Nascer e crescer numa cidade imprime-nos parte da nossa identidade.
Uma cidade cinzenta, de granito erguida, com as suas matinais neblinas e um rio de correntes rápidas e imprevisíveis, de históricas pontes que nos ligam em dois sentidos e onde ainda vão ziguezagueando os barcos rabelos, actualmente de interesse cultural e de lazer, mas que outrora transportavam os vinhos do Alto Douro para as caves de Vila Nova Gaia ,ainda hoje muito apreciados por portugueses e estrangeiros.
A Ribeira de todas as gentes, o Palácio de Cristal, associado a memórias da nossa infância e onde, uma vez ao ano, a Feira do Livro nos desafia com uma imensidão de livros a preços módicos.
A Baixa, dum comércio mais tradicional, o Mercado do Bolhão ,um cenário multicolor, na sua versão contemporânea, os museus, as múltiplas igrejas e capelas, as escadinhas ,os cantos e os recantos.
Ao longo da margem do rio, os pescadores perfilam-se e aguardam, pacientemente, que o peixe morda o isco, com uma sabedoria que só a eles pertence.
Os jardins mais emblemáticos, a que cada vez mais se subtraem as flores, a Torre dos Clérigos que com os seus estreitíssimos degraus nos surpreende, lá no alto, com uma paisagem deslumbrante! A Avenida dos Aliados,uma sala de estar colectiva,onde a música nunca nos falha.
Uma comunidade que sabe receber, de uma hospitalidade genuína, e agradar com os seus sabores mediterrânicos de excelentes produtos.
Uma cidade de rio e mar, em que as praias não conhecem classes sociais ou raças.
Mas também uma cidade de cobertores e cartões, o aconchego de muitos nas noites frias de Inverno, onde a habitação já não é um direito, mas um luxo e a “enchente” de turistas começa a impactar-nos; onde o lixo abunda em certos locais e o fornecimento de energia eléctrica não é, de modo algum, o desejável.
Uma cidade de corre-corre, em que alguns se levantam de madrugada para assegurar serviços, enquanto outros se entretêm em jogos de poder.
Na verdade, poderia ser qualquer outra cidade, mesmo até noutro continente, mas foi o Porto que me foi “destinado” e com o qual mantenho raízes profundas e diálogos permanentes.

Psiquiatra







