Memórias de Cabidela – Por Pedro Albuquerque

Mais artigos

Parte da minha geração recusou comê-la. As anteriores, deliciaram-se. Hoje, duvido que muitos saibam do que se trata. A cabidela – um guisado temperado com o sangue do próprio animal, usualmente uma galinha – enojava-me. Queria nem cheirá-la. Meus avós tentaram impingir-ma vezes sem conta. Diga-se: sem sucesso. Naqueles longos e tediosos almoços de família, fui negando a oportunidade de desenvolver relações gastronómicas com bichos naquele estado. Nunca fui vegetariano, mas há coisas que me caiem mal.

Recordo-me, por exemplo, da canja – essa sopa de massa, feita (ocasionalmente) com as sobras da galinha utilizada na cabidela. Recordo-me de meu pai servindo-se, em primeiro, atacando os ovos, a moela, o pescoço e o fígado, antes de pescar as patas que chupava até ao tutando. Essas, de unhas muito afiadas, boiavam sozinhas na panela*, levando-me a crer que a galinha continuava para lá da massa, de cabeça para baixo, treinando a respiração, quiçá praticando alguma espécie de natação sincronizada, jogando às escondidas? À apanhada?

Os meus pensamentos emaranhavam-se com regularidade sobre a mesa numa estratégia de ausência. Tentava evitar, a todo o custo, a imagem e o cheiro da cabidela, da canja, dos bifes de sangue, das iscas de cebolada, das tripas em vinha d’alhos, dos rins salteados, da língua de vaca, do rabo de boi, da orelheira de porco, da mioleira de leitão, enfim… O fogão da avó também servia outros cozinhados e o seu cheiro a cavacos secos ardendo ainda o tenho presente. Tal como o cheiro dos farelos – junção de pão duro e troços de couves velhas, que cozíamos pela tardinha para alimentar o galinheiro durante a noite.

A minha infância, à semelhança da vossa, faz-se destas memórias olfativas, degustativas e visuais. No entanto, a sociedade de hoje parece escolher (e contra mim falo) a via do mais rápido, do mais prático e do mais apelativo, resumindo para canto alguma comida tradicional, esquecendo nossas raízes, apagando a nossa verdadeira cultura. Perguntando-me, pergunto-vos: quando todos os avós tiverem morrido e já nenhum de nossos pais puder cozinhar, que será de nossas receitas? Chamaremos a isto evolução? Ou retrocesso? Ficarão as cabidelas desta vida remetidas às linhas deste (e de outros) texto(s)? Ficará a lembrança destes pratos na prateleira onde, certo dia, alguém decidiu que se deveria guardar o óleo de fígado de bacalhau? Blhac…


*Haverá pata sem intenção? Haverá pata sem galinha? E galinha sem patas?

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img