
Na Assembleia discutiu-se ontem a urgentíssima necessidade de proibir o uso de burcas e “outros tecidos” que cobrem a cabeça e o rosto das mulheres.
Confesso que, por ter o tempo condicionado pelas obrigações domésticas e parentais, não consegui perceber se as freiras se incluem nesta discussão — mas imagino que sim.
Porque… igualdade, certo?! Vamos lá agora pensar que isto é ostracização às comunidades de outra fé. Afinal, somos todos muito tolerantes, não é?
É bonito ver os nossos deputados tão atentos aos direitos das mulheres do país, a debater durante uma tarde inteira a percentagem de corpo que elas podem estar autorizadas a tapar ou a mostrar. Mais uma vez, um grupo de homens a legislar sobre o modo como as mulheres devem vestir-se, estar ou viver — tudo sob o capote luminoso da palavra “liberdade”.
Se o mote desta discussão for realmente a preocupação com a segurança das mulheres, louvemos então. Porque, num país com a nossa taxa de violência contra as mulheres — sexual e doméstica — talvez a discussão devesse centrar-se na legislação destes crimes: na reformulação da lei e nas medidas punitivas aos agressores, assim como nas estratégias de prevenção, proteção e reestruturação social e económica das vítimas. Mas lá está… sonhadora.
Não nos enganemos ao ponto de achar que proibindo que se tapem os corpos e os rostos estaremos a proteger estas mulheres. As que o fazem por radicalismo religioso não vão deixar de o fazer. Os seus pares não ficarão de repente tolerantes com a nossa lei — até porque já nem o são com as suas próprias mulheres. Se não se puderem tapar para circular em espaços públicos, a alternativa será permanecer em espaços privados, ainda mais condicionadas.
As que o fazem por vontade própria — seja por convicção de fé ou cultural — também ficarão condicionadas na sua expressão. Em nenhum dos casos estarão a ser protegidas.
Agora, as centenas de mulheres que passam por nós todos os dias de burca — assim de repente, de quantas é que se lembraram? Dezenas, aposto… Pois! — vão finalmente poder soltar os cabelos ao vento e agradecer a estes senhores que, todos os dias, olham por nós.
Portanto, do “se não tivesses vestido essa minissaia, não tinhas sido violada”, chegamos agora ao “não exageres no tecido, que o que é bonito é para se ver”. Mais uma vez, a velha discussão sobre a mulher livre e os seus direitos.
Se soubessem (ou quisessem saber) o quão bonito é, quando ela é, de facto, livre.

Gestora de clientes no setor segurador / Explorando a escrita/ Entusiasta do desenvolvimento pessoal e profissional














