Existe um rio. Não tão largo, que é possível a um amador, desde que previamente
instruído, atravessá-lo a nado. Mas este, não está só. Dá as mãos à corrente que o guia, e
tende à mesma foz de sempre, produzindo energia a um moinho, que ali repousa numa das
suas margens, adormecido — induzido em sono pela erosão do abandono.
A vegetação em constante mutação parece todos os anos repetir-se, em todas as suas
fases, apesar da geração e fim de mesma e que parece sempre seguir-se de um despertar, que traz a cor ao negro, o movimento que contraria a estagnação, sempre num círculo que não depende de intervenções de alguém que crê existir apenas por acreditar ser pensante, e eu acho isso magnífico, quando me encontro com as ideias.
O moinho não parece renovar-se, a função da pedra mantém-se, mas ninguém vai lá
moer, e com essa estagnação, o lugar está lá, totalmente pronto, para a corrupção se instalar,confortável.
Só o Homem tem a chave que leva a potência ao ato. Como um criador possui a tela,
deixada em repouso, à espera de uma ausência de geração que só manifesta a corrupção que daí virá. O pó do esquecimento.
São as baquetas de todos os santos — que de fundo se escutam. Marcam a
cadência, que nos faz aceitar essa miragem que é o tempo, como verdade absoluta, uma
mentira por todos orquestrada para facilidade dos intervenientes.
Então, antes de lá chegar a essa coisa que é o tempo, sabemos agora, que mais para
cá um bocado, ora o verbo não parece carecer de tempo algum na prática. E muito do que
sabemos é apenas isso, uma impressão, porém, não pode ser tudo, como vejo ser praticado, e por algumas vezes, confesso também eu ser praticante…
Existem mesmo vezes que me levo a acreditar também, que ao longo do tempo, as
coisas, as pessoas, são sempre as mesmas. Todavia as impressões que vou tirando, quando abraçado pela lucidez de não saber nada, levam-me a crer que não.
E algo parece até querer ultrapassar o campo das impressões, quando dou por mim em concordância com o pensador de Éfeso, Heráclito.
Heráclito chorava por saber estar certo. Nem as pessoas, nem qualquer rio, nem este
rio, que deu tantas vezes energia ao moinho, nem o moinho, nem eu, surpreendentemente ou não, somos os mesmos. E como dizia o poeta solto de todas as grilhetas, quero e acredito que também as existenciais, “à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do Mundo”.
Antes de lá chegar, mais para cá um bocado — Como dizia o meu Pai, quando
queria explicar onde ficava alguma coisa que, lá no fundo, ele próprio não sabia, ainda. Mas
ficamos a saber, eu e ele, que é onde o Homem se depara com a própria sombra. Descobre ser moinho, a encarar o rio, confiando o destino na mão dessa corrente, que é constante e que o transforma.
A sombra toma proporções da dimensão do Homem que o acompanha — seja
possível medir a grandeza de um Ser aos palmos, e sabemos no fundo, que não é. Esse vulto que sempre nos acompanha por onde a luz nos segue, trata-se da geração, da corrupção, do abandono. O encontro que nos atira para a delicada e decisiva luta com os nossos próprios limites, a existência e o seu significado.
“Em face da sua imagem e da sua sombra, o Homem realiza um dia um encontro
decisivo com os seus limites”, disse o Mestre Eduardo Lourenço. Pois, tendo a acreditar que
é nessa ténue linha que reside a possibilidade de geração ou a corrupção no abismo da
inércia, onde só está a ausência, e nada é criado.
O mesmo Mestre, deu conta um dia que “Nós não lidamos com o tempo. Ele é que
lida connosco”, e o meu pensamento encontrou eco noutro Professor, desta feita Agostinho
da Silva que diria: “Que cada um faça o favor de se cumprir, sendo o poeta à solta que
entender ser”.
E para se ser esse poeta à solta, é preciso ter consciência desse limite, e mesmo
assim, seguir de mãos dadas com a inquietação, de procurar um sentido, numa luta em que o tempo sempre vencerá, enquanto lida connosco, e nos faz acreditar que somos nós a
controlar.

Estudante de Filosofia







