Aos Professores! – Por Maria João Coelho

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“Cara pessoa, que encontrou esta garrafa, como parte de um projeto de Ciências Naturais do 9º ano, esta garrafa foi lançada no Oceano Atlântico, perto de Long Island. Por favor, preencha as informações abaixo e devolva-nos a garrafa. Merci, Gracias, Danke, Thank You, Shawn e Ben”. Este é o texto que estava dentro de uma garrafa encontrada em janeiro deste ano em Long Island, 32 anos depois de ter sido lançada ao mar. A mensagem tinha como endereço de origem a Mattituck High School em Long Island, a data de outubro de 1992 e o professor responsável pelo projeto: Richard E. Brooks.

Quando o guia de aves aquáticas Adam Travis encontrou a garrafa colocou fotografias, quer da garrafa quer da mensagem, na internet e divulgou-as no grupo de Facebook dos antigos alunos da Mattituck High School. O mais extraordinário desta notícia, divulgada pela CNN, foi a onda de mensagens inspiradoras e carinhosas que os antigos alunos escreveram sobre o seu professor de ciências naturais. Três décadas depois ser recordado com tanto carinho e admiração por alunos é o que faz de alguém ser considerado bom professor.

Este texto serve de mote a uma viagem ao passado em busca das recordações desses extraordinários seres que são os professores! Uma viagem pelo meu tempo de aluna na senda da pegada humana e pedagógica deixada por inúmeros professores.
Felizmente tenho muito boas memórias de muitos dos professores que fizeram parte do meu percurso formativo.

Seria injusta se nomeasse um único professor como aquele que me marcou, porque foram vários, porque tive uma lotaria afortunada de bons professores. Alguns eram mesmo excelentes, quer nas suas competências: científicas, pedagógicas, relacionais, comunicacionais; quer na forma como guiaram esta imensa aventura na descoberta do saber: com coragem, persistência, inovação, criatividade, motivação, e, muito, muito trabalho!

Quero, no entanto, salientar dois professores, e nas suas figuras representar todos os que fizeram parte de um tempo educativo que extravasa em muito a mediação cronológica.
Recordo com muito carinho e admiração a minha primeira professora, a da escola primária. Sim, nessa altura era a professora da primária, e a escola, tal como a sala de aula, mesmo após o 25 de Abril, eram do tempo do plano centenário e ainda com vestígios dos tempos da ditadura… lembro-me do crucifixo na parede e do estrado de madeira, mas acima de tudo, recordo a mentalidade e a criatividade da minha professora D. Graça Augusto.

Professora muito à frente do seu tempo, deu-me a liberdade de afirmar a minha lateralidade esquerdina sem qualquer vergonha, sem punição, com a naturalidade do conhecimento de que ser canhoto é uma questão cerebral que não deve ser mudada. Com a sua viola animava os intervalos, as festas e as próprias aulas. Exigente com as matérias e firme nos valores, tratava-nos como “filhos” e com a sua sensibilidade partilhava connosco mnemónicas e lengalengas que nos ajudavam a desbravar os imensos mapas pendurados no quadro de giz com o nome de todos os rios, serras e estações de linhas de caminhos-de-ferro portugueses. Fazia-nos sentir os melhores alunos do mundo. E, a mim em particular, ensinava-me o valor do brio e do orgulho de querer aprender moldando o sentimento de felicidade na escola.

Na escola preparatória (o atual 2º ciclo do ensino básico – 5º e 6º anos) já nos anos 80, no meio do turbilhão do “boom” escolar e da falta de professores, que fez entrar no sistema de ensino arquitetos, engenheiros, jogadores de futebol…para se transformarem em professores de EVT, Matemática, Química, Educação Física… quis o acaso ou a sorte, fazer-me cruzar com outros tantos professores que possibilitaram uma adolescência sem grandes problemas e com vivências peculiares.

Era o tempo de ir a pé com os colegas até à escola e, no caminho as brincadeiras por vezes faziam-nos perder ritmo e, mesmo quando chegávamos atrasados tínhamos a porta da sala sempre aberta. Fiz sempre parte de turmas animadas, por um lado eramos maioritariamente bons alunos, mas, inquietos e faladores. Não éramos indisciplinados!

Imperava o respeito pelos professores. Porém, éramos crianças livres e ávidas de novas descobertas. Passávamos os intervalos empoleirados nas árvores ou nos muros, jogávamos futebol e fazíamos moches. Lembro-me da estima pelas professoras de línguas, professoras que nos faziam sonhar com Londres e Paris, tal o entusiasmo com que davam os conteúdos acompanhados de minuciosas descrições das duas grandes metrópoles europeias. Mas, eram efetivamente as ciências da Natureza que me despertavam nessa altura o interesse e desafiavam a expansão do conhecimento.

Entretanto, chegava a altura de mudar para a Escola dos “grandes”. A partir do 7º ano frequentei a Escola Secundária que era a Arena de todas as possibilidades! Tinha a sorte de morar no prédio ao lado da Escola, por isso, já conhecia os cantos dos recreios e campos, pois, nos fins de semana eram o palco dos jogos e explorações com os vizinhos. Mas a mudança era um salto de gigante. A Escola era enorme, vários edifícios…havia o bar, as catacumbas, as oficinas, os laboratórios, o ginásio e, uma diversidade de professores. Chegara o momento em que os professores nos atribuíam tarefas, responsabilidades, trabalhos de grupo, muitos manuais e livros para ler.

Dessa fase, tenho novamente boas memórias de vários professores. Infelizmente, esqueci-me do nome de alguns, pois, já nesse período se vivia a instabilidade da colocação e, portanto, a cada ano, mudava a disciplina e mudavam os professores. Mas, saliento o domínio pleno dos conteúdos de uma das melhores professoras de Físico-Química que tive o privilégio de ter, o conhecimento aprofundado do professor de história, a exaltação literária e o discurso retórico que o professor de português do 9º ano trazia para as aulas. No entanto, a professora que marcou definitivamente o meu percurso académico e contribuiu para fazer de mim melhor pessoa, foi sem dúvida a professora de filosofia do 10º ano!

Para além de professora, era minha vizinha, porque era de Coimbra, e teve de arrendar o apartamento do rés-do-chão para exercer a sua profissão longe de casa. Uma professora cheia de alegria, nas roupas e no rosto, dinâmica e generosa na partilha do conhecimento. Abriu-me a sua biblioteca e com ela o maravilhoso e inquietante mundo do pensamento crítico. Com ela, descobri os meus amigos e companheiros de tantas horas de leitura e estudo – os filósofos “mortos” – Nietzsche, Platão, Aristóteles, Kant, Descartes…

Mas, foi na academia, na vertigem da ignorância de uma aprendiza de filosofia que encontrei o meu último professor – o professor doutor Michel Renaud, meu tutor, orientador e pensador amigo que me acompanhou ao longo de duas décadas. Com ele encetei o meu percurso investigativo entre a ética e a bioética até à descoberta da alteridade do filósofo francês Paul Ricoeur. Um caminho reflexivo que me levou a percorrer a europa, participando em congressos e apresentando comunicações que não teriam visto a luz, não fosse a atitude de apoio e incentivo do professor Michel. Com incansável disponibilidade sempre me acolheu as dúvidas, os medos, as angústias…foi testemunhando o nosso próprio trajeto profissional com esperança e tolerância.

Permito-me hoje reconhecer que a minha reflexão filosófica não seria possível sem a confiança deste professor que me acompanhou em mais de metade da minha vida.

Olhando para trás, é fácil reconhecer o fantástico trabalho dos professores.
Enquanto aluna tive muita sorte, pois, tive o privilégio de ter tido mais de dois punhados de excelentes professores! Professores que com a sua dedicação, profissionalismo, conhecimento, sensibilidade, inteligência, cuidado, trabalho me ajudaram a mim e a outros tantos milhares de pessoas nesta aventura de nos descobrirmos e construirmos como pessoas.

Cruzei-me na vida profissional com outros tantos colegas, também excelentes docentes, alguns deles que me facilitaram a aprendizagem de ser professora e agilizaram a minha missão com o seu exemplo, a sua colaboração, a sua persistência e liderança…
Andaimes do saber, obreiros do futuro, exploradores do legado do conhecimento humano nas suas múltiplas facetas. Oleiros de pessoas e das sociedades, pedreiros da educação, missionários da esperança.

Por tudo isto, e muito mais, os professores são seres extraordinários a quem devemos muito, a quem devemos a gratidão, a quem devemos o direito à melhoria das condições de trabalho e o reconhecimento da sua digna e nobre profissão de guardiões da humanidade!
A todos o meu muito, muito obrigada! Obrigada, queridos professores!


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