Sou apaixonado pelos jornais em papel! Já tentei tudo – psicólogos, psiquiatras, bruxos, feiticeiros de tribo, mães de santo – e nada! O vício pelo cheiro da tinta dos jornais não foge da minha alma, do meu corpo e do meu coração.
Há quem diga que isso significa vontade inconsciente de regressar ao passado. A um passado feliz. A um tempo em que o sol e a chuva, o calor e o frio, não eram notados. A fúria de viver ultrapassava o clima, o tempo e o espaço. A imortalidade impunha-se qual ditador de circunstância.
Mas, não! Se era bom, não devia ter acabado. O Deus misericordioso e justo devia dizer: – “Parem! Os jornais em papel não podem desparecer!
Nem Deus, nem os sábios gestores do capitalismo, nem os homens de boa vontade conseguiram operar milagres. Adeus papel! Adeus jornais!
Mas este vosso amigo não tem por hábito render-se à primeira dificuldade. Nem à segunda. A bem dizer, não se rende, é um sonhador…
Por isso, continuo em busca dos quase desaparecidos quiosques, outrora a minha perdição.
Há poucas semanas, pela manhã, numa cidade (de média dimensão!) do litoral português, quis comprar jornais – em papel, claro, desculpem a redundância. No centro urbano, zero, nada de locais de venda. Questionei uma senhora polícia municipal que informou – “Agora só ali no Continente é que se vendem jornais. É perto.”
Perto ou longe, não importava. Queria comprar os jornais.
No tão afamado centro comercial, havia dois lugares onde podia adquirir os jornais. Ou num quiosque do corredor principal, ou dentro do centro comercial, como quem vai comprar pão ou alfaces.
Optei pela loja exterior. Talvez fosse mais fácil e rápido. Surpresa! A fila ultrapassava a entrada do estabelecimento. Tanta gente para comprar jornais, pensei! Mas estava errado, era para registar o Euromilhões (ou outra lotaria qualquer) e comprar “raspadinhas” – o fetiche dos portugueses em serem milionários!
Atrás do balcão, uma jovem afogueada, tentava dar vazão a tudo, mas a fila ia aumentando. Se ali ficasse, nem à tarde sairia dali. Além as prateleiras onde jaziam os periódicos estavam tapadas pelas pernas dos pacientes jogadores de lotaria.
Tive de dirigir-me ao interior da loja de distribuição alimentar. Entrei, peguei em tês jornais diários, duas revistas e um desportivo e foi para o balcão “informação” a fim de efetuar o pagamento. Mas a funcionária nunca mais vinha para cobrar. Questionei o segurança. Tinha de esperar. A senhora estava a prestar informações a clientes que pretendiam trocar “pontos” por artigos de cozinha. E outra vez uma fila assustadora…
Solução – pagar nas caixas. Para minha pouca sorte, estávamos no final de mês. As pessoas já com os ordenados no bolso, enchiam os carrinhos de compras. Nova fila. Nova espera.
Vontade não me faltou de pousar os jornais e ir embora. Mas olhava para eles, eles olhavam para mim, exalando aquele cheiro a tinta… o meu coração parava se os abandonasse.
E assim passei mais de uma hora para comprar jornais. E um “regresso ao passado” – neste particular, note-se – tomou conta da minha consciência. Até “vi” os velhos ardinas a apregoar – “olh’ó Notícias, o Janeiro, Olh’ó Comércio, notícias fresquinhas” – os sons do meu contentamento.
Tomei um café, e passou.
Jornalista














