frontalidade. Sem papas na língua.”
E acrescentou ainda que, “Eu sou um especialista em arranjar inimigos. Eu não quero saber nada disso.”.
Amizades improváveis e quotidianas
O livro não retrata apenas figuras públicas. São mencionados dezenas de amigos, de diferentes contextos: médicos, colegas de infância, antigos alunos, vizinhos, companheiros de caminhadas. Um a um, Joaquim Jorge apresenta-os com episódios vividos:
“Tenho aqui os meus amigos da Fifa. (…) Jogamos à bola.”
Há quem tenha sido marcado por um simples gesto:
“Lá está. Médico do meu filho. Pegou nele ao colo.”
Há amizades de décadas:
“O Joaquim Machado andou comigo ao colo. Não é preciso dizer mais nada.”
E há amizades que surgiram de contradições ou desentendimentos:
“O Abel Guedes é o tipo porreiro, mas já me meteu em algumas alhadas.”
O critério parece ser apenas um:
“Um amigo é alguém que faz de mim uma pessoa melhor.”
O testemunho do filho: “tem muitas virtudes que valorizo”
Um dos momentos mais aplaudidos foi quando Pedro Miguel, filho do autor, subiu ao “palco”. Contou histórias de família, incluindo episódios com humor, e falou do impacto da educação recebida:
“O meu pai deu-me regras e rigor que eu na altura odiava, mas que hoje em dia ajudam-me a ser uma pessoa muito melhor.”

Assim como o pai, também o filho recorreu ao humor:
“Muitas vezes o meu trabalho é ir pondo pelos nas feridas que ele vai colocando.”
E sintetiza o impacto do pai na vida dos outros:
“Quando vai ao meu podcast, o público está constantemente a implorar para ele ir lá.”
Joaquim Jorge visto pelos amigos
Ao longo da sessão, vários amigos partilharam testemunhos. Um deles disse:
“Estas amizades transformam o relato das tuas amizades na tua própria biografia.”
Outro resumiu a essência do escritor:
“Joaquim Jorge, é um homem livre.”
E houve quem dissesse, com uma alegre ironia:
“Há uma coisa má no livro: eu não estou lá.”, o que provocou uma forte onda de gargalhadas.
“Eu não seria nada sem amigos”
A frase mais citada da noite surgiu, mais uma vez, perto do encerramento:
“Eu não seria nada sem amigos. O meu maior sucesso na vida é ser amigo.”
A sessão terminou com uma homenagem espontânea, quando vários amigos presentes subiram ao palco para uma fotografia conjunta com o autor.
“Perceberam que não é depois de morto, é em vida que se dizem as coisas.”
Qual será o próximo projeto?
Entre risos, Joaquim Jorge revelou uma ideia para um futuro livro:
“O próximo é dos ‘inimigos’.”, disse num tom sarcástico de quem só poderia estar a ironizar.
Uma obra que documenta relações
Amizades Marcantes não é um livro sobre figuras públicas. É um livro sobre relações pessoais, sobre presença e sobre memória. É também um testemunho do papel do Clube dos Pensadores enquanto espaço de encontro e debate.
O autor resume o espírito do projeto numa “frase verso” que citou no final:
“Um amigo é alguém que faz de mim uma pessoa melhor.”
OC/RPC

Editor Adjunto/Eng. Eletrotécnico/Licenciando Gestão do Património Cultural














