“A Sangue Frio” de Truman Capote – O que nos diz sobre o jornalismo literário e o true crime?

Há 60 anos, Truman Capote com a sua obra mais aclamada, "A Sangue Frio", cria o Novo Jornalismo, como foi apelidado na época, nos Estados Unidos. Percebemos, assim, através do relato desse crime e outros semelhantes, como pode ser ténue a fronteira entre o "jornalismo tradicional" e a "não-ficção literária."

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Quando pensamos em crimes, surgem na nossa mente diversos casos que conhecemos. Muito provavelmente, aqueles que foram mais mediatizados e, até hoje, permanecem no nosso pensamento. Por outro lado, quem é jornalista e/ou aprecia o jornalismo literário, sabe que o mesmo, também conhecido por Novo Jornalismo – pertencente ao universo das narrativas de não-ficção –, é um “movimento literário dos anos 60 e 70 que testou as fronteiras do jornalismo tradicional e da escrita de não-ficção” como Liz Fakazis – docente de Estudos dos Media na Universidade do Wisconsin, nos EUA, que escreveu a entrada New Journalism na enciclopédia online Britannica – o descreveu.

Truman Capote com os atores da versão cinematográfica de “A Sangue Frio”. Direitos Reservados

Este género, que resulta de um casamento entre a investigação jornalística e as técnicas narrativas da ficção, foi popularizado pelo escritor norte-americano Truman Capote. Visto como um cronista da alta sociedade de Manhattan, publicou A Sangue Frio, em 1966 (primeiramente publicado em quatro reportagens na revista The New Yorker, no ano anterior): um relato arrepiante do assassinato da família Clutter, em Holcomb, no Kansas.

A aldeia de Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa área isolada a que os demais habitantes do Estado chamam “lá para diante”. Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um céu azul intenso e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo Oeste do que o Médio Oeste: é este o início do primeiro parágrafo da mais aclamada obra de não-ficção criativa que deixou bem vincados alguns aspectos essenciais do, à época, chamado Novo Jornalismo.

Para começar esta reflexão, importa realçar a noção de que o jornalismo pode ultrapassar as suas sensibilidades assim como técnicas oficial e academicamente definidas. Isto é, tem capacidades como competir com a ficção por meio de um relato imaginativo do tempo e do espaço: inspirado por um pequeno artigo de 300 palavras publicado pelo The New York Times, a 16 de novembro de 1959, acerca do assassinato da família Clutter, e perante a citação “Este é aparentemente um caso de um assassino psicopata” proferida pelo xerife local, Capote sentiu-se fascinado pelo crime e decidiu visitar – juntamente com a escritora Harper Lee – a cena do massacre. Durante seis anos, deu-se a conhecer a todas as pessoas envolvidas na investigação e a quase todos os habitantes da pequena aldeia assim como da área circundante.

Tal como José Vegar escreve em As Narrativas de Não-Ficção – texto onde são trabalhados os conceitos de não-ficção criativa, jornalismo narrativo, escrita de viagens, biografia e escrita de vida –, “(…)  o fim é, sem dúvida, o tão simples de contar uma história que aconteceu para que esta seja vivida pelos que não estavam no momento (…) o poder do contador (…) vem da sua angústia de procurar construir tão realista e completa a história narrada como a história real, ao ponto de as duas serem a mesma” e foi esta angústia que permitiu a Capote, aliando a informação sintética adquirida através da leitura da notícia ao conhecimento que tinha vindo a apreender sobre crime e as origens do pensamento homicida (em The Story Behind a Nonfiction Novel, entrevista publicada em janeiro de 1966, Capote explica que “(…) o fator motivador para a escolha do material – isto é, escolher escrever sobre um caso real de homicídio – foi, acima de tudo, literário”, admitindo que, desde que começara a escrever de forma profissional, havia percebido que o jornalismo – e, mais especificamente, a reportagem – podia transitar para uma “nova forma de arte séria: a novela de não-ficção”, – no trabalho anteriormente mencionado, Vegar realça que “(…) toda e qualquer história transporta em si um conhecimento” –, partir para o estudo do assassinato do Herb e Bonnie Clutter bem como dos adolescentes Kenyon e Nancy. O primeiro capítulo, The Last To Seem Them Alive, ilustra com precisão o relato inovador de Capote, que alterna entre a descrição de atividades “banais” do quotidiano da família como o ensino da preparação de tartes de cereja pela jovem Nancy a uma amiga e os hábitos dos futuros assassinos Perry Smith e Dick Hickock – é possível saber que Perry toma um pequeno-almoço composto por aspirinas e cigarros e que ambos têm o corpo tatuado. Ou seja, é criada uma sequência de imagens que criam impressões no leitor, levam a que este comece – desde o primeiro instante – a refletir mais profundamente acerca das personalidades e comportamentos das personagens.

Truman Capote. Direitos Reservados

Assim, importa evocar a construção de um fio condutor da história cena a cena. Capote desafia a estrutura habitual do lead jornalístico, mas não deixa de responder às perguntas “O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Porquê?”. A questão prende-se com a forma como o faz. Exemplificando, no fim do primeiro capítulo, compreendemos que Nancy Ewalt (colega de escola da vítima mortal Nancy Clutter) bate à porta da residência dos Clutter e não obtém resposta. Juntamente com outra jovem e o pai, descobrem os cadáveres. A funcionária dos correios Sadie Truitt observa a aproximação das ambulâncias da propriedade da família e, de seguida, com a filha Myrtle Clare, ouvem as notícias do assassinato na rádio. Enquanto os habitantes de Holcomb ficam chocados com as novidades, Perry dorme num hotel e Dick senta se a jantar com a família. Ora, Capote opta por não incluir – deliberadamente – a descrição da cena do crime neste capítulo, deixando-a a cargo dos homicidas quando confessam. Portanto, ao invés de obedecer às regras formais do jornalismo e afastar-se das técnicas ficcionais, o  escritor narra “um pedaço da realidade vivida” (Vegar, As Narrativas de Não-Ficção) recorrendo à ansiedade: os leitores precisam de saber quem são os homicidas – o chamado suspense, nas narrativas de ficção – e existe o mistério em redor do entendimento exato de como o crime ocorreu. Todavia, há que salientar duas características importantes: os detalhes mais específicos do crime não são especificados por Capote nem por Perry ou Smith – tal como no romance policial, o leitor é encorajado a adivinhar aquilo que aconteceu – e os motivos do assassinato são ocultados até ao momento em que os homicidas os revelam. Em The Story Behind a Nonfiction Novel, entrevista publicada em janeiro de 1966, Capote explica que “(…) o fator motivador para a escolha do material – isto é, escolher escrever sobre um caso real de homicídio – foi, acima de tudo, literário”, admitindo que, desde que começara a escrever de forma profissional, havia percebido que o jornalismo – e, mais especificamente, a reportagem – podia transitar para uma “nova forma de arte séria: a novela de não-ficção”. Assim, não podemos esquecer o modo como o escritor recorre ao ponto de vista das personagens. Explorando o segundo capítulo d’A Sangue Frio, Persons Unknown, ficamos a saber que o inspector Alvin Dewey, do Kansas Bureau Of Investigation, fica encarregado da investigação criminal do homicídio. Para além de uma pegada humana e de um rádio perdido (pertencente a Kenyon), Dewey não tem mais provas, porém, percebemos que suspeita do envolvimento de mais do que um assassino – ainda que esteja incerto quanto ao motivo do crime porque havia pouco dinheiro na residência das vítimas mortais. Neste périplo pela mente do inspector, compreendemos igualmente que este imagina que os assassinos fossem próximos dos Clutter porque, aparentemente, conheciam a disposição das áreas da casa. Por outro lado, os acontecimentos que concernem a vida dos assassinos não são colocados de lado: na vila de Olathe (situada no Kansas), Perry e Dick jantam. Dick tem um apetite voraz, mas Perry come pouco por temer que sejam apanhados. Outra justificação para a importância da apresentação do ponto de vista das personagens: sem esta riqueza narrativa, como é que saberíamos que, quando Susan Kidwell vai ao velório dos Clutter, olha para o cadáver de Nancy e pensa em Babe, a égua predileta da amiga? Ou como perceberíamos que Dewey não consegue dormir porque o telefone toca constantemente com “dicas” para a investigação e a esposa, Marie, questiona-se se voltarão a ter uma vida considerada normal? Deste modo, Capote traz novamente, traz de volta a ação e conduz à imersão dos leitores na narrativa: tal como Jacinto Godinho aponta em A Minha Vida Não Dava Um Filme: Ensaio de Desconstrução da Reportagem Entre a Literatura e o Jornalismo, de 2017, “(…) A base da palavra reportagem é o verbo latim portare que significa ‘portar’ ou ‘transportar’ (…) Indica uma repetição do movimento. Esta repetição, por mais estranho que pareça é a condição fundamental da narrativa, ou melhor, do dispositivo narrativo (…) A reportagem, como narrativa de acontecimentos (…) permite integrar o indivíduo num dispositivo onde viaja junto com os acontecimentos. Dentro das narrativas os acontecimentos viajam, na medida em que são reportados, trazidos de novo à presença, mas os sujeitos, na qualidade de leitores, também viajam até ao tempo e espaço dos acontecimentos”.

Família McStay. Direitos Reservados

E Truman Capote vai ao encontro precisamente da premissa clarificada: leva-nos a viajar até Holcomb e a mergulhar nos círculos de amizade, nas ondas de ódio, no ceticismo, na dúvida e nas profundezas da complexidade humana. Consequentemente, urge pensar sobre a preocupação com a escrita. No intitulado “jornalismo tradicional”, a factualidade é, muitas das vezes, privilegiada em detrimento da qualidade da redação. Na magnum opus de Capote, as palavras são utilizadas de modo tão poderoso que até a forma como o leitor é levado a simpatizar com Dick e Perry suscita curiosidade. Certo dia, enquanto aguarda pelo fim da lavagem da roupa e pelo regresso de Dick, Perry preocupa-se com a possibilidade de o amigo ter sido apanhado pelas forças policiais. Contudo, Capote não se limita a descrever este medo com simplicidade: relata que Perry olhou para a mala de uma mulher e, por breves instantes, pensou em roubá-la. Mas não se trata de uma mera referência à necessidade que o homem tinha de obter dinheiro: desde o princípio da narrativa, Capote explicita que Perry não sabia aquilo que estava a fazer quando cometeu o crime – é constantemente descrito como fisicamente pequeno, um little fellow que deseja apenas divertir se. É estabelecido um paralelismo entre a infância e a vida adulta de Perry por meio do excerto As coisas não haviam mudado muito. Perry era mais velho vinte anos e pesava mais vinte quilos, no entanto a sua situação material não melhorara nada. Continuava a ser (coisa incrível, tratando-se de uma pessoa com a sua inteligência e aptidões) um garoto que vivia por assim dizer à custa dos patacos roubados.

Por último, é imperativo lembrar o binómio objetividade-subjetividade. Godinho (2017) aclara que “Testemunhar um acontecimento à distância, seguindo de forma ordenada os factos e o fio dos acontecimentos com um posicionamento desinteressado, são fases de um dispositivo que pode operar no sentido do mais justo dos juízos – o juízo isento e imparcial – e colocá-lo ao alcance de qualquer pessoa. A simples narrativa da reportagem é, por isso mesmo, um complexo (e também democrático) dispositivo de processamento do real (…) A existência dos acontecimentos nem sempre é fácil de provar nas condições da palavra e da narrativa”.

De acordo com Carla Baptista, em A objetividade como “dever referencial” dos jornalistas, de 2011, a objetividade “(…) pressupõe, por outras palavras, a separação entre o relato dos factos e a expressão das posições subjectivas do jornalista” e, sobre a subjetividade, cita Hannah Arendth, “Os homens aparecem no «mundo comum» em diferentes localizações, isto é, cada qual vê e ouve de uma posição diferente. (…) Num mundo de aparências, a realidade é garantida, entre outros factores, pelo facto de todos os seres dotados de sentido concordarem na identidade do objecto, embora o percepcionem segundo perspectivas totalmente diferentes” (Arendt, 1999, 60-61).

Por um lado, Capote obteve o reconhecimento da comunidade literária com a publicação d’A Sangue Frio, no entanto, o seu trabalho foi questionado desde os primeiros instantes. Citando dois exemplos: Phillip K. Tompkins, da revista Esquire, viajou até Holcomb e conversou com algumas das pessoas entrevistadas pelo autor: numa entrevista telefónica, Josephine Meier (esposa do xerife do Condado de Finney; cuidava dos prisioneiros, cozinhando para eles e costurando as suas roupas) negou ter-se aproximado de Perry como foi descrito por Capote, explicando que falava pouco com o criminoso; o inspector Alvin Dewey explicou que a cena em que visita as campas dos membros da família Clutter foi invenção do escritor. Estas situações podem levar-nos a questionar se, tal como jurou, “cada palavra” do livro é verdadeira. Mas, independentemente da veracidade de cada passagem, há que louvar o ângulo original escolhido por Capote: “O ângulo do texto de um jornalista é o tema ou o ponto principal que este tenta retratar. Na maioria dos casos, o ângulo é especificado no lead, tornando-o mais facilmente percetível para os leitores, que conseguem distinguir o assunto que será tratado” e, neste caso, o norte-americano cumpriu um dos princípios da criatividade jornalística: “Pesquisar o ângulo é imperativo para obter uma peça lógica e assertiva. Os jornalistas são responsáveis por pensar fora da caixa para encontrar novos e inovadores ângulos que captem a atenção da audiência” (como é possível ler na entrada Angle da Open School Of Journalism, na Journalism Encyclopedia).

Apesar do brilhantismo d’A Sangue Frio e deste constituir uma herança ímpar para o jornalismo, Capote apresentou atitudes ética e deontologicamente reprováveis. Recorrendo ao poder da memória e defendendo que decorava 90% das conversas que tinha com as fontes noticiosas, não gravava o áudio das entrevistas: tirava apontamentos rápidos no final das mesmas (os registos dos seis anos que passou em Holcomb, a investigar o assassinato, contam com cerca de 8000 páginas). Para além disso, o cariz do relacionamento que Capote desenvolveu com Smith tem sido fortemente criticado: terão sido confidentes, amigos, amantes? Alguns leitores assumem que, para escrever determinados excertos da história, Capote teve de travar uma amizade intensa com o criminoso: seria possível saber, exemplificando, que o pai de Perry – o irlandês Tex Smith – era indiferente aos talentos artísticos e intelectuais do filho caso não tivesse explorado o passado do entrevistado a um nível superior? Prova disso é o excerto Mas, tu, Bobo, tu frequentaste a escola! Tu, o Jimmy e a Fern. Vocês todos, seus patifes, tiveram instrução. Todos, menos eu. E eu odeio-vos, do primeiro ao último, incluindo o pai! que gera ondas de indignação.

Descrevendo-os como “dois pássaros raros” devido à negligência infantil, aos sonhos reprimidos e à rejeição societal, Tânia Figueiras-Campos escreve que “Perry Smith queria amar e isso era algo que Capote partilhava com o criminoso” sendo que se dava uma identificação mútua: Perry cresceu com três irmãos, a dependência alcoólica da progenitora era grave e viveu num orfanato, enquanto o escritor viveu o divórcio dos pais com apenas quatro anos e migrou entre o Louisiana e o Alabama até que, em 1932, foi viver para Nova Iorque com a mãe e o segundo marido desta. Ou seja, respeitando as técnicas da narrativa ficcional, Capote evitou o chamado “problema da objetividade” (Godinho, 2017), não “quebrando a linearidade simples de uma história (…) eliminando a adjetivação (…) despojando o texto de expressões com uma forte carga emocional (…)” e criou uma história baseada em factos reais que apaixonou os leitores por meio do “poder invulgar de verosimilhança” (Godinho, 2017). A ilusão de segurança doméstica Concluindo, “(…) o real, para ser pensado, precisa de ser narrado” (Godinho, 2017) e Capote fê-lo com tal genialidade que marcou indelevelmente a história da literatura norte-americana e o jornalismo literário.

Truman Capote o “pai” da junção entre crime real, literatura e jornalismo. Direitos Reservados

No entanto, apesar de não terem tido tanta atenção mediática, existem outros crimes igualmente horrendos que aconteceram nos EUA e que poderiam ter resultado em obras como A Sangue Frio. Por exemplo, a 21 de dezembro de 1959, aproximadamente um mês após o homicídio da família Clutter, uma família de quatro pessoas foi assassinada em Osprey, Sarasota, no estado norte-americano da Flórida. No final de uma tarde de sábado, os homicídios de um pai, uma mãe e duas crianças elevaram o total de homicídios naquela zona para sete num ano. A 19 de janeiro de 1960, soube-se que os assassinos que confessaram ter matado uma família abastada de quatro pessoas no Kansas, em novembro, também poderiam ter assassinado a família Walker em Osprey. Esta constituiu a pista promissora que estava então a ser investigada pelo xerife Ross Boyer, com a ajuda do FBI e do Departamento de Investigação do Kansas (KBI). 6 A 19 de dezembro de 1961, “algures nas ruas brilhantes e iluminadas por enfeites natalícios anda um assassino que, há dois anos, assassinou a família Walker na sua quinta, a cerca de dois quilómetros e meio a nordeste de Osprey”, como narrava o Sarasota Herald-Tribune, sendo que a 16 de fevereiro de 1962 uma espingarda calibre .22 enferrujada e queimada, viria a ser encontrada enterrada na terra por dois jovens de Osprey. Desconfiava-se que podia ter sido a arma do crime utilizada no brutal assassinato em massa da família Clifford Walker, em dezembro de 1959. Volvidos três anos daquele fatídico dia, a 3 de dezembro de 1962, uma confissão do homicídio da família Clifford Walker foi desacreditada pelo xerife do condado de Sarasota, Ross E. Boyer, tendo em conta que havia sido feita pelo jovem ajudante do rancho, Emmett Monroe Spencer, considerado pelos media locais como o ‘assassino dos sonhos’ que aguardava então a execução na prisão estadual de Raiford. “Se estiver errado, serei o primeiro a admiti-lo, mas neste momento acho que o Spencer é um mentiroso”, declarou Boyer. A 15 de dezembro de 1972, o capitão John Townsend afirmou: “Não passa um mês sem que surja algo e o processo seja revisto. Alguém que vivia aqui na altura e se mudou volta e falamos com essa pessoa para ver se sabe de alguma coisa. As autoridades policiais de todo o país estão a ajudar-nos a procurar pessoas que ainda não encontrámos. Ainda no mês passado, testei um rifle que alguém nos enviou”. 30 anos depois, a 1 de janeiro de 1992, percebeu-se que a polícia nunca apanhara o assassino nem determinou um motivo, e o caso Walker continuava em aberto no Gabinete do Xerife do Condado de Sarasota. “Em 1959, os homicídios abalaram uma comunidade onde poucos trancavam as portas. Nas décadas que se seguiram, o caso tornou-se uma obsessão para os detetives do xerife de Sarasota, que investigaram o caso até se reformarem, e para os amigos e familiares dos Walker, que rezavam para que o caso pudesse finalmente ser encerrado”, frisava o Herald-Tribune. Entre estes dois casos, existem semelhanças como o facto de ter ocorrido um ataque a uma família inteira dentro de casa, existe a sensação de aleatoriedade e também há a violência brutal sem explicação imediata.

Contudo, o caso da família Walker está por resolver há décadas, ao contrário do da família Clutter, onde os autores foram identificados rapidamente. Outro caso que chocou os EUA foi o do assassino Richard Speck que, durante cinco horas, torturou e assassinou sistematicamente oito mulheres, violando pelo menos uma delas. De acordo com um artigo de 2016 da NBC News, “Speck estava tão consumido pela sua sede de sangue que não se apercebeu de que uma nona estudante de enfermagem, Corazon Amurao, que tinha mantido brevemente como refém, se tinha escondido debaixo de um beliche”, sendo que “quando tudo acabou e Speck se foi, a sobrevivente de 23 anos trepou para o parapeito de uma 7 janela e gritou por socorro. Mais tarde, ela forneceu à polícia uma descrição do intruso de rosto impassível que tinha massacrado as suas colegas de casa”. Segundo o órgão de informação norte-americano, durante dois dias Chicago foi tomada pelo medo, no meio de uma caça ao homem “em grande escala para o encontrar antes que ele pudesse matar novamente”. Felizmente, tudo terminou quando Speck foi levado de um hotel “de má reputação para o Hospital do Condado de Cook, após uma tentativa falhada de suicídio, e o médico de serviço reparou na sua tatuagem”. À semelhança dos outros dois crimes anteriormente referidos, o crime horrorizou Chicago e o resto do país porque era tão incompreensível — um massacre sem motivo aparente, perpetrado por um estranho impiedoso contra um grupo de jovens mulheres que ele não conhecia – que acabou por introduzir o público norte-americano a um termo que, desde então, se tornou demasiado familiar: homicídio em massa aleatório. “Foi realmente o primeiro homicídio em massa aleatório do século XX”, disse William Martin, o procurador-adjunto do condado de Cook que processou Speck, à NBC News. “Foi realmente o fim de uma era de inocência. Mudou tudo. Todos ficámos muito mais conscientes da nossa segurança. Oito enfermeiras podiam ser massacradas nas suas camas, sem motivo, por um estranho”, referiu. Em The Crime of the Century: Richard Speck and the Murders That Shocked a Nation, Dennis L. Breo e William J. Martin fizeram um dos relatos mais completos sobre o massacre cometido por Richard Speck. O livro não se limita a contar o crime: faz algo muito ‘Capoteano’ porque reconstrói minuto a minuto o que aconteceu naquela noite, dá identidade e voz às vítimas (não são apenas números), explora profundamente a psicologia de Speck e analisa o impacto mediático e social do caso. Ou seja, há um cuidado quase literário na forma como os autores constroem tensão, algo que aproxima claramente esta obra d’A Sangue Frio.

Cliff Walker e a família. Direitos Reservados

Porém, existem diferenças importantes: em Capote, há uma América rural quase perfeita que é quebrada, enquanto neste caso o cenário é urbano e coletivo (um dormitório). No caso Speck, uma das estudantes sobreviveu escondida: algo que altera completamente a narrativa (há testemunho direto, não apenas reconstrução), a cobertura mediática foi ainda mais intensa e o caso Speck constituiu um espetáculo mediático massivo (quase antecipando o true crime contemporâneo). O desenvolvimento galopante do true crime moderno Muitos anos depois, em 2010, a família McStay desapareceu misteriosamente na Califórnia e só se confirmou que tinha sido assassinada volvido bastante tempo. “McStay, de 40 anos, a sua esposa, Summer McStay, de 43 anos, e os seus dois filhos, Gianni, de 4 anos, e Joseph Jr., de 8 3 anos, desapareceram a 4 de fevereiro de 2010 da sua casa na localidade de Fallbrook, no condado de San Diego, deixando taças de pipocas por comer no sofá, comida a apodrecer na bancada da cozinha e os seus cães no quintal da casa para onde tinham acabado de se mudar”, é possível ler num artigo de janeiro de 2019 do The Atlanta Journal-Constitution. Aproximadamente seis anos antes, em novembro de 2013, investigadores identificaram com os corpos de duas crianças que haviam sido encontrados enterrados no deserto perto de Victorville como sendo os dos dois meninos McStay. Esta conclusão surgiu cerca de uma semana depois de as autoridades terem anunciado que os outros restos mortais encontrados nas sepulturas rasas eram os dos pais das crianças. Funcionários do xerife do condado de San Bernardino afirmaram que os testes de ADN confirmaram que os corpos eram, de facto, os de Joseph e Gianni McStay. Um motociclista que passava por uma zona remota junto à Autoestrada 15, nos arredores de Victorville, descobriu ossos e contactou as autoridades. Os investigadores do xerife escavaram a área, encontrando os restos mortais de dois adultos e duas crianças. Os adultos foram identificados, através de registos dentários como Joseph e Summer McStay, membros de uma família da comunidade de Fallbrook, na região de San Diego, cujo desaparecimento tinha suscitado grande atenção. A família havia desaparecido, então, há quase quatro anos, no início de 2010, sendo que quando os seus familiares e amigos não tiveram notícias deles durante vários dias, o irmão de Joseph, Michael McStay, contactou as autoridades. “Os investigadores que entraram na casa não encontraram sinais de luta. Os vizinhos disseram que não os viam há dias e começaram a alimentar os cães da família. Os investigadores afirmaram na altura que a vida da família parecia normal e que, de repente, eles simplesmente desapareceram”, divulgou o Los Angeles Times à época. “Na altura em que a descoberta foi anunciada em San Bernardino na semana passada, as autoridades afirmaram acreditar que os dois corpos mais pequenos eram os dos dois rapazes, mas que eram necessários mais testes para chegar a uma conclusão definitiva”, redigiu, sendo que o irmão de Joseph deixou claro que aquele não era “propriamente” o desfecho que esperavam, estando visivelmente emocionado durante uma conferência de imprensa em San Bernardino. “Mas dá-nos coragem saber que estão juntos e que estão num lugar melhor”, salientou.

A 5 de novembro de 2014, detetives do Departamento do Xerife do Condado de San Bernardino prenderam Charles “Chase” Merritt em conexão com as mortes da família McStay, após descobrirem que o seu ADN havia sido encontrado no carro da família. A sua prisão foi 9 anunciada em 7 de novembro de 2014, sendo que Merritt foi acusado de quatro homicídios e o promotor distrital solicitou a pena de morte. Em julho de 2015, o advogado de defesa de Merritt entrou com um pedido para que o caso fosse arquivado devido à redação utilizada pela promotoria quando as acusações foram formalizadas. As autópsias dos adultos e das crianças McStay concluíram que foram espancados até à morte com um objeto contundente e os investigadores acreditavam que a arma do crime era uma marreta de 1,4 kg, encontrada na cova contendo os restos mortais de Summer. Acredita-se que Merritt, devido ao seu vício em jogo, matou a família McStay para conseguir dinheiro, pois emitiu cheques totalizando mais de 21 mil dólares da conta comercial de Joseph nos dias seguintes ao homicídio da família e, de seguida, jogou em casinos próximos, perdendo milhares de dólares. O criminoso já foi condenado à morte variadas vezes e, atualmente, está preso no Centro Correcional Richard J. Donovan em San Diego e não tem direito à liberdade condicional.

Vítimas de Richard Speck. Direitos Reservados

Quem se dedicou a narrar este caso foi Caitlin Rother, autora best-seller do New York Times, que escreveu Down to the Bone para dar a devida atenção ao homicídio que teve uma enorme repercussão nos EUA e, também, um pouco por todo o mundo. Este assassinato já havia tido destaque na capa da revista People e em vários documentários televisivos, mas Rother quis mergulhar de forma mais profunda nesta história. “Este livro analisa os bastidores das falhas nas duas investigações do xerife e a firme convicção da acusação de que tinham apanhado o homem certo, apesar das contradições na sua cronologia e das perguntas sem resposta sobre quando e onde esta família foi morta”, explicou o The Coronado Times em 2025, deixando claro que a autora analisou 1.200 provas, centenas de fotos e milhares de páginas de registos com o objetivo primordial de “traçar um retrato abrangente e convincente da vida desta família na altura em que desapareceram”. “Para além destes registos públicos, o livro de Rother baseia se nas suas próprias entrevistas e em materiais de investigação cruciais — incluindo entrevistas a testemunhas e relatórios de investigação — que demoraram uma dúzia de anos a obter”, evidenciaram, destacando a “pesquisa aprofundada” da jornalista de investigação que escreveu e co-escreveu 16 livros, que vão desde crimes reais a thrillers e memórias.

Já mais recentemente, em 2018, Chris Watts assassinou a esposa e as filhas no Colorado. Neste caso, o agressor é interno (o pai), enquanto no caso Clutter há uma invasão externa: o que muda completamente o “medo coletivo” gerado. Em agosto daquele ano, os órgãos de informação norte-americanos narravam que um homem do Colorado havia sido detido após confessar ter assassinado a sua esposa grávida e as duas filhas, segundo as autoridades, depois de ter anteriormente declarado à imprensa o quão perturbador era estar sozinho na sua casa. “Chris 10 Watts, de 33 anos, foi detido na quarta-feira, de acordo com a polícia da cidade de Frederick, a cerca de 45 km a norte de Denver. A sua esposa, Shanann Watts, de 34 anos, e as suas duas filhas foram dadas como desaparecidas na segunda-feira por um amigo da família”, escrevia o WABC com o apoio da Associated Press. “As autoridades afirmaram na quinta-feira que tinham encontrado os corpos das vítimas na propriedade de uma das maiores empresas de perfuração de petróleo e gás do Colorado, onde o marido costumava trabalhar”, sendo que descobriram tanto o corpo da esposa como os das suas duas filhas pequenas: Bella, de quatro anos, e Celeste, de três. Watts foi detido na prisão do condado de Weld sob três acusações de homicídio qualificado e três acusações de adulteração de provas físicas. Chris Watts falara anteriormente com canais de televisão de Denver sobre “a saudade” que sentia da família e as suas esperanças de que regressassem em segurança. Disse igualmente que havia tido que uma “conversa emotiva” com a esposa antes de sair para o trabalho e que ficou preocupado depois de ela não ter respondido às suas chamadas ou mensagens, nem às dos amigos dela. Contou também à KMGH-TV como foi “traumático” passar a noite na casa da família, “invulgarmente silenciosa”, e sentir falta de dizer às filhas para jantarem e de ligar as televisões dos quartos. A 19 de novembro, foi condenado a cinco penas de prisão perpétua — três consecutivas e duas simultâneas — sem possibilidade de liberdade condicional. Importa referir que lhe foi aplicada uma pena adicional de 48 anos pela interrupção ilegal da gravidez de Shanann e 36 anos por três acusações de profanação de cadáver. Posteriormente, a 3 de dezembro de 2018, Watts foi transferido para um local fora do estado devido a “questões de segurança” e, a 5 de dezembro, chegou à Dodge Correctional Institution, uma prisão de segurança máxima em Waupun, Wisconsin, para continuar a cumprir as suas penas perpétuas.

Naquilo que diz respeito a este crime, foram escritas várias obras. Por exemplo, em setembro de 2019, foi publicado Letters from Christopher: The Tragic Confessions of the Watts Family, por Cheryln Cadle. Na sinopse da obra, a autora explica que o assassino “recebe imensa correspondência” da família, dos amigos e de “fãs”, sendo que “após ter sentido um chamamento de Deus, escreveria a Chris para lhe perguntar se poderia escrever um livro sobre a sua história. Surpreendentemente, ele respondeu”.

Chris Watts e a família. Direitos Reservados

Após algumas trocas de cartas, Chris enviou a documentação a Cheryln para que ela fosse incluída na lista de visitantes. “Ela visitou o então e conversaram sobre a possibilidade de ela escrever um livro. Após a visita, ele disse a Cheryln que queria contar-lhe as suas confissões por escrito, porque sentia que as conversas estavam a ser gravadas. Ele revelou-lhe coisas que mais ninguém sabe, nem mesmo o FBI. 11 Alguns destes detalhes serão completamente chocantes para si”, revelou a escritora, deixando claro que o livro acaba por ser uma combinação de true crime com “informações importantes para ajudar a juntar as peças do quebra-cabeças para mentes curiosas”. Dois anos depois, viria a ser publicado The Perfect Father: The True Story of Chris Watts, His All-American Family, and a Shocking Murder, por John Glatt. “A máscara que Chris apresentava ao mundo nas suas entrevistas na TV e nas contas da família no Facebook estava a cair — e o que se escondia por baixo era uma imagem horrível de instabilidade, infidelidade e fúria fervente”, lê-se na sinopse de um relato definido como “importante” em que o jornalista “revela a verdade por trás da tragédia e constrói um retrato arrepiante de um dos casos de extermínio familiar mais chocantes do século XXI”. No fundo, aquilo que Glatt faz é desmontar a “fachada”: a vida exibida nas redes sociais, o casamento em deterioração, o caso extraconjugal e o crescendo de ressentimento. O livro mostra como uma vida suburbana banal pode esconder uma violência extrema — essa ideia é central –, mas escreve de forma mais jornalística e factual do que Capote porque o foco é detalhado na investigação policial, existe a reconstrução cronológica dos acontecimentos, é menos literário e mais documental e deixa muitas interpretações em aberto. Sessenta anos após a publicação d’A Sangue Frio, o seu legado ultrapassa largamente o caso Clutter. Ao transformar um crime real numa narrativa literária, Truman Capote redefiniu a forma como consumimos violência: não apenas como acontecimento, mas como história, como estrutura, como experiência emocional.

Os casos que se seguiram — dos assassinatos de Richard Speck à implosão familiar protagonizada por Chris Watts — mostram que o verdadeiro impacto de Capote reside nessa mudança de lente. Hoje, não procuramos apenas respostas; procuramos narrativas. Queremos compreender, reconstruir, aproximar-nos: mesmo quando sabemos que não existe uma explicação satisfatória. Nesse sentido, A Sangue Frio não é apenas o início do true crime moderno. É o momento em que a violência deixa de ser apenas notícia e passa a ser memória cultural: algo que revisitamos, recontamos e, inevitavelmente, reinterpretamos.

E deixa-nos com uma certeza: a de que Capote não nos ofereceu todas as respostas, mas sim a consciência de que, por vezes, não há sentido a encontrar. No fundo, apenas histórias que tentamos contar para suportar o silêncio que fica.

 

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