
Com cerca de 48 mil espetadores e um ambiente fantástico, o Dragão “exigia” aos artistas um espetáculo a condizer. Fizeram-lhes a vontade – do lados dos da casa, mais “coração” e dos forasteiros, mais qualidade de jogo.

O SC Braga, sem grandes oportunidades de golo, mas a jogar melhor, obrigava os portistas a defender e sair em contra-ataques rápidos, mas incipientes.
Na primeira parte o Braga teve mais posse de bola, rematou mais e teve maior número de cantos a favor. Travou de forma eficaz a “saída” do jogo portista. O treinador Vicens estudou bem o adversário e os seus jogadores entenderam na perfeição as fragilidades “azuis e brancas”. Tivessem jogadores capazes de decidir e, provavelmente, teriam marcado.

Porém, foi o FC Porto a chegar à vantagem quase no final do primeiro tempo. Remate frouxo de Samu, a bola tabelou em Rodrigo Mora e enganou Hornicek.
As equipas regressaram aos baleneários com o FC Porto a ganhar com alguma felicidade e os bracarenses, certamente a pensarem já em dar a volta no recomeço.
E assim foi. Os portistas continuavam a mostrar dificuldades e a perder muitos lances e, na passagem dos 10 minutos da segunda parte, o que já se adivinhava há muito – golo do Braga, apontado por Victor Gomez, o lateral direito. Já que os avançados emperravam, um defesa, decidiu.

Os portistas regiram, mas, na maior parte das vezes, mal. Sentia-se a falta – e estava em campo – daquele incansável “ladrão de bolas”, chamado Froholdt. Da eficácia de William Gomes e da “magia” de um meio-campo que parece ter “desaprendido”.
O Braga talvez tenha feito um dos seus melhores jogos para o campeonato; quanto ao FC Porto, um dos piores. Enquanto os bracarenses apresentavam um jogo fluido, sem perda de passes, a empurrar o adversário para a sua defesa – um muro que vai valendo nos momentos críticos -, os “azuis e brancos” defendiam como podiam, tinham dificuldades a construir e, essencialmente, perdiam a posse de bola com alguma facilidade.
Mas foram os portistas a fazer o segundo golo. E aqui temos de enaltecer dois aspetos – a forma como Farioli mexeu na equipa. Gabri Veiga e Borja Sainz, vindos do banco, mexeram com o jogo e deram um fulgor que a equipa não tinha tido até aí. O segundo aspeto, quiçá o mais “saboroso” para os adeptos, o espírito de combate da equipa até ao último segundo de jogo – aquele “querer muito” ganhar, que faz parte do chamado “jogar à Porto”.

O golo surge, justamente, da mistura desses dois aspetos. Estava o FC Porto a ser pressionado nas imediações da sua área, a bola é aliviada para Gabri Veiga, este fez um passe de génio para Borja Sainz que aproveitouo o erro defensivo do bracarense Victor Gomez, isolou-se e com Hornicek pela fente, atirou, sem dificuldades, para o fundo das redes, fazendo sonhar, de novo, a plateia portista. A 10 minutos do final, o FC Porto voltava a estar na frente do marcador.
Não foram fáceis estes últimos minutos para os dragões. Continuaram a perder passes, duelos e optaram por gerir o jogo sem bola. O Braga continuou a pressionar, a jogar melhor, mas com o “pecado” inicial – pouca clarividência dos seus atacantes, nomeadamente, Paulo Vítor e Fran Navarro.
No final das contas, quem teve razão foi o treinador do Braga. Parece uma verdade de “La Palisse”, mas quem viu o jogo, entende-a na perfeição – “O FC Porto conseguiu marcar dois golos e nós apenas um, essa foi a grande definição, porque na realidade jogámos melhor.”
Enquanto o Braga vem melhorando de rendimento no campeonato ( tem sido exemplar na Liga Europa), o FC Porto parece estar a fazer o percurso contrário. E à medida que vai encontrando adversários mais fortes, expõe debilidades que, se não forem solucionadas, pode criar fortes dores de cabeça aos seus técnicos e dirigentes.

Uma coisa é certa, esta equipa portista tem capacidade para sofrer nos momentos difíceis – e contra o Braga sofreu muito – o que pode ser fator determinante para se aguentar no comando do campeonato até abrir o mercado de inverno que, com certeza, vai ser aproveitado por Falioli e Villas-Boas para “retocarem” o plantel.
Já o Braga, parece-nos que ocupa uma posição na tabela ( 7º lugar), nada condizente com o valor da conjunto. Não é difícil adivinhar que, muito em breve, trepará algumas posições e vai ser, novamente, um “osso” duro de roer para os outros grandes do campeonato português.
O árbitro
Tiago Veríssimo, na voragem de um jogo rijamente disputado, conseguiu acertar nas decisões mais importantes. Bem anulado o golo de Victor Froholdt – carga de Francisco Moura ao guarda-redes do Braga. Só na amostragem de cartões é que pareceu um pouco precipitado e nervoso, mas, globalmente, fez um trabalho positivo.
Declarações
Francesco Farioli (treinador do FC Porto): “Jogo difícil e grande resultado”

“Foi definitivamente um jogo difícil, frente a uma equipa forte, muito bem treinada, com mobilidade, qualidade e fisicalidade para atacar e defender em campo aberto. Por isso, acho que foi grande resultado e uma grande performance, em termos de espírito, desejo, entrega e resiliência.
O jogo foi tão complicado como eu pensei que seria. Não é habitual termos menos bola, mas há duas formas de dominar um jogo: com e sem bola. Sofremos um golo de bola parada, numa situação um pouco caótica. Frente a uma equipa num momento muito bom, que entra muito na área adversária e, nos últimos jogos, tem feito quatro ou cinco golos a quase todas as equipas, não concedemos nada.
As alterações no ‘onze’ foram opções, temos uma época muito longa e muitos jogos para disputar. O Rodrigo Mora e o William Gomes tiveram um bom impacto e também os que entraram depois, para transformar o empate numa vitória.
Não acho que tenha sido um jogo menos fluído, quando nos marcam ao homem, e não há nenhum jogador livre temos que procurar o espaço e, por isso, houve mais bolas longas do Diogo Costa. O Sporting de Braga é uma das equipas, além de nós, que defende assim, de forma agressiva.
Cada contacto nosso virou falta e isso afetou muito o ritmo do jogo. Seria interessante manter critério em todas as decisões. Agora, é claro que, com 28 pontos, a ganhar, ganhar e ganhar, é mais fácil acalmarmos, mas toda a gente tem olhos para ver e isto causa alguma irritação. Estou feliz pela forma como os jogadores controlaram as emoções, mesmo não sendo fácil”.
Carlos Vicens (treinador do Sporting de Braga):“Cada Vez mais próximos do que queremos”

“A equipa esteve muito bem em vários aspetos, fez um jogo de personalidade tremenda, mostrou-se agressiva, competitiva e ambiciosa com e sem bola. Vamos tristes. Não dando para ganhar, gostava que a equipa fizesse o que fez hoje em todos os outros jogos. Tenho poucos reparos a fazer. Jogámos contra uma equipa que só não ganhou um jogo na I Liga.
Fomos capazes de criar ocasiões e de pegar na bola. Conseguimos o empate, tivemos uma situação clara com o Fran Navarro, mas não conseguimos marcar. A equipa deu a cara, lutou com personalidade. O primeiro golo acontece como acontece e, depois, estávamos num bom momento. Pensámos que podíamos estar mais perto do segundo golo do que o rival.
Somos uma equipa que, neste processo, tem dado passos em frente. Já temos 21 jogos oficiais. Penso que o processo requer ajustar a equipa para que saiba reagir em diferentes situações que os rivais proporcionam. A equipa está cada vez mais próxima do que queremos, estamos no bom caminho.
Nos 21 jogos que fizemos, tivemos 13 vitórias, três derrotas e cinco empates. Na quinta-feira voltamos a jogar, somos a equipa portuguesa que mais jogos tem. O campeonato acaba em maio. Na Europa, vamos tentar fazer os pontos que precisamos. Depois temos a Taça de Portugal, para tentar passar à ronda seguinte”.
Ficha do Jogo
Estádio do Dragão, no Porto.
FC Porto – Sporting de Braga, 2-1.
Ao intervalo: 1-0.
Marcadores:
1-0, Rodrigo Mora, 45′
1-1, Víctor Gómez, 51′
2-1, Borja Sainz, 79′
FC Porto: Diogo Costa, Alberto Costa, Jakub Kiwior, Bednarek, Francisco Moura (Martim Fernandes, 57), Alan Varela, Rodrigo Mora (Gabri Veiga, 57), Victor Froholdt, Pepê (Borja Sainz, 64), William Gomes (Pablo Rosario, 73), Samu (Deniz Gül, 64).
(Suplentes: Cláudio Ramos, Martim Fernandes, Prpic, Pablo Rosario, Eustáquio, Gabri Veiga, Deniz Gül, Borja Sainz, Ángel Alarcón.)
Treinador: Francesco Farioli.
SC Braga: Lukas Hornicek, Víctor Gómez, Bright Arrey-Mbi, Lagerbielke, Leonardo Lelo (Gabri Martínez, 84), Gorby Baptiste (Diego Rodrigues, 89), Rodrigo Zalazar, Mario Dorgeles, Grillitsch (João Moutinho, 62), Pau Victor (Fran Navarro, 62) e Ricardo Horta.
(Suplentes: Tiago Sá, Paulo Oliveira, Sikou Niakaté, Gabriel Moscardo, João Moutinho, Diego Rodrigues, Gabri Martínez, Fran Navarro, El Ouazzani.)
Treinador: Carlos Vicens.
Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria).
Ação disciplinar: cartão amarelo para Francisco Moura (19), João Moutinho (63), Bednarek (66), Lagerbielke (78) e Martim Fernandes (81).
Assistência: 48.473 espetadores.
Reportagem OC: Alberto Jorge Santos (texto) e António Proença (fotos)
Jornalista






