A celebração dos 20 anos da Biblioteca Municipal Lídia Jorge, em Albufeira, foi assinalada com o programa “Antes que a noite chegue”, que contou com a presença da escritora que dá nome ao espaço. A autora de Misericórdia participou numa sessão literária onde se cruzaram reflexões sobre a obra e episódios pessoais que inspiraram a sua escrita. Durante a cerimónia, que juntou mais de uma centena de participantes, foram distribuídos 100 exemplares do livro, galardoado ao longo de 2023 com prémios nacionais e internacionais.
Os leitores convidados para o evento partilharam excertos e análises da obra Misericórdia. Lídia Jorge referiu que o programa foi “uma das mais interessantes explorações literárias” da sua produção, considerando-o “muito, muito tocante”. Entre as intervenções, destacaram-se as palavras de José Carlos Rolo, presidente da Câmara Municipal, que classificou o livro como “atento a este nosso tempo”, unindo “os marginais da idade e os marginais sociais”. A autora reforçou a ideia ao afirmar que Misericórdia “não é uma casa fechada, está inscrito no tempo”.
A obra, escrita a pedido da mãe da autora, inspira-se em vivências reais. Lídia Jorge recordou que a sua mãe, institucionalizada num lar, solicitou que escrevesse um livro com o título Misericórdia. Após o falecimento da progenitora, a escritora sentiu o peso da “herança” deixada por este pedido, que resultou numa experiência que descreveu como “profunda”. Momentos de humor e introspeção também marcaram o encontro, como a leitura de excertos que abordaram questões sociais, a relação entre mãe e filha ou o papel das mulheres em tempos de adversidade.
Luísa Monteiro, uma das organizadoras do evento, considerou a obra “uma pangeia literária”. Durante as leituras, outros participantes elogiaram a dimensão irónica e empática da narrativa. Lídia Jorge destacou que muitas das personagens são inspiradas em figuras reais, reforçando o valor universal da obra. Comentou ainda que a sua mãe, D. Remédios, descrita como D. Alberti no livro, personifica a força das mulheres do seu tempo, que se recusavam a aceitar as limitações impostas pela sociedade.
O programa incluiu também intervenções de figuras locais, como a vereadora Cláudia Guedelha e o ex-autarca Desidério Silva. Este último recordou o processo que levou à atribuição do nome da escritora à Biblioteca em 2009, um gesto que Lídia Jorge considerou “acertado, como o tempo demonstrou”. Entre leituras emotivas e análises literárias, houve espaço para reflexões sobre temas como a importância da memória, a beleza na relação entre professor e aluno, e o papel da literatura como instrumento de transformação.
O evento terminou com a leitura de um poema escrito por uma jovem, Beatriz Cabrita, dedicado à escritora. Após o momento literário, os participantes cantaram os parabéns à Biblioteca, seguido do corte de bolo e de um brinde com espumante.
Para Lídia Jorge, a noite não trouxe apenas uma celebração: foi um tributo à capacidade da literatura em unir gerações e em iluminar os caminhos da memória coletiva.
OC/RPC