Hoje é o Dia Mundial da Poupança

Mais artigos

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Poupança, uma data que remonta ao ano de 1924, quando no primeiro Congresso Internacional de Economia, em Itália, se decidiu instituir um momento global de reflexão sobre algo que, embora nos pareça banal, talvez seja uma das mais puras expressões da liberdade individual.

Poupar, no seu sentido mais profundo, é uma forma de pensar o futuro com dignidade e de resistir à voragem do presente que insiste em transformar tudo em urgência (a cultura do imediato em que vivemos).

Acredito que a poupança não se mede pelo montante acumulado, mas pela consciência que a própria sustenta. Um gesto moral. A escolha deliberada de não ceder à ilusão do imediatismo e de compreender que o valor das coisas não reside no intenso brilho do momento, mas sim, na constância do que permanece.

Recordo frequentemente aos meus alunos que a disciplina financeira não nasce do medo de perder, mas da inteligência da previsão. A poupança é, nesse sentido, um exercício de lucidez. A tradução concreta de uma mente capaz de estabelecer pontes entre o presente e o futuro, entre o desejo e a responsabilidade.

A poupança, na sua mais elevada forma, é um acto de autodeterminação. A recusa em transformar o futuro em improviso. E, é também, embora raramente se tenha a consciência e se diga abertamente, uma forma de poder. Porque quem poupa ganha distância na longa e árdua prova de exercício económico, e quem ganha distância conquista clareza. A capacidade de poupar é, portanto, a capacidade de decidir sem pressa, de escolher com critério, de não se ficar refém da primeira oferta que aparece.

No entanto, há um outro lado, mais humano e talvez mais urgente, que esta data me faz recordar. O da responsabilidade social. Porque a poupança, quando vista à escala coletiva, não poderá ser vista como um simples indicador económico, é o reflexo da nossa cultura.

Hoje, a publicidade vende a satisfação instantânea. A resposta, surge na forma do crédito como extensão do salário, e a ideia de esperar passou a ser confundida com fracasso. É o mundo em que vivemos.

É um trágico paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso à informação, e ainda assim, nunca fomos tão frágeis perante o consumo. Gastamos para provar o que somos, endividamo-nos para pertencer. Sacrificamos o amanhã para parecermos bem hoje.

O Dia Mundial da Poupança, não pode ser uma nota de rodapé no calendário. Deve ser um alerta sobre ética, ou melhor, uma recordação de que quem não domina os seus impulsos, cedo ou tarde será dominado por eles.

Uma sociedade que não poupa é uma sociedade que vive permanentemente em sobressalto. Quando o crédito se transforma na medicação anestésica para a ansiedade social, perdemos certamente muito mais do que dinheiro. Perdemos autonomia, perdemos resiliência, perdemos o próprio sentido de comunidade.

Mas, nem tudo é “menos bom”.

Há algo profundamente inspirador em ensinar, especialmente aos jovens.

Quando vejo os meus alunos compreenderem que poupar não é sinónimo de abdicar, mas de escolher, percebo que há ainda esperança. Mais algumas sementes plantadas no fértil solo da maturidade e da literacia financeira. E é isso que o país precisa de cultivar. Maturidade financeira, emocional e social.

Poupar, realizo, é um acto de esperança. A afirmação de que o amanhã importa, de que a vida é mais do que um conjunto de impulsos, de que há sabedoria em adiar para poder merecer.

É também um espelho do carácter, pois quem sabe poupar sabe esperar.

E quem sabe esperar constrói com maior solidez.

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -Advertisement

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img