Confesso que ainda guardo comigo o vício de pensar. Faço-o quase como um acto de resistência, parafraseando Descartes na certeza de que, se penso, ao menos ocupo um lugar no mundo. Mas que mundo é este? A vida apresenta-se-me como uma estrada de curvas cegas ou um mar de humores instáveis — ora de um espelhamento sereno, ora de um abismo assustador. Talvez não seja uma caixa de Pandora, mas um vasto inventário de espantos que insistimos em prezar.
Quando falo da estranheza da vida, falo, na verdade, da humanidade. Questiono-me, no silêncio do meu pensar modesto, sobre a razão pela qual o comportamento humano se desvia tanto da harmonia natural das coisas. Como podem os sentimentos sofrer metamorfoses tão drásticas? Observo a rivalidade que se cria entre pares, entre artesãos do mesmo ofício, onde a sensibilidade — essa nossa terna ingenuidade — acaba por se tornar um flanco aberto, uma vulnerabilidade preocupante.
Escrevo isto com a presunção de quem ainda se atreve a raciocinar, um exercício que parece cair em desuso nestes tempos de inteligências artificiais que pensam e escrevem por nós. Mergulhado neste conflito, procuro uma explicação plausível para o fenómeno da ascensão e do abandono.
Assisto, intrigado, ao espectáculo do sucesso: o artista, seja na escrita, na música ou na tela, vê-se subitamente cercado por uma legião de entusiastas. Celebram-se os seus dons, homenageiam-se as suas obras, criam-se laços que parecem forjados para a eternidade. Há uma efervescência de amizade e aplausos.
Porém…
Com a mesma rapidez com que o coro se reuniu, ele dispersa. O silêncio instala-se de forma inexplicável. Aqueles que antes viam valor, hoje oferecem a ausência; os eventos esvaziam-se; o interesse desvanece como fumaça ao vento. Pergunto-me: terá o “artista fantástico” sofrido uma mutação tamanha que o transformou em nulidade? Ou será que o que era “bom, valoroso e agregador” tornou-se, por um passe de mágica cruel, “mau, despiciente e descartável”?
Admito que não entendo. Talvez não haja nada para entender, sendo este um fenómeno que escapa à lógica do coração. A sociologia ou a antropologia terão, por certo, os seus diagnósticos frios. Eu, contudo, recuso-me a crer que a resposta resida na alergia ao talento alheio, na frustração ou na hipocrisia — sentimentos que, ironicamente, dizem estar extintos na modernidade.
Por mais que eu insista neste teimoso exercício de pensar, a resposta foge-me. Resta-me apenas a sensação de que atravessamos uma era de decadência emocional. Talvez o humanismo não tenha morrido, mas sofreu uma transformação tão severa que hoje atende pelo nome de irracionalidade.

Escritor







