O projeto POETA POP, de Tristão de Andrade, apresenta-se como uma celebração abrangente da poesia e das artes performativas. A trilogia, composta por um álbum, um livro e um espetáculo ao vivo, pretende homenagear a cultura portuguesa e tocar profundamente quem dela usufruir. Em entrevista ao jornal “O Cidadão”, Tristão de Andrade partilha as origens, inspirações e desafios do projeto, que já conquistou plateias no Porto e em Lisboa, e aponta agora para uma dimensão internacional.

Homenagem aos poetas
O Cidadão (OC) – A trilogia POETA POP abrange um álbum, um livro e um espetáculo ao vivo. Como nasceu a ideia de unir estas três expressões artísticas num único projeto?
Tristão de Andrade POETA POP (TA) – Tem origem numa vontade de oferecer ao público uma obra diferente e abrangente. Trago para o palco as histórias de uma vida, as lembranças de uma geração e os acontecimentos de Portugal nas últimas décadas. É, simultaneamente, uma homenagem aos nossos poetas, mas também às nossas gentes e aos nossos emigrantes. Penso que, no final, ninguém ficará indiferente à mensagem deste espetáculo.
OC- Na sua nota biográfica, é mencionado que viveu em várias localidades de Portugal. Essas vivências moldaram a sua perspetiva poética e musical?
TA – Na medida em que as experiências vividas num Portugal dos anos 80 e 90 – onde respirei o ar de cada localidade enquanto bebia aqueles hábitos tão diferentes (hoje já globalizados) – permitiram-me construir a visão da vida e das gentes. Enriqueceram a minha poesia, o meu vocabulário, o meu saber que ainda hoje habita o meu pensamento.
OC – A sua trajetória pessoal é uma parte essencial do espetáculo. Que momentos da sua vida considera mais marcantes para a construção do POETA POP?
TA- Sem dúvida que a minha infância marca particularmente o POETA POP. A identificação com os lugares-comuns, as pontes que são criadas com o público onde ninguém se sente excluído. A explicação do porquê da poesia a residir no espírito de um jovem de 14 anos. São muitos os motivos e pensamentos que trago para o texto poético dando-lhe vida através das histórias que explicam os nossos dias.

Poesia acompanhada
OC – POETA POP promete uma experiência sensorial e íntima. O que pode esperar o público dos seus espetáculos em termos de atmosfera e conteúdo?
TA – Temos um mundo inteiro para oferecer ao nosso público. Histórias de vida, de amor e convites à reflexão poética. Somos sete artistas em palco numa dinâmica incrível de intimismo e emoção. Depois chegam as gargalhadas, as lágrimas, as surpresas, mas, sobretudo, a constatação de que o palco quase sempre é o espelho da vida.
OC – Os eventos incluem elementos como guitarra clássica, guitarra portuguesa, segundas vozes e dança tradicional. Como escolheu esses elementos, tendo em vista complementar a sua narrativa poética?
TA- A escolha foi bastante intuitiva. Na sequência do texto poético, sempre achei potenciador unir as palavras à música, à dança, aos movimentos, à expressão corporal. Diria que, no POETA POP, a poesia não se apresenta a solo, leva companhia, e ganha dimensão. Uma guitarra a tocar também é poesia. A dança que apresentamos, por exemplo, foi beber movimentos ao folclore tradicional. Nada em palco é deixado ao acaso.
OC – A descrição do espetáculo menciona uma homenagem à cultura e ao espírito aventureiro do povo português. Como procura transmitir esses aspetos durante as apresentações?
TA – Na guitarra portuguesa e em toda a sua força, nos movimentos de dança, nos adereços que vestem os bailarinos, na disposição dos artistas em palco. Em tudo procuro ter uma mensagem de homenagem à nossa cultura. Inclusive nos figurinos. Tudo explicado em palco. No texto falo de Camões, Pessoa e Bocage. Lembro da importância dos nossos poetas, dos nossos artistas, das nossas gentes.
Saudade
OC – O livro que acompanha o projeto é descrito como uma extensão da experiência poética. Que tipo de histórias ou poemas os leitores podem encontrar nele?
TA – No livro POETA POP podemos encontrar precisamente o texto que é dito em palco com outros segredos e pequenas histórias que deixei na sombra. Cumplicidades que tento criar com o leitor, desafios, revelações. Estão também todas as músicas interpretadas no espetáculo, acompanhadas com as notas musicais. Sempre quis fazer este tipo de partilha.
OC – Sobre o álbum musical: como foi o processo criativo de compor músicas que dialoguem diretamente com o livro e o espetáculo?
TA – O POETA POP é bastante abrangente no tempo e no conteúdo. As músicas têm vindo a nascer ao longo dos últimos anos como peças de um puzzle que agora se conclui. Na minha essência poética consigo encontrar um tema comum: o amor. Depois existem as divagações que trazem esse olhar para os temas do dia-a-dia. Os meus temas nascem assim nesse berço da espontaneidade.
OC – Há alguma faixa ou poema específico que considera central para a mensagem de POETA POP? E o que pode contar mais sobre eles?
TA – Vários, mas sem dúvida que o tema “Bola de Cristal” – que fala da adolescência, e fecha um dos capítulos mais emocionantes do POETA POP – é uma das referências desta obra. Depois há sempre o doce “Ainda faço golo”, uma das músicas mais acarinhadas pelo público. Nunca posso esquecer o “Saudade” que fecha o espetáculo. Faz todo o sentido encerrar assim. Somos gente de saudade, certo?
“Repetir o que está certo”
OC – É conhecido como um “provocador de consciências” e utiliza a poesia como instrumento de reflexão social. Que temas sociais aborda em POETA POP?
TA- Muitos. E até gosto de pensar que todos são abordados. Nada fica de fora. Nenhum é esquecido. Falo das relações sociais, da igualdade entre as pessoas, da riqueza, da pobreza, dos vícios, da morte, da maneira como encaramos as dificuldades, da família, dos emigrantes, de como nos adaptamos ao mundo. A maior das minhas missões enquanto poeta é incluir sem esquecer ninguém.
OC – Num mundo cada vez mais digital e acelerado, como vê o papel da poesia na vida quotidiana?
TA- Fundamental. A poesia é mais que um estilo literário. É uma forma de vida. Tem a mensagem certa para um mundo melhor. É preciso repetir o que está certo. E o que é certo? É que todos e cada um traga nos lábios um sorriso de conforto, e no olhar uma luz de paz e esperança. A poesia faz isso. Podem passar gerações, civilizações e religiões que a poesia perdurará, e será sempre mais importante.
OC – Na sua opinião, quais são os desafios para desmitificar a poesia e torná-la mais acessível ao público em geral?
TA – Simplesmente explicar e demonstrar ao público que a poesia não é aquilo que faz rimar as palavras, mas sim corações. Que não é coisa só de Camões, Pessoa ou gente iluminada, mas de todos nós. E, que em cada um habita um poeta. A mais bela forma de vida.

“No meio das gentes”
OC – Ao longo da sua carreira, colaborou em projetos culturais e sociais. Alguma dessas experiências que influenciou diretamente POETA POP?
TA – Diretamente, ou explicada no POETA POP, não. Indiretamente, como fonte de inspiração, todas.
OC – O processo criativo é muitas vezes solitário. Como lida com isso e como a colaboração com outros artistas enriquece o seu trabalho?
TA – Dizem que é em solidão que os poetas produzem mais. Que se encontram com os demónios, com os anjos e com eles debatem até à exaustão. Dizem. Eu acredito. Mas também não acredito. Na verdade, também dizem que é à noite, entre o breu, que se escondem os melhores poemas. Eu já procurei, mas encontrei poucos ou nenhuns. Admiro os caçadores de poética que andam entre as trevas e a noite à procura do mais inspirado dos poemas. Devo ter azar. Mas a verdade é que o meu processo poético é diferente. É mais à luz, no meio das gentes, a olhar para elas nos olhos, a conversar com elas, a sentir-me próximo e acompanhado ainda que a alma por vezes se refugie na solidão. Vou-me misturando com os outros e gosto muito de colaborar com outros artistas. Além de enriquecedor, ajuda-me a definir os novos caminhos.
OC – POETA POP parece-nos um projeto bastante ambicioso e de partilha …
TA – Sim. O projeto resulta do trabalho de mais de vinte pessoas. Serei eternamente grato à Aktiv Agency pela loucura de acreditar neste projeto, aos músicos e a todos os que colaboram direta e indiretamente comigo. Queremos levar este espetáculo além-fronteiras, e mostrá-lo às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e não só.
Partilha e proximidade
OC – Após a apresentação no Porto e em Lisboa, quais são os próximos passos para POETA POP? Há planos para levar o projeto a outras cidades ou países?
TA – Estamos empenhados em levar o POETA POP aos quatro cantos do mundo. De Macau aos Estados Unidos, a todas as comunidades portuguesas, Europa e qualquer lugar onde exista um português com vontade de nos ouvir e, sobretudo, de nos dar a conhecer à sua comunidade local. Tenho a certeza que o público internacional também se irá identificar com o espetáculo, e acima de tudo, irá ficar a conhecer melhor a realidade portuguesa.
OC – Sabemos que tem uma presença ativa nas redes sociais e na rádio. Como utiliza essas plataformas para expandir o alcance da sua arte?
TA – Diariamente, em contato com o público. Acarinhando e recebendo carinho. Partilhando conteúdos e demonstrando que a proximidade é possível.
OC – Que mensagem espera que o público leve consigo após vivenciar o POETA POP?
TA – Que dentro de cada um de nós há um poeta, e que é possível viver feliz nessa poesia.
“Nós”
OC – Se pudesse descrever POETA POP numa frase, qual seria?
TA – Basta uma palavra : “Nós”.
OC – Que conselhos você daria aos jovens artistas que desejam explorar a poesia, a música e outras formas de arte?
TA – Que sintam o que são sem precisarem de rótulos. Trabalho e esforço. Dedicação. A arte também acontece das 9:00 às 18:00.
OC – Gostaria de compartilhar algo mais com os leitores de “O Cidadão”?
TA – Agradecer profundamente terem acompanhado esta entrevista. Obrigado por me lerem e por me ouvirem. Acreditem em mim porque eu acredito em todos vós. É o exercício do amor, certo? Muito obrigado e bem-haja.
A trilogia POETA POP de Tristão de Andrade é mais do que um projeto artístico; é um convite ao público para refletir sobre a vida, a cultura portuguesa e a força da poesia. Com planos de expansão internacional e a ambição de alcançar comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, Tristão de Andrade reafirma o poder das artes na construção de pontes culturais e emocionais. “Dentro de cada um de nós há um poeta”, conclui à margem da entrevista, deixando uma mensagem de esperança e inspiração para todos.
OC/RPC

Editor Adjunto, Articulista, Eng. Eletrotécnico
e Aluno da Licenciatura em Gestão de Patrimonio Cultural






