Cidadãos com emprego vivem em quartos ou carros devido à crise da habitação

Está a crescer o fenómeno dos “working poor”, trabalhadores em situação de pobreza apesar de emprego estável. A ausência de resposta habitacional pública suficiente e os preços elevados do mercado privado são apontados como fatores centrais da crise.

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Mesmo com emprego, milhares de pessoas em Portugal não conseguem suportar o custo da habitação, recorrendo a quartos arrendados, partilhas precárias ou, em casos extremos, a dormir em viaturas.

A tendência tem vindo a ser identificada por autarquias, associações e entidades sociais, num contexto de aumento persistente das rendas e escassez de oferta habitacional acessível.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o custo da habitação aumentou significativamente nos últimos anos, com as rendas a registarem subidas superiores à inflação em vários centros urbanos.

Em cidades como Lisboa e Porto, a pressão do mercado imobiliário tem levado a uma crescente substituição de habitação permanente por alojamento temporário, reduzindo a oferta disponível para residentes.

A Cáritas Portuguesa tem alertado para o aumento de pedidos de apoio de pessoas com emprego, mas sem capacidade financeira para garantir uma habitação estável. “Há cada vez mais trabalhadores pobres, que, apesar de terem rendimentos, não conseguem pagar uma renda digna”, refere a organização, em relatórios recentes sobre pobreza e exclusão social.

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) confirma a tendência e sublinha o crescimento do fenómeno dos “working poor”, trabalhadores em situação de pobreza apesar de emprego estável.

Em contexto urbano, associações locais têm identificado situações de pessoas a viverem em quartos sobrelotados, divisões improvisadas e, em casos pontuais, em viaturas estacionadas em zonas periféricas, sobretudo em períodos de maior pressão habitacional.

A ausência de resposta habitacional pública suficiente e os preços elevados do mercado privado são apontados como fatores centrais da crise.

O Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) reconhece que existe um défice de oferta de habitação acessível face à procura, especialmente nas áreas metropolitanas. Apesar de programas de apoio ao arrendamento e habitação social, organizações no terreno consideram que a resposta continua insuficiente face à velocidade da subida dos preços.

A consequência é a normalização de soluções habitacionais precárias, mesmo entre pessoas empregadas, o que acaba por comprometer a estabilidade, a saúde e a segurança.

Especialistas alertam que o fenómeno tende a agravar-se se não houver aumento significativo de habitação acessível e regulação eficaz do mercado de arrendamento.

Fontes
• Instituto Nacional de Estatística (INE)
• Cáritas Portuguesa
• Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN)
• Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU)
• Relatórios sobre pobreza e habitação (2024–2025) de organizações sociais e públicas

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