Passam poucos minutos das 11:00 da manhã. O café é servido num pequeno snack-bar, junto à Praça de S. José. Uma rotunda onde se ergue uma palmeira salta à vista. Este foi um dos locais que serviu como pano de fundo para os diretos das televisões. Percebe-se o motivo. Em vez de relva ou plantas, o piso da rotunda está coberto de pedras. Foi aqui que, na última noite, os autores dos desacatos apedrejaram bombeiros e forças da autoridade. Sente-se o cheiro a plástico queimado. Os resquícios dos caixotes do lixo ardidos jazem na calçada. Quem passa desacelera a marcha, lança um olhar fugaz e retoma o caminho. Não fossem os vestígios da destruição e a presença de agentes da PSP, este seria um dia igual a tantos outros no bairro do Zambujal.
Embora associado a problemas sociais, como a marginalização e a exclusão, este bairro é palco de histórias de superação. São assinaláveis as iniciativas comunitárias e de cidadania que têm sido colocadas em prática. Afinal, este local é um microcosmo de diversidade cultural e de luta social, albergando muitas das famílias de retornados das ex-colónias portuguesas que, desde os anos de 1970, fizeram do Zambujal o seu porto de abrigo.
Entre desafios e resiliência
Tânia é moradora no bairro há mais de 30 anos. Encontramo-la numa frutaria e, com postura tímida, assume que conhece o bairro do Zambujal como poucos: “aqui, as pessoas lutam para sobreviver. Há desemprego, há casas com falta de condições. Mas somos uma comunidade muito unida, tentamos ajudar-nos uns aos outros”.
Ao longo dos anos, a imagem do bairro tem sido marcada por uma perceção negativa. Muitos associam o Zambujal à criminalidade e à precariedade. No entanto, esta visão está longe de fazer justiça a tudo o que aqui acontece. Os desafios são evidentes, assim como a vontade de mudança.
Luís, um jovem na casa dos 20 anos, confirma: “quando digo que sou do Zambujal, as pessoas já olham de lado, pensam que é perigoso. Não é justo. Aqui também há gente boa, trabalhadora, que só quer uma vida melhor”.
No decurso das últimas décadas, várias iniciativas de requalificação urbana e social têm sido implementadas no Zambujal, como parte do Programa Especial de Realojamento (PER). A Câmara Municipal da Amadora, em parceria com outras entidades, tem trabalhado para melhorar as infraestruturas do bairro, reformando edifícios e criando espaços públicos mais adequados.
Ana, 42 anos, integra uma associação local e partilha o sentimento comum à maioria dos habitantes do bairro: “as pessoas precisam de muito mais do que casas novas. Precisam de empregos, escolas e serviços de saúde. O acesso à habitação é importante, mas também temos de pensar em mais e melhores medidas que permitam às pessoas ter condições económicas”.
Muitos blocos de prédios, anteriormente degradados, foram renovados. Foram igualmente criadas áreas de lazer. “Melhoraram algumas coisas, sim. Mas o verdadeiro problema aqui é a falta de trabalho, sobretudo para os mais novos. Querem ter esperança num futuro melhor. E isso é difícil sem a criação de oportunidades”, diz Ana.
O papel do associativismo
O bairro do Zambujal é um exemplo de como as associações e os projetos comunitários podem desempenhar um papel crucial na transformação social. O trabalho desenvolvido pela Associação Cultural Moinho da Juventude é reflexo disso mesmo. Desde 1987 que a organização atua em áreas como a alfabetização de adultos, a mediação de conflitos, a luta contra o racismo e a promoção de atividades culturais (teatro, dança e música).
Destaca-se igualmente A Partilha – Associação de Moradores do Bairro do Zambujal, cujo principal contributo tem sido a representação da comunidade junto dos organismos oficiais. A associação atua como ponte entre os moradores e o município da Amadora. O reforço do espírito de comunidade e da solidariedade entre os residentes é outro vetor a salientar.
A distribuição de alimentos e o apoio psicológico e social (através de consultas de aconselhamento e orientação) também têm sido assegurados por entidades como o Girassol Solidário.
No bairro do Zambujal nasceu ainda a Academia do Johnson, tida como “um refúgio para o desenvolvimento humano”. O projeto foi fundado em 2014 por João Semedo (mais conhecido por Johnson, falecido em finais de 2022), ele próprio um exemplo de superação. Foi toxicodependente, cometeu vários crimes, esteve preso e, não obstante, soube reerguer-se. Retomou os estudos, casou, fez carreira no setor social e tornou-se pai de 4 filhos. Atualmente, a Academia é liderada por uma equipa de gestão, comprometida em assegurar a continuidade do legado de João Semedo.
A arte mora aqui!
O Zambujal é uma galeria a céu aberto. Na empena de um edifício situado na Rua das Mães de Água surge, em grande plano, a imagem de uma mulher e de um homem sentados à mesa, a jogarem xadrez. A pintura é a primeira obra de arte (dedicada à igualdade de género) criada sob a égide do projeto Zambujal 360, que tem como promotoras a Ad Gentes e a CAZAmbujal. Segundo estas associações, o mural “foi executado no início de Agosto, sob o olhar atento dos moradores” e mereceu “um grande envolvimento da comunidade”.
O bairro é, assim, o primeiro do mundo a servir como embaixador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (serão executados 17 murais no total). A pintura tem autoria de Mariana Duarte Santos e contou com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Comércio local, educação pela saúde e educação pela arte são os 3 eixos nos quais este projeto assenta.
Fábio, um jovem do bairro que pretende “ganhar a vida como músico”, contempla o mural. Embora parco em palavras, desabafa: “este bairro tem muita gente com talento. A comunidade está cheia de potencial. Só precisamos de ser ouvidos e apoiados”.
Por aqui se vê que o Zambujal também é um espaço de criatividade e de resistência cultural. O futuro de quem mora no bairro depende, em grande medida, da continuidade dos projetos, do ativismo das associações comunitárias e, não menos importante, do foco das entidades oficiais. Mais do que espaços revitalizados e habituações requalificadas, este é um bairro onde – agora mais do que nunca – a igualdade de oportunidades e a inclusão requerem respostas urgentes e eficazes.
Jornalista






