Tivéssemos nós, ilustres cidadãos, força de vontade para cumprir regras — em vez de engenho para as contornar — e seríamos, seguramente, mais dignos que os vizinhos nórdicos. Porém, por culpa de um qualquer atavismo genético, a prioridade recai sempre no desenrasque, na trafulhice ou na esperteza saloia.
Somos peritos em descobrir, nas entrelinhas normativas, lapsos que escaparam ao próprio legislador! Há sempre uma lacuna (ou uma escapatória), por mais transparente que a lei pretenda ser. Poderia enumerar inúmeras anomalias que contam com a total passividade das autoridades. Talvez estas creiam que cada um de nós possui um sentido de responsabilidade individual capaz de auto-regular a sociedade. Mas, para efeitos desta crónica, destaco a lei mais controversa na sua aplicação: a prioridade social.
Ainda hoje gera dúvidas atrozes. Todos reclamam esse ‘direito constitucional‘, mesmo sem idade avançada ou doença incapacitante — há quem tente, à bruta, passar à frente segurando o ‘puto’ de quinze anos ao colo. Como o actual policiamento do discurso não permite confrontar quem se vitimiza, estes oportunistas de ocasião impõem a sua vontade. E, escusado será dizer, o crime compensa…
O povo vive na esperança de um messias. Ainda se suspira por D. Sebastião em dias de nevoeiro, esquecendo que, com mais de quatro séculos de idade, pouco lograria fazer. Para além de já não conseguir desembrenhar a espada, ficaria retido dezassete horas nas urgências de um hospital qualquer — talvez por isso tenha desistido de regressar. A legislação deveria ser o manual de boas práticas da convivência. Contudo, prevalece a tendência de ler apenas as letras gordas ou a parte que nos convém. Recordo o entusiasmo com a lei que proibiu fumar em recintos fechados;
hoje, esse brio esmoreceu e ninguém se incomoda quando um ‘selvagem’ resolve expelir fumo em zona proibida. Nós, descendentes de Viriato, que não nos vergámos a Napoleão e derrubámos uma ditadura, capitulamos agora perante o confronto directo, insistindo no terno ‘deixar andar’. É um caminho perigoso que corrói os valores educativos. Impera uma anarquia alimentada pela nossa passividade. No fim de contas, somos apenas mais um tijolo no muro.
Maquinista na Metro do Porto







