Assisto, entre o espanto e a revolta, à arrogância que emana de certas esferas políticas. Baseio esta curta crónica na presunção de quem, no púlpito da Assembleia da República, grita como se tivesse sido picado por um zangão, arvorando-se em arauto da verdade e da competência governativa.
O Primeiro-Ministro defende, com unhas e dentes, uma Ministra da Saúde que tem demonstrado uma absoluta incapacidade para sanar um problema crónico. É verdade que o mal vem de longe e que a cura não é simples, mas seria, certamente, menos utópica se não se desviassem fundos públicos para “coisas” de somenos importância.
Se pagassem condignamente a médicos, enfermeiros e auxiliares, as engrenagens do sistema voltariam a girar. Mas não. Preferem a teimosia e uma arrogância doentia, permitindo que o declínio se transforme num caos galopante.
Nota-se uma profunda falta de humanidade neste Governo (que, infelizmente, não é caso único). Insistem num salário mínimo irrisório, que em nada estimula a economia, e asfixiam os vencimentos dos médicos — que, por uma questão de sobrevivência e valorização, acabam por se entregar ao sector privado ou à emigração.
Há uma coragem vergonhosa em anunciar aumentos de pouco mais de 2% em pensões que nem sequer atingem os 500 euros. Como pode um idoso, fustigado pela idade e pela necessidade de medicamentos, sobreviver com tal esmola? Neste ponto, a culpa é partilhada: o partido que anteriormente ocupou o “poleiro”, rotulando-se de socialista, pouco ou nada fez por estas reformas miseráveis.
Entretanto, num gesto de quem se arma em rico à custa alheia, encontram-se centenas de milhões para financiar guerras. Por muito injustas que sejam, não se pode ter a ousadia de desviar o dinheiro dos contribuintes portugueses mais carenciados para tais fins.
A realidade que nos rodeia é crua: são mulheres a dar à luz em ambulâncias; são doentes esquecidos em urgências, perdidos em dezenas de horas de espera. É o INEM a tardar o socorro a quem padece, resultando, tantas vezes, em mortes evitáveis. São ambulâncias imobilizadas, transformadas em anexos hospitalares, servindo de leito improvisado porque já não há espaço, nem mãos, dentro dos hospitais.
Este cenário de autêntico caos assusta qualquer cidadão que tema precisar de auxílio. E, perante isto, o governante diz-nos que estamos melhor. Pois estamos: temos agora a facilidade de partir deste mundo mais depressa, simplesmente porque o atendimento hospitalar se tornou um destino inalcançável.

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