Esta semana, por imposição do meu médico de família, fui aconselhado a visitar o centro de colheitas para, através de análises sanguíneas, verificar se os valores daqueles palavrões técnicos impronunciáveis estão aceitáveis. É compreensível que, com o avançar da idade, aumente a preocupação com as doenças que se prepararam para atacar e, como já não há peças de substituição, é melhor prevenir que mandar para abate.
Não quero, de igual modo, estar sempre a visitar a farmácia para aviar receitas de drogas legalizadas que, na maior parte das vezes, dão grandes benefícios aos médicos que as prescrevem – alguns só param no Pacifico!
Contudo, esta não é uma crónica sobre saúde ou regime saudável de vida. O meu foco incide sobre a interacção social e, claro está, no meio de tanta gente doente, encontrar alguém conhecido faz parte do roteiro da visita. A sala de espera é o salão nobre dos vírus e bactérias. Dezenas de pessoas amontoadas numa área reduzida, de olhos postos num ecrã, à espera de ouvir o chamamento do próprio nome! Quase como ganhar um bilhete divino para o paraíso – que neste caso, é um encontro com um médico…
Encontrei duas pessoas que não via faz algum tempo. Tendo em conta a minha excelente memória fotográfica, ainda hoje não sei os seus nomes. Recorrendo à batota, ainda espreitei o monitor central caso os seus nomes aparecessem, mas não tive sorte. Sorri, conversei e quando a conversa se aproximou do final, surge a eterna promessa que nunca é cumprida. Acredito que não seja um acto premeditado, mas sim uma forma natural e educada de se despedir da outra pessoa. O ser humano tem o dom da fala mas, por vezes, perde-se no meio dos adjectivos, pronomes e outros. Porque é sempre necessário dizer mais que a situação exige e, como tal, depois do adeus (não confundir com o a música) vem a ideia que temos de combinar qualquer coisa. Vamos recuperar o tempo perdido e, para colmatar a ausência marca-se encontro (noutro sitio que não o hospital). Temos o contacto?! Claro que sim! E depois deste momento de euforia, cada um segue para seu lado e o telefonema nunca é feito.
Este fenómeno acontece diariamente nos funerais. Os que se despedem do defunto dizem o mesmo aos familiares mais chegados, enquanto contam os que estão presentes e chegam à conclusão de que já não há muitos em seu redor. Nunca telefonam, mas voltam a falar do mesmo no funeral seguinte.
Maquinista na Metro do Porto







