Vivemos num tempo curioso em que toda a gente quer “construir marca pessoal”, mas poucos parecem interessados em construir carácter. Confunde-se paleta de cores com identidade, logótipo com posicionamento, seguidores com relevância, influencers com figuras de autoridade. E depois há o detalhe delicioso: querem autenticidade… desde que seja estrategicamente optimizada para o algoritmo.
É aqui que começa o problema — e também a oportunidade. Trago esta crónica no âmbito do meu podcast que já conhecem do “IA&EU”, abordando as temáticas mais práticas de uma segunda temporada onde até a RITA foi renovada. A temática enquadra-se n’O Cidadão, porque este projeto de jornalismo livre não se limita a ecoar chavões de marketing nem a promover fórmulas mágicas para enriquecer em 30 dias. Dá espaço a pensamento estruturado, a experiência real e a reflexão crítica num mundo saturado de gurus instantâneos. Num país onde ainda confundimos visibilidade com valor, discutir marca pessoal com seriedade é quase um acto de resistência intelectual.
Quando comecei a construir as minhas marcas (sim, no plural), não havia mapas detalhados, nem IAs conversadoras, nem dashboards cheios de métricas sedutoras. Havia tentativa e erro. Havia, como gosto de dizer, “andar às varadas nas silvas”. Formação académica ajudou, claro. Mas entre a teoria e o terreno existe um matagal espesso chamado realidade.
Recentemente, numa das minhas habituais mudanças de pele (porque quem não evolui fossiliza) reestruturei a marca MPORTELA. E desta vez não fui sozinho. Usei IA. Sim, usei. Com prompts certos, contextualização adequada, literacia digital e um rumo bem definido. Não para pensar por mim, mas para pensar comigo.
E aqui está o ponto que muitos ignoram: marca pessoal não nasce de um brainstorming apressado sobre “o que o mercado quer”. Nasce de uma auditoria brutal à identidade. Quem és tu, realmente? Que contradições aparentes tens? Como concilias múltiplas paixões sem pareceres um catálogo ambulante de serviços? No meu caso, terapeuta, escritor, criador de audiodramas, podcaster, mentor de IA… parecia um cocktail improvável. Mas a tensão criativa não é fraqueza: é diferencial.
Descobrir o denominador comum foi o momento-chave. Não era “psicologia” ou “escrita”. Era transformação humana através de narrativas. Quando se encontra esse fio condutor, tudo deixa de parecer disperso e passa a parecer coerente. A marca deixa de ser fragmentada e passa a ser orgânica… e não é que a IA ajudou? Pasmem-se!
Depois vem o erro clássico: achar que o público é “toda a gente”. Não é. Nunca foi. “Mulheres dos 25 aos 45 interessadas em crescimento pessoal” não é público-alvo, é uma estatística do INE. Público real tem nome, frustrações, hábitos, medos. Tem uma “Sofia”, 34 anos, que vai ouvir podcasts a caminho do trabalho enquanto questiona o rumo da sua carreira.
A IA, bem utilizada, permite criar estes avatares com um nível de detalhe quase terapêutico. Não para manipular, mas para compreender. E aqui entra um truque que muda o jogo: não criar conteúdo para o avatar, mas com o avatar. Simular as suas dúvidas, as suas objecções, até o seu cepticismo. Transformar comunicação em diálogo. Quando escreves como se estivesses a responder a uma pessoa concreta, o resultado deixa de ser genérico e passa a ser magnético.
Ora, vejam como a IA não é um demónio… até ajuda na tua reformulação de marca!
A IA, neste contexto, não substitui visão estratégica: amplifica-a. Pode ajudar a mapear a jornada emocional de um avatar, a estruturar conteúdos que conduzam de um estado de dúvida a um estado de decisão. Mas continua a ser ferramenta. A direcção é humana.
Se na primeira temporada do supracitado podcast discutimos IA enquanto fenómeno cultural e tecnológico, nesta segunda temporada o foco é diferente: usar IA para benefício real. Para que o “Zé da esquina” consiga vender os seus pastéis de nata artesanais sem depender de anúncios milionários. Para que profissionais competentes deixem de ser invisíveis numa internet dominada por barulho.
Quem quiser aprofundar este tema — com exemplos práticos, estratégias aplicáveis e menos romantismo ingénuo — pode ouvir o primeiro episódio da temporada 2 do «IA & EU». Falamos de identidade, avatares, sequenciação psicológica e de literacia digital.
Porque marca pessoal não é fingir ser influencer. É ter coragem de ser inteiro — com estratégia suficiente para que o mundo perceba quem és.
Autor | Formador Psicossocial | Consultor
Criador de Conteúdos | Especialista em Inteligência Artificial







