Uma odisseia ferroviária – Por Miguel Correia

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Todos aqueles que seguiram à risca os ensinamentos da catequese e acreditam cegamente que o criador está em todo o lado e consegue ver tudo, seguramente deveriam partilhar a minha rotina diária e, se no final do dia ainda continuarem com a ideia que o mundo é perfeito, prometo acender uma velinha a um santo qualquer.

No meu caso concreto, trinta minutos de comboio são esclarecedores sobre a ausência de Cristo por estes lados! O purgatório começa assim que se abrem as portas e as ovelhas tresmalhadas (o povo) buscam um assento disponível para descansar o ilustre traseiro, como se não houvesse amanhã.

Os mais velhos, que perderam a velocidade de ponta, ficam indignados olhando em redor, na expectativa da cedência de lugar por parte de alguma alma mais ingénua. Procurar o telemóvel e respectivos auscultadores é o passo seguinte. Aspirar isolamento numa carruagem apinhada é, podemos arriscar dizer, o pináculo do relacionamento social…

Tenho sempre grandes expectativas sobre a pessoa que se sentará a meu lado. Afinal, por entre tendências de moda do século IX ou do melhor que a “Primark” tem para oferecer, sei que a realidade (e glamour) é muito diferente das revistas cor-de-rosa.

Caramba, atravessar Ermesinde não é o mesmo que Hollywood, sem querer desrespeitar a meca do cinema. É preciso dizê-lo com frontalidade: os transportes públicos são utilizados por quem não tem alternativa! Como viajo sozinho, estou mais susceptível a ser acompanhado pela malta que segue junta e, como tenho os ouvidos desprotegidos, sou obrigado a conhecer os problemas familiares, maleitas recentes, avarias do carro, casamentos, funerais, e até programas televisivos de véspera – sem esquecer as telenovelas!

Há dias que vem à baila o futebol e as artimanhas sobre fuga aos impostos ou baixas fraudulentas – há sabedoria erudita no comboio. Trivialidades saloias que afectam a vida dos cidadãos nacionais, infelizmente desconhecidas pelos gurus engravatados da política. A viagem termina conforme começou: nova corrida assim que as portas abrem e, entre encontrões e apertos, desvanecem numa romaria desorganizada pelo corredor da estação.

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