Se Boys Don’t Cry dos The Cure nos ensinava que os “boys” não choram, a política
portuguesa parece ter adaptado o refrão: os boys não choram, são nomeados.
Entretanto os Blur vieram democratizar o conceito com Girls & Boys. E a política
acompanhou a tendência, já não são só os boys. Agora há lugar para girls & boys, desde
que tragam no currículo aquela experiência essencial em juventudes partidárias como a
JSD ou a JS. Formação académica? Opcional. Militância? Fundamental.
O processo é simples e quase coreografado. Primeiro, aprende-se a arte do aplauso em
comícios, depois domina-se o networking em jantares partidários e, por fim, dá-se o salto
natural, um gabinete ministerial, com direito a cartão, cargo e ar condicionado. Uma
progressão de carreira tão fluida que faria inveja a qualquer multinacional, não fosse
financiada pelo erário público.
E quando alguém acha que isto são exageros, a realidade trata de repor a ironia no sítio
certo. Ainda recentemente, ficámos a saber que há quem passe diretamente de vender
raquetes de padel para um gabinete governamental, num daqueles upgrades profissionais
que nem o Linkedin consegue explicar.
Mas há também histórias mais completas. Percursos que combinam militância partidária,
atividades paroquiais e uma vida pessoal ligeiramente caótica, incluindo episódios em
que responsabilidades básicas ficam por assumir, enquanto a carreira política segue
tranquila rumo a um cargo público.
Tudo isto enquanto se mantém a narrativa oficial, mérito, transparência, processos
seletivos. Pelo meio, criou-se a CRESAP, numa tentativa quase ingénua de transformar o
casting político num concurso sério. Durante algum tempo, ainda se acreditou que o
talento pudesse competir com o cartão partidário. Spoiler: não compete.
Hoje, o sistema evoluiu. Já não é só “jobs for the boys”. É também “money for the boys”.
Controlam-se nomeações, controlam-se orçamentos, e garante-se que quem regula
depende de quem governa, uma espécie de independência assistida, como quem dá
liberdade com trela curta.
No fundo, o Estado transformou-se numa espécie de festival permanente. Os “boys &
girls” sobem ao palco, vindos das juventudes partidárias, afinam-se pelos interesses do
momento e tocam a música que lhes pedem. E o público? Esse continua a ouvir, dividido
entre o déjà vu e a resignação.
No fim, talvez a grande diferença entre as músicas e a política seja esta:
nos The Cure, os boys não choram. Na política portuguesa, nem precisam.

Shipchandler







